Tem gente de olho no relógio para bater o pace. Tem quem alterne corrida e caminhada só para chegar ao fim. Nas calçadas, moradores montam churrasquinhos, estendem mangueiras para refrescar os atletas e transformam a passagem dos corredores em um evento à parte. Durante a Dez Milhas Garoto, ninguém da cidade parece ficar totalmente de fora.
Em 2026, foram 20 mil pessoas percorrendo os 16,1 quilômetros entre a Praia de Camburi, em Vitória, e a fábrica da Garoto, em Vila Velha. O maior público da história da prova. As inscrições desapareceram em apenas 14 horas e, pela primeira vez, as mulheres foram maioria, com 51% do total.

Foto: Zoom Filmes

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Mas os números contam apenas uma parte dessa história. O que acontece nas ruas mostra como uma corrida criada dentro da fábrica se transformou em uma tradição dos capixabas. E como a Garoto conseguiu ocupar um espaço na vida das pessoas que vai muito além de quando elas estão com vontade de comer um chocolate.
“A corrida nasceu dos colaboradores da fábrica, então sempre teve essa cultura de dentro para fora”, afirma Priscilla Caselatto, gerente de Marketing da Garoto. “No começo, eram os próprios funcionários que entregavam água e a população também se mobilizava. Acho que é por isso que, quando chegamos na cidade já sentimos essa energia de que todo mundo é dono da corrida.”
Da fábrica para as ruas
A primeira Dez Milhas foi realizada em 1989 para celebrar os 60 anos da “Chocolates Garoto”. A ideia partiu de um colaborador e cresceu com a participação voluntária de funcionários e moradores.
De lá para cá, muita coisa mudou. A competição ganhou atletas internacionais, estrutura profissional e tornou-se a primeira corrida do Espírito Santo a receber o selo World Athletics Label Races, que reconhece padrões técnicos de percurso, operação e organização.
A essência regional, no entanto, permaneceu. Em 2025, 26% dos inscritos vieram de outros estados. Isso significa que, mesmo com alcance nacional e presença de atletas do Quênia, da Etiópia e de Uganda, a maior parte do pelotão ainda é formada por pessoas ligadas ao Espírito Santo.
Essa relação aparece antes mesmo da largada. Basta circular por Vitória e Vila Velha usando a camiseta da corrida para receber comentários, histórias e até sugestões para a próxima edição.
“Essa semana, eu estava andando com a camiseta e todo mundo me parava para falar alguma coisa que tinha visto. Acho muito legal manter esse espírito, com todos ainda se sentindo parte”, conta Priscilla.
A Garoto organiza a prova, mas não tenta enquadrar tudo o que nasce ao redor dela. Pelo contrário: abraça as tradições criadas espontaneamente pelo público.
“Tem a pessoa que faz o churrasquinho, tem quem coloque a mangueira para molhar os atletas, e a gente apoia essas ações. Acho que é isso que faz a diferença”, diz a executiva. “Por mais que a gente organize, todo mundo se sente parte.”
Uma corrida com sabor próprio
Manter uma experiência relevante por 35 edições ficou ainda mais desafiador com o boom das corridas de rua. Hoje, praticamente todo fim de semana tem uma nova prova, um kit diferente e uma medalha pronta para aparecer no feed.
Mas a Dez Milhas começou quando correr ainda estava longe de ser a moda que é hoje. Para continuar crescendo sem perder sua identidade, a Garoto encontrou no próprio produto um elemento que nenhuma outra competição poderia copiar por completo.
“A gente tem de diferente o chocolate e se apropriou muito disso. É a corrida mais gostosa do Brasil”, brinca Priscilla.
A presença da marca acompanha diferentes pontos da experiência, do desembarque no aeroporto de Vitória e a retirada dos kits na fábrica à chegada em Vila Velha. Mas ela também aparece na relação dos participantes com o território e com as lembranças construídas ao redor da prova.
A fábrica, aliás, foi o atrativo turístico mais visitado pelos participantes entrevistados em uma pesquisa realizada pelo Observatório do Turismo durante a edição de 2025. Ela apareceu nas respostas de 28,1% do público, à frente do Convento da Penha e das praias da região.



A conexão não depende apenas da performance. Existem atletas tentando vencer, corredores buscando recordes pessoais e pessoas que têm com principal objetivo simplesmente completar o percurso, nem que seja caminhando.
“É claro que existem aqueles que vão pela performance e querem buscar o pace, mas queremos que todo mundo se divirta. É uma corrida linda, que passa por pontos turísticos, e todos são muito bem-vindos. Você vê gente andando, correndo e incentivando uns aos outros”, destaca Priscilla.
A família também entrou na pista
Com o passar dos anos, a Garoto percebeu que o corredor raramente chegava sozinho. Parceiros, amigos e filhos acompanhavam a viagem, mas a programação estava concentrada na manhã de domingo.
Foi desse comportamento que nasceu a Corrida Garotada, voltada a crianças e adolescentes. A primeira tentativa colocou adultos e crianças para correr no mesmo dia. Na prática, a conta não fechou.
“O pai ou corria ou cuidava do filho”, lembra Priscilla. A prova infantil passou para o sábado e abriu espaço para que as famílias participassem de momentos diferentes do mesmo evento. Em 2026, a 23ª Garotada reuniu 3,5 mil crianças e adolescentes.
Depois, uma nova mudança dentro das casas chegou à programação. Os pets ganharam espaço nas famílias e também na corrida. A quinta edição da Cachorrida, realizada em parceria com a Purina, bateu recorde ao reunir mil duplas de tutores e cães em um percurso de uma milha.

Foto: Consumidor Moderno

Foto: Weverton de Almeida
“A gente foi crescendo enquanto respeitava o crescimento das famílias”, resume Priscilla.
Somadas, Dez Milhas, Garotada e Cachorrida mobilizaram 24,5 mil participantes durante o fim de semana. O número nem sequer inclui familiares, amigos, moradores e torcedores espalhados pelas ruas, esses são incontáveis.
Na Cachorrida, a Purina montou um espaço para apresentar produtos, distribuir amostras e oferecer um Pet Spa. Depois do percurso, os cachorros podiam receber uma massagem. Um pós-prova com um nível de conforto que muito corredor humano gostaria de ter.
“É um momento de conexão em que as pessoas e os pets se sentem ainda mais juntos. Os animais realmente fazem parte da família, e vemos isso se materializar em um evento como este”, afirma Denis Nakashima, head de Marketing de Purina.
Com um objetivo distante de apenas ampliar o número de inscritos, as provas complementares ajudam a transformar a Dez Milhas em uma experiência capaz de acompanhar diferentes fases da vida. A criança que corre alguns metros na Garotada pode voltar anos depois para encarar os 16,1 quilômetros. Quem participa da prova principal pode levar o filho, o parceiro e até o cachorro.
A cidade corre junto e sente o impacto
A movimentação começa antes do domingo. Aeroportos, hotéis, restaurantes, aplicativos de transporte, pontos turísticos e imóveis por temporada recebem parte do público que viaja para participar ou acompanhar a prova.
Uma pesquisa realizada com 400 pessoas que não moravam na Grande Vitória durante a edição de 2025 mostrou que 90,5% viajaram ao destino exclusivamente por causa da corrida. Entre os entrevistados, 91,3% dormiram na região e permaneceram, em média, 3,9 dias.
A experiência também costuma ser compartilhada. Apenas 15% dos entrevistados viajaram sozinhos. Os demais chegaram acompanhados por amigos, familiares ou parceiros, ampliando o impacto gerado por cada inscrição.
Outro ponto de destaque é que a corrida continua fortemente ligada aos capixabas, mas também se tornou um motivo para conhecer o Espírito Santo. Entre os participantes da pesquisa, 28,2% visitavam Vila Velha pela primeira vez.
Durante alguns dias, a corrida muda a dinâmica das duas cidades. Ruas são ocupadas, a Terceira Ponte vira parte do percurso e moradores que talvez nunca tenham colocado um número no peito também entram na experiência ao oferecer água, torcer ou simplesmente assistir à multidão passar.
Uma experiência que continua crescendo
A edição de 2026 ainda teve um capítulo especialmente brasileiro. Núbia de Oliveira conquistou o bicampeonato feminino com 59min39, apenas dois segundos à frente da etíope Kiya Fiseha Shone.
Mais do que o resultado esportivo, o recorde de participantes mostra a dimensão alcançada por uma iniciativa que começou dentro da fábrica. Em 2025, 17 mil vagas foram preenchidas em 48 horas. Neste ano, 20 mil inscrições se esgotaram em 14 horas, um crescimento de 18%.
O avanço aumenta também a expectativa do público. Quem participa de uma corrida tradicional não compara a experiência apenas com a edição anterior, mas com uma oferta cada vez maior de eventos esportivos, ativações e entretenimento.
“Cada ano fica mais desafiador porque as pessoas criam expectativas. O público aumentou muito e está mais exigente”, reconhece Priscilla.
A resposta da Garoto passa por atualizar a estrutura sem apagar aquilo que o evento tem de mais difícil de reproduzir: a relação construída com o território. O selo internacional projeta a prova para fora, mas são as crianças, os pets, os voluntários, os corredores veteranos e as mangueiras nas calçadas que mantêm sua personalidade.
Depois de 35 edições, a Dez Milhas mostra que uma marca não precisa estar presente apenas no produto que chega à casa do consumidor. Ela também pode ocupar as ruas, fazer parte das histórias de uma família e criar uma tradição que a cidade reconhece como sua.
A Garoto dá nome à corrida. Mas são os capixabas que, edição após edição, dão vida a ela.





