- A Amazon transformou a Black Friday em uma temporada de 27 dias, com ofertas novas todos os dias, para atender tanto a compra planejada quanto a compra por impulso.
- A empresa investiu mais de R$ 1 bilhão em creator economy no Brasil desde 2020 e quer mais que dobrar o aporte anual até 2027, com foco em remuneração e ferramentas para criadores.
- Para influenciadores, a venda de novembro é resultado de um trabalho de educação sobre os produtos feito ao longo de todo o ano.
A Black Friday da Amazon no Brasil já não cabe em apenas uma sexta-feira, tampouco em uma semana. Há cerca de três anos, a empresa estende a temporada de ofertas por quase todo o mês de novembro. Movimento que o varejo também vem apostando para impulsionar ainda mais a data promocional. É nesse período que o consumidor faz duas coisas ao mesmo tempo: compra algo planejado há meses e aproveita o desconto para uma aquisição de impulsividade.
Ou seja, além de comprar uma geladeira nova – item que foi buscado, comparado e colocado no carrinho em uma jornada mais longa –, o cliente também aproveita as ofertas para comprar um produto de oportunidade. “A gente se prepara para esse mês já com isso em mente”, explica Camila Nunes, diretora de Marketing e Prime da Amazon Brasil.
Mas, para manter a conversa durante todo o mês, a Amazon aposta em quem está influenciando as compras desse consumidor. A companhia afirma ter ultrapassado R$ 1 bilhão em investimentos acumulados na Creator economy no Brasil desde 2020. Isso por meio do Programa Amazon Influencers.
Além disso, a empresa planeja mais que dobrar o investimento anual no setor até 2027, na comparação com 2025. O anúncio foi feito durante o Creators Lab de Black Friday, evento em que influenciadores parceiros conhecem as ofertas antes mesmo do público, produzindo conteúdo para a data.
Hábito de todo um mês
A lógica de uma Black Friday mais longa parte de um hábito que, segundo Camila Nunes, se consolidou a cada edição. “Virou um hábito o cliente comprar ao longo do mês de novembro todo”, afirma. De um lado, estão os produtos de alto valor agregado, que exigem planejamento, avaliação e comparação de preço. Do outro, itens de rotina, que entram no carrinho porque o desconto apareceu.
Segundo a executiva, esse comportamento está relacionado a um traço cultural. “Nós somos, em comparação a outros países, os clientes que mais gostam de comprar em promoção. É um mês para você comprar várias vezes.” Por esse motivo, a operação foi desenhada para dar razões para o cliente voltar. “A gente tem novas ofertas no ar todos os dias. Sempre vai ter coisa nova.”
Com isso, a temporada estendida da Black Friday muda a natureza do desafio. Concentrar a atenção do consumidor ao longo de 24 horas é uma coisa. Agora, mantê-lo sempre retornando por quase quatro semanas, com ofertas suficientes para que cada visita valha a pena, é outra.

Black Friday com o bolso apertado
Essa Black Friday acontece em um cenário de endividamento elevado das famílias brasileiras. Em setembro de 2026, foram 84,2 milhões de pessoas negativadas, o maior número de inadimplentes em toda a série histórica do Mapa da Inadimplência da Serasa. Ao mesmo tempo, o consumidor está atento a produtos que justifiquem o gasto.
Segundo levantamento da Bain & Company, por exemplo, 83% dos consumidores brasileiros afirmam ter reduzido ou planejado reduzir seus gastos. No entanto, categorias como alimentação fora do lar, entretenimento e cuidados pessoais permanecem entre as formas de se presentear.
A resposta da Amazon passa pela forma de pagamento. De acordo com Camila, a temporada terá milhões de reais em cupons, parcelamento em até 21 vezes no cartão Amazon e desconto para quem prefere pagar à vista. “Tudo isso para garantir que a gente vai atender diversos tipos de necessidade do consumidor brasileiro”, afirma.
Prime Day e Black Friday
Outra estratégia está no Prime. A Black Friday, diferentemente do Prime Day, não é um evento exclusivo para assinantes. Mas, a temporada ganhou uma camada de ofertas restritas a esse público. “Ao acessar a primeira página, o grid de produtos mostra que cliente Prime economiza mais”, explica.
O argumento se apoia no frete grátis e nas modalidades de entregas mais rápidas, que não existiam na edição de 2025. Em São Paulo, a entrega da compra pode ocorrer no mesmo dia ou em algumas horas.
Assim, para a Amazon, Prime Day e Black Friday não disputam o mesmo orçamento do consumidor. “São muitos meses de planejamento”, diz Camila, citando as áreas comercial, de marketplace, de operações e de marketing. “Para a gente, não é uma competição. É complementar.”
O papel dos influenciadores
No calendário da Black Friday, os criadores de conteúdo ganham escala. O Programa Amazon Influencers é a evolução do Programa de Associados, ativo no Brasil desde 2014. Criadores elegíveis podem montar uma página personalizada na Amazon.com.br com listas de recomendação. Eles recebem comissão sobre as vendas geradas e recompensas por conversões em serviços como Prime, Kindle+ e Amazon Music Unlimited.
Hoje, o Brasil conta com mais de 14 milhões de influenciadores, segundo dados da Statista e da Scopen. A Statista ainda aponta que 48% dos consumidores brasileiros compram produtos com base em indicações de influenciadores. Em 2026, segundo a Amazon, as categorias mais impulsionadas por criadores foram celulares, beleza e cuidados pessoais, notebooks e PCs, eletrodomésticos, livros e videogames.
“Eu não acho que na Black Friday os criadores de conteúdo necessariamente ganham mais importância do que em outros momentos”, ressalta Camila. “O comportamento do consumidor faz aumentar o tamanho da oportunidade, tanto de monetização para os criadores quanto de exposição e resultado para as marcas que eles divulgam.”
Criador como cliente
O ponto mais revelador da estratégia está na forma como a Amazon enxerga o influenciador. “Quando a gente fala que a nossa empresa é a mais customer obsessed do mundo, o criador de conteúdo também é um cliente”, afirma Camila. Ao todo, são três: quem faz a compra final, o criador que recomenda e as marcas que vendem na plataforma. “É uma equação onde todo mundo ganha.”
Parte do investimento anunciado para a creator economy vai para tecnologia que amplia as formas de monetização. É o caso, por exemplo, do Amazon Lives durante a Mega Oferta, ação exclusiva para clientes Prime e que será expandida para a Black Friday. A empresa também mantém hubs de integração com Meta e Pinterest e, recentemente, lançou a marcação nativa de produtos no YouTube Shopping. Assim, vídeos de criadores podem ainda ser impulsionados como anúncios em redes parceiras, gerando comissões adicionais.
“Nossa marca vai estar onde o cliente está”, afirma a executiva. “Mas também, com igual importância, para que os creators ampliem esse leque de remuneração.” O resultado é retenção. Afinal, quanto mais avenidas de receita o criador encontra dentro do ecossistema, menor o incentivo para levar sua audiência para outro parceiro comercial.
Independência para creators
É o caso de Malu Fernandes (@marialuizaf). A creator começou a postar conteúdos sobre beleza no Instagram e no TikTok em 2021, no meio da pandemia. Isso sem saber como aquilo poderia virar renda. Foi uma seguidora quem lhe apresentou o programa de associados da Amazon. Ela se cadastrou e passou a colocar links nos stories dos produtos que já usava no seu dia a dia.
Hoje, Malu define o papel da Amazon em sua rotina como uma forma de independência. “Eu não preciso esperar uma marca que eu gosto muito vir até mim”, afirma. O modelo, segundo ela, não fecha portas para a publicidade tradicional. “Tem marcas que eu indico diariamente com a Amazon e que mesmo assim entram em contato comigo, porque gostam da forma que eu produzo conteúdo.”
Sua estratégia para a Black Friday é um espelho da longa temporada da Amazon. A conversão em novembro depende do trabalho feito nos outros onze meses. “Eu não fico falando muito do produto no dia em que ele entra na promoção. Eu falo sobre o produto de forma detalhada e ensino como usa durante o ano inteiro. No dia da promoção, eu só coloco o link”, explica. Quando a oferta chega, a seguidora já sabe como usar o produto, já acompanha o preço e já confia que ele funciona.
Nas semanas que antecedem a data, Malu aquece a audiência. Insere mais os produtos na rotina e direciona as seguidoras para seus grupos de WhatsApp, outro canal de monetização. Ela combina duas frentes. Os produtos que usa de verdade são os que mais convertem. Os itens de tíquete mais alto, que sabe serem desejados pela maioria, vendem com menos frequência, mas sustentam o interesse. A escuta acontece pelo direct, onde ela pergunta o que as seguidoras testaram e o que gostariam de ver. “Muita gente sente falta de o influenciador dar esse palco, essa voz para quem está assistindo”, diz.





