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O que faz a Gen Z querer vestir o que consome?

O que faz a Gen Z querer vestir o que consome?

Patties e Coca-Cola mostram como pertencimento e identidade estão levando marcas que nasceram longe da moda para o guarda-roupa dos consumidores
Novas gerações querem vestir o que consomem
Foto: gerada por IA
Restaurantes viram marcas de lifestyle, refrigerantes vão parar em camisetas e consumidores pagam para carregar seus logos favoritos. Com 55% da Geração Z disposta a comprar roupas de restaurantes de que gosta, Patties e Coca-Cola mostram como pertencimento, identidade e desejo estão levando marcas para muito além de seus produtos originais.

Sair de um restaurante com uma camiseta com a marca da casa já foi sinônimo de brinde. Hoje, tem consumidor querendo comprar e vestir a marca por vontade própria.

Restaurantes estão lançando roupas e acessórios, marcas de bebidas aparecem em tênis, bolsas e moletons e empresas que, teoricamente, não têm nada a ver com moda estão criando coleções limitadas, collabs e produtos que estampam o “look” de consumidores.

E existe bastante gente disposta a pagar por isso. Segundo o State of the Restaurant Industry 2025, da National Restaurant Association, 55% dos adultos da Geração Z afirmam que comprariam roupas com o nome e o logo de um de seus restaurantes favoritos. Mais da metade dos jovens toparia literalmente vestir o restaurante ou a marca que gosta.

No Patties, hamburgueria paulistana conhecida pelo smash burger, essa vontade já virou produto. E com uma particularidade: os itens de lifestyle não ficam disponíveis o tempo todo. Quando aparecem, chegam em quantidade limitada e sem a obrigação de seguir um calendário.

A lógica parece até contraditória se pensarmos que a marca poderia simplesmente produzir mais e vender mais. Mas essa não é a intenção. “Desde que abrimos, deliberadamente não temos produtos para vender o tempo todo justamente para não banalizar a marca. Quando lançamos algo, fazemos versões cápsula, bem limitadas”, conta Henrique Azeredo, CEO e fundador do Patties Burger.

Você até comeria a marca. Mas usaria?

Essa história começou a mudar de proporção para o Patties quando a hamburgueria fez sua primeira colaboração com o Bob Esponja.

Antes da parceria, 90% dos conteúdos produzidos sobre o Patties estavam em veículos de gastronomia. Depois dela, começaram a aparecer publicações de varejo e negócios. “Foi onde ocorreu esse primeiro passo de transição de restaurante de comida para marca”, afirma.

Essa mudança é essencial porque um restaurante precisa fazer alguém querer comer seu hambúrguer. Mas uma marca pode fazer essa mesma pessoa querer comer o hambúrguer, visitar a loja, comprar uma colaboração e usar seu boné em um dia qualquer.

Para ele, existe um motivo por trás disso: pertencimento. “As pessoas não compram produtos, compram pertencimento. Quando alguém veste uma marca, está sinalizando para o grupo ‘eu faço parte disso’ e, ao mesmo tempo, filtrando quem não faz. É um código social”, explica.

Por isso, usar um boné do Patties, não é como usar de outra marca. Usar Nike ou Adidas é esperado. O curioso é querer vestir a hamburgueria onde você come. É esse salto que marcas como o Patties estão conseguindo dar.

A Coca-Cola já fazia isso antes de virar tendência

Foto: reprodução

A vontade de vestir aquilo que se consome pode estar ganhando novos capítulos com a Geração Z, mas a ideia está longe de ter começado com ela.

A Coca-Cola comercializa itens com sua identidade visual há décadas, principalmente com objetos promocionais e colecionáveis. Uma entrada mais estruturada no universo da moda aconteceu em 1985, nos Estados Unidos. A coleção de roupas foi desenvolvida por Tommy Hilfiger, que ainda estava no início da carreira.

De lá para cá, o logo que nasceu para identificar uma bebida passou a aparecer em camisetas, tênis, bolsas, cadernos, adesivos, objetos de decoração, acessórios e uma lista cada vez maior de produtos.

Em 2026, Coca-Cola e adidas Originals voltaram a trabalhar juntas, 24 anos depois da primeira parceria entre as marcas. A coleção criada para a Copa do Mundo reuniu roupas, calçados e acessórios, transformando os próprios códigos da bebida em design. Há tênis inspirados em latas e até na tradicional garrafa de vidro da Coca-Cola. Uma das camisetas recupera anúncios retrô da marca de diferentes épocas.

Refrigerante que virou estampa

A Coca-Cola consegue levar essa lógica para marcas muito diferentes de seu portfólio.

Neste ano, a Fanta entrou no território da moda com a Approve, marca queridinha das novas gerações. A coleção limitada reúne camisetas, jaqueta, moletons, calças, boné, bolsa e lenço e foi construída em torno de ideias como autoexpressão e autenticidade. A própria campanha assume a Geração Z como parte dessa conversa.

E, nesse caso, sair da geladeira e entrar no guarda-roupa é uma intenção assumida. “Estamos ampliando nosso território para a moda e o lifestyle, celebrando a autenticidade de uma forma que só Approve e Fanta poderiam fazer juntos”, afirma Juliana Milagres, diretora de Sabores da Coca-Cola Brasil.

Matte Leão seguiu por outro caminho: em uma parceria com a FARM Rio, a marca virou biquíni, camiseta, canga, bolsa, boné, nécessaire, toalha e até raquete de frescobol. São mais de 20 produtos que misturam os símbolos das duas empresas com referências ao verão e ao lifestyle carioca.

Em um caso, vende-se refrigerante. No outro, chá. Mas o que vai para a roupa é todo o imaginário construído em volta deles.

Se eu gosto, eu quero mostrar

Fazer alguém pagar pela camiseta de uma marca e escolhê-la para sair de casa não é uma tarefa simples.

Henrique admite que essa é uma questão que ele mesmo ainda tenta responder. No caso do Patties, ele acredita que parte desse desejo foi construída pela autenticidade da marca e pela tentativa constante de fugir do que chama de modus operandi engessado do mercado tradicional.

Foto: divulgação

Mas ele deixa claro que a estratégia não tem obrigação nenhuma de dar lucro, longe disso. “Hoje é ZERO oportunidade para faturar mais. Muito pelo contrário, o lucro tem que vir do burger”, afirma.

Segundo o fundador, o Patties acrescenta ao preço de custo apenas impostos e taxas de cartão e delivery, quando houver. A ideia é conseguir entregar itens por valores abaixo dos que seriam normalmente praticados e usar esses produtos para fortalecer a marca.

Ou seja, o boné pode gerar pouco ou nenhum lucro diretamente e, ainda assim, valer muito para o negócio. Porque, segundo ele, existe algo difícil de colocar em uma planilha quando um cliente passa pela rua usando espontaneamente o nome da sua empresa na cabeça.

O melhor “outdoor”

Por muito tempo as marcas pagaram para colocar seus logos diante das pessoas. Em outdoors, camisetas de equipes, fachadas, revistas, televisão e, mais recentemente, no feed.

Cadernos da Coca-Cola
Foto: divulgação

Agora, em alguns casos, é o consumidor quem paga para levar aquele logo consigo. Os números da National Restaurant Association reforçam esse desejo: 55% da GenZ diz que provavelmente compraria uma peça de seu restaurante favorito.

Assim, não estamos falando apenas de uma estratégia inventada pelas marcas, existe um consumidor querendo ocupar o outro lado dessa relação.

Só que isso funciona quando existe alguma coisa por trás do logo que a pessoa também queira comunicar. E nessa lista de motivos, pode entrar a nostalgia, a estética, a exclusividade, o humor, a experiência ou simplesmente a sensação de fazer parte de um grupo que reconhece imediatamente aquele símbolo.

Para Henrique, essa necessidade de pertencimento não é nova, o que mudou foi a maneira como o varejo passou a responder a ela. “É algo muito relacionado à geração mesmo, antigamente a realidade imposta era outra, com foco maior em produto, e hoje os pilares do varejo já são outros”, diz.

O produto ainda precisa ser bom

Nenhuma coleção transforma automaticamente uma empresa em marca cultural. Por isso, lançar uma camiseta não resolve uma experiência ruim com aquilo que colocou a empresa no mapa originalmente.

No Patties, Henrique faz questão de separar as duas coisas: o dinheiro precisa continuar vindo do hambúrguer. Os produtos entram apenas para fortalecer algo que já existe em torno dele.

Por isso, o fundador não tem pressa para lançar a próxima coleção. Há protótipos sendo desenvolvidos nos bastidores, mas nenhuma obrigação de colocá-los à venda em determinada temporada. “Pode ser em 2026 ou 2028, não sabemos quando”, diz. A condição é que quando alguma coisa sair, precisa ser “nota 11”.

A Coca-Cola ajuda a mostrar o outro extremo dessa construção. Depois de décadas acumulando reconhecimento, memória e códigos visuais próprios, ela chegou ao ponto em que uma garrafa pode inspirar um tênis e um anúncio antigo pode acabar estampado em uma camiseta.

Não é mais necessário estar com sede para desejar alguma coisa da Coca-Cola. Assim como, aos poucos, não é preciso estar com fome para querer alguma coisa do Patties.

Quando o produto acaba, o que sobra da marca?

Henrique acredita que a compra puramente transacional perdeu espaço no varejo. Na visão dele, pedir, pagar e comer já não é suficiente para construir uma relação mais profunda.

“As lojas viraram destinos emocionais, ainda mais em um mundo tão estressante como o do mundo moderno”, afirma. “São também um grande refúgio emocional, um lugar para ser feliz e criar memórias.”

Isso explica por que restaurantes, bebidas e tantas outras categorias estão invadindo territórios que pareciam distantes. Essas marcas estão tentando descobrir até onde conseguem acompanhar o consumidor depois que o produto original acaba.

Até porque se um cliente decidir pagar para vestir a marca, é porque, com certeza, ela conseguiu vender alguma coisa além do que estava no cardápio.

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