A principal resposta sobre as mudanças provocadas pela Inteligência Artificial não está em tentar competir com as máquinas. Está em aprender a utilizá-las, preservar aquilo que é essencialmente humano e assumir o protagonismo sobre a própria trajetória.
Para Luis Justo, CEO da Rock World, uma das habilidades necessárias para atravessar esse cenário é a capacidade de se tornar antifrágil. Ou seja, não apenas resistir às dificuldades, mas aprender com elas e encontrar, em meio às crises, oportunidades de fazer diferente.
Ele conhece bem essa lógica. Antes de assumir a liderança da Rock World, Justo era CEO da Osklen quando um incêndio destruiu parte da operação da empresa de moda e colocou o negócio em risco.
Em meio aos escombros, a equipe encontrou tecidos e peças atingidos pelo fogo. O material, que poderia ser apenas uma perda, deu origem à coleção “Fênix”, inspirada justamente na imagem da ave que renasce das cinzas. “Ali, a gente tinha realmente o risco de quebrar a empresa e fechar. Mas vimos a oportunidade de criar uma coleção que foi um sucesso”, contou.
A urgência também mudou a forma de trabalhar. A coleção ficou pronta em seis meses, metade do tempo normalmente necessário para desenvolver uma nova linha. Processos considerados inegociáveis precisaram ser revistos e o novo modelo continuou sendo utilizado depois.
Para ele, a experiência ajuda a explicar que crise não se desperdiça. “Essa crise trouxe para a gente a oportunidade de reinventar uma coisa que nunca seria reinventada quando tudo estava funcionando certinho”, afirmou.
Quando o telefone não toca
Para Justo, a adaptação não depende apenas da capacidade de reagir quando algo dá errado. Ela também exige iniciativa. Em vez de esperar que outras pessoas definam os próximos passos, o profissional precisa assumir o comando sobre as próprias escolhas.
“A dúvida maior da nossa vida é se de fato a gente vai querer estar no banco do piloto ou no banco do carona?”, questiona. A própria trajetória ajuda a explicar a metáfora.
Antes de chegar à Rock World, Justo não tinha experiência no mercado de entretenimento. Durante o processo seletivo para a posição de CEO, soube que disputava a vaga com outro candidato, considerado favorito por conhecer melhor o setor.
Em vez de esperar o resultado, decidiu procurar Roberto Medina, fundador do Rock in Rio, para uma nova conversa. “Pode ser que eu não seja a pessoa mais habilitada de conhecimento do mercado para estar nessa posição. Mas tenho certeza que ninguém quer tanto estar nesse lugar e construir o que você quer construir no futuro da sua empresa do que eu”, disse.
Pouco depois, recebeu a confirmação de que havia sido escolhido. “Se eu estivesse no banco do carona e não sendo o piloto da minha carreira, essa hora eu ia estar no mesmo ou em outro lugar”, afirmou.
Da experiência surge uma pergunta que Justo leva para a carreira: “O que você faz quando o seu telefone não toca?” A resposta, para ele, está na capacidade de agir antes que alguém ofereça uma oportunidade.
Estar presente também é uma forma de protagonismo
Nem todo protagonismo, porém, significa ser a pessoa que teve a primeira ideia. Justo também fala sobre empatia ativa, conceito que relaciona à expressão em inglês “show up”. A ideia surgiu em uma conversa com o empresário Ron Burkle.
Ao perguntar qual havia sido a habilidade mais importante para construir uma carreira, Justo ouviu uma resposta simples: “You need to show up”. “Show up é diferente de show off”, explica. Estar presente, nesse caso, não significa aparecer ou buscar reconhecimento. Significa se colocar à disposição, apoiar pessoas e reconhecer boas ideias.
“Muitas vezes os grandes movimentos são feitos simplesmente porque você foi lá e teve coragem de seguir alguém que tinha uma ideia que fazia sentido ser seguida”, afirma.
No ambiente corporativo, isso significa entender que liderança e protagonismo também podem estar em apoiar uma boa iniciativa e ajudar a transformá-la em algo maior.
A IA não vai esperar
A urgência de assumir o comando da própria carreira ganha uma nova dimensão com o avanço da Inteligência Artificial.
Para Nizan Guanaes, o maior risco não está necessariamente em perder o emprego para uma máquina, mas em ficar para trás enquanto outras pessoas aprendem a usar melhor a tecnologia.
“Você não vai perder o seu emprego para a IA. Você pode perder o seu emprego para quem souber utilizar a IA”, afirma.
Aos 68 anos, o publicitário defende que profissionais abracem as novas ferramentas. Para ele, a IA pode ampliar a capacidade de criação, reduzir custos e permitir que pessoas e empresas menores realizem trabalhos que antes exigiam grandes estruturas.
Ao mesmo tempo, ele pontua que não é preciso terceirizar para as máquinas aquilo que faz parte da experiência humana.
A tecnologia amplia, mas não substitui
Guanaes acredita que a Inteligência Artificial pode mudar a dinâmica de competição ao reduzir algumas das barreiras que separavam grandes empresas de estruturas menores. “É impossível você fazer coisa nova sem ler. O que você sabe do passado? O passado tem um futuro incrível. O passado está cheio de futuro.”
Nesse sentido, ele defende uma curiosidade que não se limita ao universo profissional. Novas músicas, autores de outras épocas, pessoas diferentes e até conteúdos considerados banais podem alimentar a criatividade. “Acho que a gente tem também que se alimentar da bobagem, da novela.”
A ideia aparece em uma de suas frases sobre criação: “Quem cria, nasce todo dia.” A tecnologia pode ampliar o que uma pessoa é capaz de produzir, mas não elimina a necessidade de ter referências, experiências e curiosidade para saber o que fazer com essas ferramentas.
Os assuntos foram tratados no evento Seis&Seis, produzido pelo The News.





