A cada nova compra online, cadastro em aplicativo, solicitação de crédito ou simples clique em um link, cresce a chance de o consumidor brasileiro ser alvo de um golpe digital. O alerta vem do mais recente Relatório de Tendências de Fraudes Digitais da TransUnion, que coloca o Brasil entre os países que mais sofrem com tentativas de fraude na América Latina.
Segundo o levantamento, 3,8% das interações digitais realizadas no País no primeiro semestre de 2025 apresentaram indícios de fraude – índice superior à média latino-americana, que ficou em 2,8%. Na região, apenas a República Dominicana (8,6%) e a Nicarágua (2,9%) registraram taxas maiores.
Os números confirmam um cenário que especialistas e órgãos de proteção ao consumidor vêm alertando há anos: as fraudes digitais no Brasil não são apenas um problema de segurança cibernética, mas um fenômeno social que afeta diretamente a economia, a confiança nas relações de consumo e a vida cotidiana das pessoas.

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O impacto direto no consumidor
Na prática, estar entre os países mais afetados significa que brasileiros estão mais expostos a:
- Roubo de identidade e uso indevido de dados pessoais;
- Abertura de contas fraudulentas;
- Golpes financeiros em compras online e serviços digitais;
- Enganos em aplicativos de entrega, mobilidade e bancos digitais;
- Falsas ofertas e links maliciosos que circulam em redes sociais.
Para o consumidor, isso representa não apenas risco econômico, mas um estado permanente de desconfiança, que corrói a relação com empresas e instituições. Em muitos casos, vítimas enfrentam meses de burocracia para cancelar dívidas impostas por golpistas ou reaver valores perdidos – quando conseguem.
A consequência é devastadora: a internet deixa de ser um espaço de autonomia e conveniência e passa a ser um território de insegurança constante.
Fraudes na mente do consumidor
Nesse ambiente digital marcado por fraudes crescentes, o consumidor brasileiro tem sido cada vez mais criterioso na hora de escolher com quais empresas pretende se relacionar on-line. E os dados da TransUnion mostram que segurança dos dados pessoais é, disparado, o fator que mais influencia essa decisão.
Segundo a pesquisa, 48% dos consumidores elegem a segurança da informação como principal qualidade esperada nas empresas on-line, superando fatores tradicionalmente valorizados, como:
- Qualidade de produtos e serviços (22%);
- Economia de custos (15%);
- Boa experiência digital (9%);
- Tempo de entrega (7%).
Analogamente, a escolha revela uma mudança significativa de comportamento. Se antes preço e conveniência pautavam o comércio eletrônico, agora a confiança passou a ser o elemento central da jornada digital.

Fraude digital é problema social
O avanço das fraudes também provoca efeitos sistêmicos:
- Custos maiores para o setor privado, que repassa despesas de segurança ao consumidor.
- Aumento dos preços de serviços financeiros e seguros.
- Judicialização crescente – já há milhares de processos relacionados a golpes digitais.
- Perda de confiança nas compras online, prejudicando o crescimento do e-commerce.
- Impacto na economia, que passa a conviver com riscos mais altos para concessão de crédito.
Quando o Brasil aparece no topo de um ranking negativo como este, não é apenas o consumidor individual que perde, a sociedade como um todo vê sua estrutura digital fragilizada.
Por que o Brasil é tão visado?
Embora o relatório da TransUnion não explique as causas da liderança brasileira, especialistas em segurança digital e defesa do consumidor apontam três elementos centrais:
1. Forte digitalização sem proteção equivalente
O País se digitalizou rapidamente, mas sem a mesma velocidade em educação digital, mecanismos de verificação e cultura de prevenção.
2. Alto volume de dados vazados
O Brasil acumula sucessivos megavazamentos de dados pessoais, que alimentam redes criminosas e ampliam a capacidade de engenharia social dos fraudadores.
3. Lacunas na proteção ao consumidor no ambiente digital
Embora o Código de Defesa do Consumidor seja avançado, muitos casos de fraude ocorrem fora da esfera de consumo tradicional, em zonas cinzentas que dificultam responsabilização.
O consumidor no centro do problema – e da solução
Colocar o consumidor em primeiro plano significa reconhecer que o enfrentamento das fraudes digitais exige:
- Mais transparência das empresas sobre incidentes e riscos;
- Canais de atendimento ágeis para vítimas;
- Educação para o consumo digital seguro;
- Ações coordenadas entre Procons, Senacon, Ministério da Justiça, Banco Central e setor privado;
- Campanhas de informação massiva, inclusive para públicos vulneráveis.
Enquanto isso não acontece, o consumidor brasileiro segue pagando a conta – com dinheiro, com tempo e com a própria tranquilidade.
Um desafio que moldará 2026
Em suma, os dados do relatório indicam que a fraude digital se tornou um dos maiores desafios da sociedade brasileira contemporânea. Nesse ínterim, 2026 será um ano decisivo. Ou o Brasil avança em proteção e responsabilidade digital, ou continuará figurando nas primeiras posições dos rankings negativos da região.
Com efeito, o que está em jogo não é apenas tecnologia. É confiança pública, segurança das relações de consumo e a capacidade do País de oferecer um ambiente digital saudável, competitivo e justo.





