A 65 dias do Natal, empresas de todo o Brasil se preparam para o fim da escala 6×1 a partir de dezembro. A mudança decorre da Emenda Constitucional nº 141/2026, promulgada em 16 de outubro, que acaba com a escala 6×1 e estabelece dois dias de repouso semanal remunerado.
A coincidência com o período mais movimentado do comércio preocupa entidades empresariais. Para a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o prazo de adaptação pode pressionar contratações, custos e atendimento. A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) também alerta para possíveis aumentos de preços.
Os principais pontos da mudança:
- A primeira etapa começa em meados de dezembro, com dois dias de descanso semanal e jornada máxima de 42 horas.
- A jornada máxima cairá para 40 horas semanais após mais 12 meses, sem redução salarial.
- A Abrasel projeta dificuldades de contratação e pressão sobre os preços de bares e restaurantes.
- A CACB estima impacto de aproximadamente R$ 3 bilhões na folha de pagamento do comércio.
- O Sebrae aponta que parte dos pequenos empreendedores não espera impactos e oferece ferramentas de adaptação.
O fim da escala 6×1 pode mudar a organização do trabalho justamente na temporada de maior movimento do comércio e dos serviços. Mas ainda não é possível afirmar que o Natal será mais caro ou terá menos atendimento. Esses efeitos dependerão das estratégias de contratação, das negociações coletivas, da produtividade e da capacidade de adaptação de cada empresa.
A discussão amplia os impactos já abordados pela Consumidor Moderno na reportagem “Fim da 6×1: quem ganha e quem paga?”. Agora, o calendário de implementação acrescenta um desafio: a primeira etapa da mudança coincide com as compras e confraternizações de dezembro.
Bares e restaurantes
Dezembro costuma ser o período mais movimentado do ano para bares e restaurantes. Confraternizações empresariais, encontros familiares e celebrações de fim de ano ampliam a demanda por atendimento.
Segundo a Abrasel, o faturamento do mês costuma superar em aproximadamente 20% o registrado em um mês comum. Esse movimento ajuda os estabelecimentos a pagar despesas de fim de ano e a enfrentar janeiro, quando a demanda tende a diminuir.
A entidade teme que a necessidade de reorganizar escalas no mesmo período dificulte a manutenção dos serviços.
“As empresas terão 60 dias para encontrar cerca de 3 milhões de trabalhadores. Essa mão de obra não existe. E o prazo termina justamente quando o país mais precisa de gente trabalhando”, afirma Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel.
A estimativa de três milhões de profissionais representa uma projeção da entidade, e não uma contratação já anunciada pelo setor. O número depende de premissas sobre a cobertura das operações e a capacidade de reorganizar as jornadas.
O desafio também não começa agora. Segundo a Abrasel, 88% dos empresários do setor relataram dificuldades para contratar funcionários no fim de 2025. A preocupação é que estabelecimentos com maior capacidade financeira consigam atrair profissionais de negócios menores, intensificando a disputa por cozinheiros, garçons e outros trabalhadores.

O consumidor vai pagar mais?
A Abrasel estima que um restaurante que precise ampliar sua equipe para manter o funcionamento em seis dias poderá enfrentar aumento de aproximadamente 20% na folha de pagamento. A entidade também projeta reajustes de 7% a 8% nos cardápios.
Esses percentuais, entretanto, não representam aumentos já confirmados nem uma previsão aplicável a todos os estabelecimentos. O impacto dependerá da composição dos custos, do número de funcionários, da jornada atual e das alternativas adotadas por cada negócio.
Um restaurante que já opera com equipes distribuídas em cinco dias, por exemplo, poderá enfrentar desafios diferentes daqueles de um estabelecimento pequeno que depende de poucos trabalhadores para funcionar durante toda a semana.
Também será necessário considerar a capacidade de cada empresa para absorver custos, ajustar horários, aumentar a produtividade ou contratar profissionais temporários.
Na avaliação de Solmucci, alguns estabelecimentos poderão optar por reduzir os dias de funcionamento. Outros terão de reorganizar os turnos para preservar a capacidade de atendimento. A consequência para o consumidor, portanto, poderá aparecer tanto no preço quanto na disponibilidade de mesas, nos horários de abertura e no tempo de espera.
Natal mais caro também no comércio
A preocupação não se limita à alimentação fora do lar. A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) estima que a mudança poderá elevar em aproximadamente R$ 3 bilhões a folha de pagamento dos comerciários.
Segundo Alfredo Cotait Neto, presidente da CACB, parte dos estabelecimentos poderá tentar repassar os custos aos preços. Outros poderão enfrentar dificuldades para absorver o aumento das despesas. “Quem conseguir repassar esse valor para o custo sobrevive, e quem paga é a sociedade, mas quem não conseguir repassar, provavelmente vai gerar desemprego e fechamento de empresas”, afirma Cotait.
Trata-se da avaliação do dirigente empresarial. A estimativa ainda exige maior detalhamento metodológico para permitir a comparação entre segmentos e portes de empresas.
O momento da implementação acrescenta pressão ao planejamento do varejo. Para o Natal de 2025, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) havia projetado R$ 72,7 bilhões em vendas e a abertura de 112,6 mil vagas temporárias.
Os números ajudam a dimensionar a importância econômica da temporada, mas não constituem uma previsão para o Natal de 2026. “Os impactos ainda não estão totalmente precificados. Para o comércio, vai haver um aumento de custo, evidentemente, mas o que nos preocupa é como irão fazer essa reorganização”, pontua Cotait.
Na prática, o desafio das lojas será combinar o aumento sazonal da procura com a reorganização das jornadas. Isso envolve definir quantos funcionários serão necessários nos horários de pico, como distribuir as folgas e quais serviços precisarão de reforço.
Pequenos negócios sofrerão mais?
O cenário é heterogêneo.
Enquanto entidades empresariais alertam para custos adicionais, uma pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apresenta uma percepção menos pessimista.
Na 12ª edição da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, 51% dos empreendedores consultados afirmaram acreditar que o fim da escala 6×1 não teria impacto sobre suas atividades. Na pesquisa anterior, realizada em 2024, essa parcela era de 47%.
Os resultados mostram a percepção dos entrevistados no momento da pesquisa, antes da promulgação da emenda. Portanto, não demonstram que a transição ocorrerá sem dificuldades.
A diferença entre as avaliações também pode refletir a diversidade dos pequenos negócios. Nem todos mantêm funcionários contratados, operam aos fins de semana ou utilizam jornadas de 44 horas semanais.
Para o Sebrae, a adaptação dos pequenos negócios exige planejamento e revisão dos processos internos. A entidade recomenda que os empresários analisem a organização das equipes, identifiquem os horários de maior movimento e avaliem oportunidades de aumentar a produtividade.
“Quanto antes os empreendedores se planejarem, mais segura vai ser a atuação da empresa diante de qualquer cenário”, afirma Décio Lima, presidente do Sebrae.
O que muda em dezembro?
A Emenda Constitucional nº 141/2026 estabelece a transição para a escala 5×2 e reduz gradualmente a jornada máxima de trabalho, sem diminuição salarial.
Na primeira etapa, após dois meses da publicação, os trabalhadores abrangidos pelas novas regras terão direito a dois dias de repouso semanal remunerado, e a jornada máxima cairá de 44 para 42 horas semanais.
Doze meses depois, o limite será reduzido para 40 horas.
A mudança não significa que todos os estabelecimentos terão de fechar aos sábados ou domingos. Empresas que funcionam durante toda a semana poderão organizar folgas em dias diferentes, respeitando as regras legais e os instrumentos coletivos aplicáveis.
A emenda também prevê mecanismos de compensação e negociação coletiva durante a transição. Por outro lado, a manutenção do salário não significa necessariamente que todas as parcelas variáveis da remuneração permanecerão idênticas.
No caso de trabalhadores que recebem gorjetas, comissões ou valores relacionados à quantidade de atendimentos, eventuais mudanças dependerão da forma de remuneração, das escalas e das regras aplicáveis.
Por isso, é importante distinguir a proteção do salário contratual dos possíveis efeitos sobre parcelas variáveis.
Negociação sindical evita problemas?
A reorganização das escalas não envolve apenas contratar funcionários ou alterar horários.
Empresas também precisarão revisar contratos, sistemas de controle de ponto e acordos coletivos para identificar cláusulas incompatíveis com as novas regras.
A emenda prevê que disposições de instrumentos coletivos contrárias às novas exigências perderão validade após o prazo estabelecido para a primeira etapa. Nesse contexto, a negociação preventiva com sindicatos pode ajudar a esclarecer a distribuição das jornadas, os critérios de compensação e as condições de funcionamento de atividades contínuas.
O planejamento é particularmente importante para negócios que concentram a maior parte das vendas nos fins de semana. “A negociação coletiva é um pacote de concessões. A empresa cedeu algo em troca da flexibilidade de jornada. Se a regra da jornada cai automaticamente e as demais obrigações permanecem, o equilíbrio do acordo se rompe. A renegociação preventiva com o sindicato é o caminho mais seguro”, orienta Fabiano Zavanella, sócio do Rocha Calderon Advogados e professor de Direito do Trabalho da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Uma mudança mal organizada pode provocar sobrecarga dos funcionários, conflitos trabalhistas ou dificuldades operacionais. Por outro lado, a revisão antecipada das escalas pode reduzir incertezas e favorecer a continuidade do atendimento.
Como o governo ajudará?
O governo federal estuda medidas para apoiar empresas que enfrentarem dificuldades de adaptação.
Em 16 de outubro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a equipe econômica avalia a possibilidade de linhas de crédito e programas de capacitação voltados à inovação e à produtividade.
As iniciativas ainda estavam em análise e não representavam benefícios automaticamente disponíveis às empresas. O Sebrae, por sua vez, já oferece conteúdos e ferramentas de gestão para pequenos negócios.
A combinação entre planejamento financeiro, qualificação, revisão de processos e diálogo trabalhista poderá influenciar a capacidade de adaptação dos diferentes setores.
Afinal, o Natal será mais caro?
Ainda é cedo para responder. Entretanto. um fato é certo: a proximidade entre a primeira etapa da nova jornada e o pico de consumo de dezembro cria desafios concretos para empresas que dependem de funcionamento contínuo e mão de obra presencial.
Abrasel e CACB alertam para possíveis aumentos de custos, dificuldades de contratação e repasses aos consumidores. O Sebrae, por outro lado, registra que parte dos pequenos empreendedores não espera impactos relevantes.
Essas avaliações não são necessariamente incompatíveis. Os efeitos podem variar bastante entre setores, regiões e modelos de negócio. Para o consumidor, a questão central será observar se os estabelecimentos conseguirão preservar preços competitivos, horários de funcionamento e qualidade do atendimento.
Para as empresas, o desafio começa antes do Natal: reorganizar equipes e negociar soluções que permitam cumprir a nova legislação sem comprometer a operação.
A mudança no calendário de trabalho já está definida. O tamanho de seus efeitos sobre o Natal, porém, ainda dependerá das decisões tomadas nas próximas semanas.






