/
/
“Estamos vivendo um colapso da experiência”, diz Ricardo Cappra

“Estamos vivendo um colapso da experiência”, diz Ricardo Cappra

No IACX 2026, o cientista de dados, filósofo e escritor argumenta que a jornada do consumidor deixou de ser desenhada por empresas e passou a ser mediada por sistemas invisíveis.
Ricardo Cappra, cientista de dados, filósofo da tecnologia e fundador do Cappra Institute, no IACX 2026.
Ricardo Cappra, cientista de dados, filósofo da tecnologia e fundador do Cappra Institute, no IACX 2026.
Foto: Consumidor Moderno.
A experiência do cliente deixou de ser planejada pelas empresas e passou a ser definida, em tempo real, por sistemas baseados em dados e inteligência artificial. No IACX 2026, Ricardo Cappra argumenta que esse cenário gera sobrecarga cognitiva, paralisia decisória e torna as decisões cada vez mais distribuídas entre humanos e máquinas. O desafio das empresas, segundo ele, não é só tecnológico, mas cultural: criar governança, desenvolver pensamento analítico e tornar visível um processo decisório que hoje é, em grande parte, invisível.

A experiência do cliente acontece em tempo real, atravessada por decisões automatizadas, dados em fluxo constante e sistemas que aprendem enquanto operam. Foi com essa provocação que Ricardo Cappra, cientista de dados, filósofo da tecnologia e fundador do Cappra Institute, abriu sua participação no IACX 2026.

Estamos vivendo um colapso da experiência”, afirma. Segundo ele, o que antes era um esforço estruturado de design com jornadas mapeadas, pontos de contato definidos e personalização planejada agora se tornou um ecossistema dinâmico, no qual “a experiência deixou de ser aquilo que a empresa projeta e passou a ser aquilo que o sistema decide”.

Durante décadas, empresas trataram a experiência do cliente como um problema de design. Antes, era necessário mapear a jornada, identificar fricções, coletar dados e a partir disso, estruturar interações mais personalizadas.

Sobrecarga cognitiva e paralisia decisória

Esse modelo, porém, entrou em colapso diante da explosão de dados e da multiplicação de ferramentas. “A experiência deixou de ser um problema de design e passou a ser um problema de decisão”, explica Cappra.

Com dashboards, algoritmos e Inteligência Artificial conectando praticamente todas as etapas da jornada, o volume de decisões cresceu de forma exponencial e, junto, veio a complexidade. O resultado é um ambiente em que tanto empresas quanto consumidores enfrentam dificuldades para decidir.

Um dos pontos centrais da análise é a sobrecarga cognitiva. Segundo Cappra, um adulto toma cerca de 35 mil decisões por dia, número que se torna ainda mais crítico em um cenário de hiperconexão e excesso de informação.

Nesse contexto, surge o que ele chama de paralisia decisória. “As pessoas estão sobrecarregadas, os fluxos estão sobrecarregados, as lideranças estão sobrecarregadas. E por isso a experiência fica cada vez mais caótica.”

A combinação entre hiperinformação e hiperconectividade cria o dilema de quanto mais dados disponíveis, maior a dificuldade de distinguir o que realmente importa. Ansiedade, necessidade de atualização contínua e decisões travadas passam a fazer parte da jornada, tanto para quem consome quanto para quem projeta a experiência.

O desequilíbrio da informação

Para Cappra, o problema não está apenas no volume de dados, mas na forma como a informação é construída. Ele propõe uma equação simples: toda informação é formada por dados e narrativa.

Quando essa equação se desequilibra, surgem distorções. “Quando a narrativa pesa mais, eu tenho uma distorção de realidade”, diz, citando o fenômeno das fake news. Por outro lado, o excesso de dados também pode ser problemático: “É muito fácil tirar dados de contexto e contar uma história que as pessoas acreditem”.

O resultado é um ambiente em que decisões são tomadas com base em informações instáveis, o que compromete a qualidade da experiência.

A decisão deixou de ser humana

Outro ponto de destaque da apresentação é a transformação do processo decisório. Para Cappra, a decisão deixou de ser exclusivamente humana e passou a ser distribuída entre diferentes agentes, humanos e artificiais.

Uma decisão é sempre mediada”, afirma. Isso significa que algoritmos, modelos de dados e sistemas de Inteligência Artificial participam ativamente da construção das escolhas, ainda que de forma invisível. Essa invisibilidade, aliás, é um dos maiores desafios. “A gente acha que decidiu sozinho, mas isso já não é mais verdade.”

Nesse cenário, surge o conceito de “híbrido”, indivíduo cuja cognição é ampliada por sistemas de dados e Inteligência Artificial. Ferramentas digitais deixam de ser apenas suporte e passam a atuar como parceiros cognitivos.

O problema é que essa relação rapidamente evolui para dependência. “A gente começa a fazer consulta no sistema antes de pensar sobre o assunto”, afirma Cappra. Esse comportamento altera o fluxo cognitivo tradicional. Em vez de investigar, refletir e construir conhecimento, o indivíduo busca respostas prontas, o que gera uma “ilusão de completude” e reduz a capacidade crítica.

Experiência como resultado de múltiplos agentes

Dentro das organizações, essa transformação se traduz em ambientes de decisão cada vez mais complexos, formados por múltiplos agentes, humanos e não humanos.

Cappra exemplifica com a própria estrutura do Cappra Institute, onde diz que conta com cerca de 100 pessoas trabalhando com o apoio de múltiplos agentes artificiais, o que amplia significativamente a capacidade operacional.

Nesse contexto, a experiência do cliente deixa de ser resultado de uma única decisão ou estratégia e passa a ser fruto de um sistema coletivo e distribuído. “Se humanos e máquinas decidem juntos, quem é o responsável pela experiência?”, questiona.

O desafio da governança invisível

A resposta, segundo ele, passa por uma reconfiguração da gestão. As estruturas organizacionais atuais foram desenhadas para um mundo em que apenas humanos tomavam decisões, o que já não corresponde à realidade.

Hoje, agentes de IA operam dentro das empresas sem necessariamente seguir os mesmos processos de governança, ética e controle aplicados a colaboradores humanos. Isso cria um “gap” que precisa ser endereçado.

A gente precisa tornar a decisão mais visível”, afirma. Isso inclui desenvolver novas políticas de governança, monitoramento e diretrizes éticas para o uso de dados e Inteligência Artificial.

Mais do que tecnologia, Cappra destaca que o principal desafio está na cultura. Segundo dados da McKinsey, 70% das transformações organizacionais falham, principalmente por fatores humanos.

A construção de uma cultura analítica, baseada no equilíbrio entre pensamento crítico e capacidade computacional, é essencial. Esse modelo combina o poder das máquinas com a habilidade humana de questionar, interpretar e contextualizar informações.

Por fim, Cappra trouxe uma analogia com a chamada “síndrome de Frankenstein” para explicar a relação da sociedade com novas tecnologias. Assim como em outras revoluções, da eletricidade aos robôs, o medo faz parte do processo.

A diferença, agora, é que a Inteligência Artificial é invisível. “Ela é uma prótese cognitiva ligada em nós. A gente não enxerga, e isso dá a sensação de perda de controle”, explica.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Painel do IACX mostra como IA e inteligência de dados estão redesenhando a jornada de CX com mais personalização, eficiência e sensibilidade.
Dados deixam de ser estratégia e se tornam conexão com o cliente
Painel do IACX mostra como IA e inteligência de dados estão redesenhando a jornada de CX com mais personalização, eficiência e sensibilidade.
Marta Bezerra, Head de Operações da WebMotors, e Ricardo Galdino, Managing Director da Droz, da Coaktion.
Como a WebMotors transformou o atendimento e ganhou escala com IA
Parceria com a Droz reestrutura a operação, reduz fraudes em 80% e eleva a retenção ao apostar em jornadas segmentadas e inteligência operacional
No IACX 2026, especialistas discutem os limites da humanização da IA e defendem equilíbrio entre tecnologia, empatia e governança para construir experiências relevantes.
Humanizar ou não humanizar, eis a questão
No IACX 2026, especialistas discutem os limites da humanização da IA e defendem equilíbrio entre tecnologia, empatia e governança para construir experiências relevantes.
A Inteligência Artificial está reduzindo a ansiedade ou ampliando a pressão do imediatismo? Entenda como velocidade, contexto e comportamento estão redefinindo a experiência do cliente.
Ansiedade, velocidade e limite: o que a IA revela sobre nós?
A Inteligência Artificial está reduzindo a ansiedade ou ampliando a pressão do imediatismo? Entenda como velocidade, contexto e comportamento estão redefinindo a experiência do cliente.

Webstories

SUMÁRIO – Edição 296

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Rhauan Porfírio
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Gustavo Bittencourt
[email protected]

Juliana Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Jéssica Chalegra
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento
[email protected]

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadoras
Nayara Manfredi
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Rebeca Andrade – Ensinamentos e Aprendizados O futuro do entretenimento no Brasil NBA é a melhor experiência esportiva do mundo Grupo Boticário, em parceria com a Mercur, distribui gratuitamente produtos inclusivos.