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Montei uma sapateira sozinha. Sobrou parafusos, o fundo está improvisado. Mas ela está de pé

Montei uma sapateira sozinha. Sobrou parafusos, o fundo está improvisado. Mas ela está de pé

A Economia da Presença mostra por que, no digital, conhecimento e experiência já não bastam
Legenda da foto
Silvia Belluzzo usa a montagem imperfeita de uma sapateira como metáfora para mostrar que esperar pela perfeição pode impedir empreendedores de avançar. Na chamada Economia da Presença, conhecimento e experiência já não são suficientes se ninguém souber que eles existem. A presença digital passa a funcionar como um ativo de negócio, capaz de gerar confiança, autoridade e oportunidades. Nesse cenário, quem aparece com consistência pode ocupar espaços antes de profissionais mais experientes, mas pouco visíveis.

Algum tempo atrás eu comprei uma sapateira.

Chegou em casa numa caixa grande, cheia de peças numeradas, um manual com ilustrações que pareciam simples e um saquinho de parafusos. Montei sozinha, levei dias. Demorei mais do que devia. O fundo não encaixava porque tentei depois de já ter parafusado todos os lados. Eu olhei, tentei de novo, e decidi que ela ainda estaria funcional, mesmo sem o fundo. Eu tinha duas decisões ali: começar do zero e ter um móvel perfeitamente montado (ainda assim teria o risco de sobrar parafusos!) ou entender que às vezes abrir mão da perfeição é a melhor decisão adiante.

Ela está de pé. Funciona. Guarda meus sapatos.

E você já parou para pensar quantas sapateiras poderiam estar de pé por aí, mas você optou por esperar?

Pensei nessa sapateira nos últimos dias porque ela me pareceu a metáfora perfeita para algo que vejo acontecer com empreendedores o tempo todo – especialmente com aqueles que já têm anos de negócio, clientes fiéis, produto bom, serviço consolidado, e ainda assim resistem a uma coisa simples: aparecer, se posicionar, marcar presença. Calma, você não é e nem quer ser chamado de “blogueirinho”, e eu sei disso.

Vivemos uma virada que ninguém anunciou formalmente

Nos últimos anos, temos vivido uma revolução irreversível que ninguém anunciou: ganhamos voz, autonomia para reservar uma viagem sem uma agência, por exemplo, e nossa relação com o tempo nos faz achar absurdo esperar 10 minutos por um Uber. Tanta autonomia trouxe pluralidade de conteúdo e, claro, a presença digital virou cartão de visita, prova social ou a recepção de muitos negócios.

Silvia Belluzzo é estrategista de negócios, fundadora da Voz Casa Criativa – Escola de Presença e Negócio

Lembra que eu disse irreversível? Afinal, você já viu alguém da geração Z ou Alfa usando um buscador tradicional para decidir onde jantar ou qual o próximo destino de viagem?

E sabe o que percebi? Num mundo onde qualquer um pode ser criador de conteúdo, criadores viram “especialistas” enquanto especialistas se encolhem, escondem e dizem “como assim, Silvia, se eu começar a aparecer em vídeos, como fica minha reputação?”.

Um vídeo de um criador, esses dias, chegou para mim como um chá revelação: se até a Sasha, herdeira da Xuxa, começou a vender suas “blusinhas” em vídeos, o que te faz pensar que a sua presença não é justamente o que falta para mover o ponteiro do seu negócio? (infelizmente não reencontrei o vídeo para a menção).

Em um mar de conteúdos para criadores, percebi a lacuna de apoio a quem quer mudar esse cenário. Por isso, nomeei esse processo de Economia da Presença. Na Economia do Conhecimento, o diferencial era saber mais. Ter o diploma, a certificação, os anos de experiência. Isso ainda importa, mas não é mais suficiente. O diferencial competitivo migrou.

Hoje, o que separa quem cresce de quem estagna não é só o que você sabe. É se as pessoas certas sabem quem você sabe. Presença virou ativo de negócio.

O problema não é que você não tem nada a dizer

O problema é que você acha que precisa estar pronto antes de dizer. Vamos chamar de Método da Sapateira?

Você acha que precisa de uma câmera melhor. De um roteiro mais elaborado. De um perfil mais organizado. De um momento em que tudo esteja no lugar antes de começar a aparecer.

Enquanto isso, alguém com menos experiência, menos profundidade e menos resultado do que você está ocupando o espaço que deveria ser seu. Não porque é melhor. Porque aparece.

Essa é a ironia mais dolorosa da Economia da Presença: ela não premia necessariamente quem mais sabe. Ela premia quem aparece com consistência suficiente para ser lembrado.

Mas e quando você une seu conhecimento à presença? Ganha um poder intangível.

E sabe por que você tem algo poderoso em mãos? A história de uma sapateira torta conecta mais do que se eu te contasse como eu monto muito bem, mesmo não sendo marceneiro. Porque o que conecta não é a perfeição técnica. É o reconhecimento, a audiência olhando para aquele conteúdo imperfeito e pensando: essa pessoa sabe do que está falando. Essa pessoa é real. Eu confio nela.

A vulnerabilidade da imperfeição é, muitas vezes, exatamente o que constrói a confiança que nenhum conteúdo polido consegue comprar.

O que a Economia da Presença pede do empreendedor

Você não precisa virar influenciador. Dançar trends, postar a música da tendência três vezes ao dia? Esqueça tudo isso. Economia da Presença requer posicionamento alinhado e intencionalidade.

Ela pede que você apareça com o que você já sabe. Que você fale sobre o que você já faz. Que você mostre o que acontece dentro do seu negócio – os bastidores, as decisões, os erros, os acertos.

Seu conteúdo não precisa ser entretenimento. Precisa ser útil para quem já está procurando o que você oferece. É quase seu pré-atendimento.

E quando essa pessoa encontrar você (porque você aparece, porque você fala, porque você existe digitalmente), a decisão de compra já está 70% tomada antes mesmo de ela entrar em contato.

Esse é o novo cartão de visitas. Não é o perfil do LinkedIn. Não é o site institucional. É a presença consistente de quem tem algo real a dizer para quem precisa exatamente daquilo.

A sapateira está de pé

Tem um parafuso sobrando numa bandeja ali em cima dela. Toda vez que eu olho, eu lembro que funcionou mesmo assim.

Seu negócio já tem tudo que precisa para começar a aparecer. O conhecimento está lá. O produto está lá. Os clientes que você poderia alcançar estão lá, ora procurando, assistindo, ora decidindo.

A única coisa que falta é você decidir que não precisa esperar o parafuso encaixar direito para montar. Comece imperfeito. Ajuste enquanto se move. Encontre a sua Voz.

Silvia Belluzzo é estrategista de negócios, fundadora da Voz Casa Criativa — Escola de Presença e Negócio — e colunista do Consumidor Moderno.

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