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Desaprovação do governo: há consequências para o consumidor?

Desaprovação do governo: há consequências para o consumidor?

Quando a desaprovação com o governo, a confiança do consumidor tende a cair, o que resulta em menor consumo e menos crescimento econômico.
Legenda da foto
Foto: Shutterstock.

O descontentamento em relação ao governo permanece elevado. Um exemplo disso é a recente pesquisa da Quaest em parceria com a Genial Investimentos. Ela revela que a desaprovação ao governo Lula aumentou de 49% em janeiro para 56% em março. No mesmo período, a validação caiu de 47% para 41%.

Segundo a pesquisa, o fator-chave para o crescimento da descrença no governo Lula é a deterioração do poder de compra. Ou seja, o número de brasileiros que considera que a economia se deteriorou no último ano aumentou de 39% em janeiro para 56% em março. A percepção negativa é acentuada pela sensação ampla de elevação nos preços. Segundo a pesquisa, 88% dos entrevistados notaram aumento nos preços dos alimentos nos supermercados no mês passado.

Em outras palavras, as implicações desse descontentamento são significativas e terão reflexos diretamente na vida do consumidor.

Governo em baixa

Roberto Simonard, professor do curso de Administração da ESPM.

À medida que a desaprovação de um governo se intensifica, um fenômeno intrigante começa a se desenrolar: a confiança da população começa a vacilar. Essa transformação não é meramente uma questão de opinião pública; ela reverbera diretamente nos hábitos de consumo. Os consumidores adotam uma postura mais cautelosa em relação aos seus gastos e investimentos, passando a priorizar a economia e a proteção de seus recursos.

Roberto Simonard, professor do curso de Administração da ESPM, lança luz sobre o assunto. “Quando a confiança no governo diminui, os cidadãos tendem a se retrair, ajustando seus comportamentos financeiros como forma de se proteger em tempos incertos”.

Em sua visão, a desconfiança em relação ao governo pode impactar o comportamento de compra dos consumidores de diversas maneiras. Só para exemplificar, os consumidores podem optar por antecipar suas compras, na expectativa de que as coisas piorem. “Outros, por outro lado, podem optar por diminuir o consumo imediatamente, visando poupar mais e se preparar para eventualidades. Essas decisões dependem do nível de renda e do setor/produto em questão.”

Governo – consumidores – empresas

Em meio ao cenário econômico turbulento, onde a desconfiança em relação ao governo se torna uma sombra sobre as decisões dos consumidores, surge um dilema intrigante: como essa desconfiança pode balançar a lealdade às marcas? O professor nos revela um fenômeno interessante: em tempos de inflação, os consumidores, como verdadeiros caçadores de oportunidades, passam a priorizar o melhor custo-benefício.

Essa busca incessante por preços mais baixos, que muitas vezes se traduzem em produtos de qualidade inferior ou em marcas menos conhecidas, acaba relegando as marcas tradicionais a um segundo plano. Assim, enquanto as prateleiras se enchem de opções tentadoras, o que antes era sinônimo de confiança e familiaridade pode, em um instante, se tornar apenas mais um item em uma lista de compras. É um verdadeiro jogo de xadrez entre qualidade e economia, onde as marcas precisam se reinventar para não serem esquecidas na prateleira da desconfiança.

Queda na aprovação

A diminuição na aprovação é observada de forma abrangente em todas as regiões do país. No Nordeste, tradicional bastião eleitoral de Lula, a diferença entre aprovação e desaprovação, que era de 35 pontos percentuais em dezembro de 2024, reduziu para apenas 6 pontos em março. No Sudeste e Sul, a disparidade entre desaprovação e aprovação chega a 23 e 30 pontos, respectivamente, evidenciando a deterioração do apoio ao governo em regiões estratégicas.

Em suma, a pesquisa da Quaest e da Genial Investimentos aponta que 88% da população considera que o preço dos alimentos no mercado subiu muito no último mês. Para efeito de comparação, em maio de 2024, o índice estava em 73%. E em junho de 2023, a taxa era de 37%.

Este aumento significativo na insatisfação da população em relação aos preços dos alimentos reflete não apenas a pressão inflacionária que os consumidores enfrentam, mas também o impacto dessa realidade nas decisões diárias de compra. O aumento nos custos dos alimentos tem implicações diretas na qualidade de vida da população, afetando principalmente as famílias de menor renda, que dedicam uma parte considerável de seus orçamentos à alimentação.

Aumento de combustível

Nos postos de combustível, para 70% dos entrevistados, o preço da gasolina subiu muito. Em janeiro de 2025, esse índice estava na casa de 57%, e em julho de 2024, 44%. No mês de junho de 2023, os consumidores que reclamaram do aumento de combustíveis foi de 25%.

Como resultado, 81% dos brasileiros indicam que o poder de compra de suas famílias diminuiu em comparação ao ano anterior. Essa percepção econômica contribui para entender por que as medidas do governo ainda não refletem em uma melhora na avaliação do presidente.

O gráfico abaixo mostra que a confiança do consumidor está em níveis historicamente baixos, refletindo um cenário de incerteza que pode levar a uma retração adicional na economia. O receio de uma recessão, combinado com a crescente carga tributária e as dificuldades enfrentadas pelo setor privado, cria um ambiente desafiador para a recuperação econômica.

Mudanças pela frente

Em meio a um cenário desafiador, o governo Lula implementou, nos últimos meses, duas ações na tentativa de mudar a maré da alta rejeição. A primeira delas foi a eliminação da taxação sobre alimentos importados, visando frear a escalada dos preços. Contudo, essa iniciativa ainda é desconhecida por muitos e gera controvérsias: entre aqueles que criticam a administração, apenas 37% opinam que essa medida não contribuirá para a diminuição dos preços dos alimentos.

A segunda aposta é a chamada reforma do Imposto de Renda. Cerca de 26% dos brasileiros esperam ser beneficiados, totalizando mais de 46 milhões de pessoas. 

Entre aqueles que acreditam que serão isentos, metade espera uma melhoria considerável na renda familiar. Por outro lado, entre os que aguardam um benefício parcial, 35% também confiam em uma melhora significativa.

Apesar das medidas adotadas, a desaprovação ao governo Lula permanece alta, atingindo 56%. A criação de expectativas positivas não é suficiente para mitigar a frustração de uma parte do eleitorado, que se sente desconectada das ações do governo. O governo Lula 3 ainda não recuperou a confiança e a credibilidade perdidas no início do ano. A alta desaprovação registrada em janeiro se confirmou e se aprofundou em março.


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