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De volta aos anos dourados

De volta aos anos dourados

Em Paris, livraria convida clientes a um retorno ao passado e a curtir lentamente o tempo
Legenda da foto

De frente para o Sena, com vista para a Catedral de Notre Dame, fica um local que, de tão old school, se torna único. A livraria Shakespeare & Company é um clássico em uma cidade repleta de atrações imperdíveis. Para quem é apaixonado por livros, é parada obrigatória.

Localizado em uma pequena praça, o edifício antigo seria mais um em uma cidade milenar. A fachada sugere qualquer coisa, menos uma experiência incrível. Mas, voilà, estamos em Paris, onde tudo é mágico.

A capital francesa é conhecida mundialmente por sua pouca paciência com o idioma inglês, o que torna ainda mais surpreendente o acervo da livraria, composto exclusivamente por títulos neste idioma. Ao entrar na loja, claro, o Jornalista é recebido com um “hello”, em vez de um “bonsoir”. Os móveis são antigos e seu estado de conservação mostra que eles estão longe de serem tratados como peças de museu. A sinalização da loja é simples: aqui e ali, pedaços de papel grudados com durex aos móveis indicam os temas das obras. E o mix é bem sortido: literatura inglesa e estrangeira, ficção científica, biografias, artes… As estantes estão repletas de livros e o local parece muito mais a casa de alguém obcecado por leitura do que uma loja moderna.

Em cada cômodo, a cada passo, uma surpresa diferente. Ao mesmo tempo em que a série de aventuras do agente Jack Reacher (recentemente interpretado no cinema por Tom Cruise) se faz presente, James Joyce encontra bastante espaço. Um cartaz indica que há livros infantis no andar de cima e, quase no mesmo momento, surge o som de um jazz muito bem tocado no piano. Ou será que a música estava lá o tempo todo e somente agora é que a ouvimos?

Escada acima, a parede de pedras é parcialmente coberta por gravuras de escritores como Ernest Hemingway, Emile Zola, Gertrude Stein e Ezra Pound, habituées da loja original, aberta em 1919. O local atual é, na verdade, a terceira geração da Shakespeare, aberta em 1951 por George Whitman como Le Mistral e rebatizada em 1964 para homenagear o espaço original. Os degraus da escada rangem enquanto o Jornalista sobe lentamente, lendo os cartões que oferecem aulas de inglês. Nada mais apropriado.

O piso superior abriga uma pequena sala com livros infantis espalhados sobre um sofá. Em frente, o espaço se desdobra, revelando uma sala de leitura exclusiva para outros livros que estão naquele lugar. Nada de levar para cima os livros do andar de baixo, por favor. Um enorme gato branco passa, preguiçosamente, sem pressa alguma. Afinal, ele está em sua casa. Como deveríamos nos sentir.

Em outra sala, encontramos algumas pessoas estiradas sobre os dois sofás, ouvindo um talentoso pianista que, disfarçado de mendigo, brinda o pequeno público com minutos de boa música. Que poderão ser horas, se der vontade. A única limitação é o horário de funcionamento da loja. Fora isso, entre e fique à vontade.

O tempo passa. Quanto tempo o Jornalista não sabe. Alguns minutos? Algumas horas? Mas aquela bagunça de livros espalhados nas estantes, móveis muito velhos e um ambiente que parece saído do filme “Meia Noite em Paris” ficará por muito mais tempo na memória.

Como conceito de varejo, a Shakespeare & Company mostra que em um mundo digital, extremamente conectado e acelerado, existe espaço para navegar no sentido oposto. Ainda que seja para ser o último dos moicanos, o derradeiro vendedor de máquinas de escrever ou a única livraria de Paris onde não se fala francês.

Leia mais:
O que Paris ensina ao varejo?

Um conto de Nova York

Que a força esteja com o varejo

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