/
/
O desafio da datacanalidade na experiência sem limites

O desafio da datacanalidade na experiência sem limites

Executivos da Twilio, Ford e Grupo Fleury mostram que a informação em tempo real proporcionada pelos dados precisa ter intenção e canal certo para criar uma experiência de excelência
Foto: Thiago Bernardes
No painel Datacanalidade 4.0: a arte da experiência fluida, do CONAREC 2026, executivos da Twilio, Ford e Grupo Fleury, mostram que o omnichannel virou o mínimo esperado e que o diferencial agora está em usar o dado do cliente em tempo real, com contexto e intenção. De carros conectados, passando pela aposta em menos canais e mais fluidez, e uma infraestrutura tecnológica agnóstica, os participantes demostram com exemplos claros que dado potencializa a experiência mais lembrada: a conexão humana.

José Eduardo Ferreira é cliente do mesmo banco desde 1993, quando ganhou o primeiro cartão ainda adolescente. Mais de trinta anos de histórico de compras depois, a instituição insiste em enviar para o seu e-mail ofertas de seguro pet. Ele nunca comprou um único item relacionado a animais. “Meus filhos pedem muito, mas eu ainda não fui para essa prática”, brinca o vice-presidente regional de Vendas para a América Latina da Twilio.

O episódio resume o debate que guiou o painel “Datacanalidade 4.0: a arte da experiência fluida”, no CONAREC 2026. As empresas nunca tiveram tantos dados sobre seus clientes. O que ainda falta, em muitos casos, é transformar essa informação em uma conversa que faça sentido para quem está do outro lado.

“Talvez a diferença entre usar bem a datacanalidade seja sair da reatividade para a proatividade e, principalmente, para a intenção. Comunicação, acho que todo mundo resolve. Agora, a conexão para que a intenção do cliente seja de fato endereçada talvez seja o nosso grande desafio”, afirma José Eduardo.

Omnichannel virou ponto de partida

Durante anos, a meta das companhias foi estar presente em todos os pontos de contato, do aplicativo ao e-commerce e chegando a loja física. Para Lucas Coppelli, presidente da Valua Consultoria e mediador do debate, esse modelo hoje é apenas o mínimo esperado.

“Isso já é o padrão. O que a gente vê cada vez mais forte é a datacanalidade, onde as empresas precisam ter os dados do consumidor em tempo real. Aquele dado precisa estar pronto para ser usado no momento exato em que o consumidor está interagindo, com a mesma informação em todos os canais”, explica.

A régua, segundo ele, é definida pelo próprio cliente. “Cada consumidor olha o melhor padrão do mercado, não importa a sua indústria, não importa o seu setor. Esse é o nosso grande desafio.”

O valor está no contexto para a datacanalidade

Na Ford, todos os carros vendidos pela montadora no Brasil são conectados com um chip que envia dados para a nuvem. A isso se somam o histórico de compra e manutenção, o uso do aplicativo e as pesquisas de satisfação. Maria Carpentieri, diretora de Customer Experience e Data Strategy para a América do Sul da companhia, explica como essas camadas se combinam na prática.

“Eu sei, pelo dado conectado, que o cliente está na hora de fazer a revisão. Pelo dado cadastral, sei que ele mora em São Paulo e tem rodízio na segunda-feira. Então vou oferecer o serviço que melhor se encaixa para ele. Nossa visão é de comunicação proativa”, detalha.

Para Patrícia Maeda, presidente da unidade de negócios B2C do Grupo Fleury, é justamente essa postura que diferencia uma marca das demais. “Os dados são infinitos e todas as empresas têm os nossos cadastros. O que vai fazer a diferença para você se destacar é ter esse contexto.”

No caso da saúde, o contexto pode ter consequências muito maiores do que uma venda, ela diz. A executiva conta que o Fleury identificou pacientes com achados não malignos em tomografias de tórax, que exigem acompanhamento a cada seis meses. Ao levantar os dados, a empresa descobriu que 85% deles não voltavam para refazer o exame. Hoje, o paciente e seu médico são avisados.

“Aquilo pode evoluir para um câncer de pulmão, que é o de maior letalidade. Trazer esse alerta e esse contexto de informação é importante e, no nosso caso, salva vidas”, afirma Patrícia.

Foto: Thiago Bernardes

Menos canais, mais fluidez

Se o contexto é o que dá valor ao dado, multiplicar canais nem sempre ajuda. Patrícia faz uma provocação nesse sentido. “Eu sei que as empresas de tecnologia dizem que é muito simples e que toda a tecnologia está à disposição para fazer a migração da experiência pelos diversos canais. Mas quem está no dia a dia da experiência do cliente sabe que não é assim. Aumentar a quantidade de canais de interação aumenta a complexidade.”

Por isso, o Fleury tem apostado em uma estrutura mais enxuta, ela conta. “A gente defende muito diminuir a quantidade de canais e ter uma experiência muito fluida e personalizada, em vez de uma abertura muito grande de canais e uma experiência mais truncada.”

Eduardo Ferreira, da Twilio, concorda que concentrar tudo em um único canal pode ser um erro. “O WhatsApp talvez seja utilizado em 80% das interações na América Latina, mas existem outros canais tão eficientes quanto. Precisa que toda a jornada seja feita por esse canal?”, questiona. Ele cita clientes que planejam disparar 3 bilhões de SMS por ano. “Por que você quer enviar 3 bilhões de SMS se talvez esse não seja o caminho mais apropriado? Dar inteligência ao dado e monetizá-lo para uma conversão mais eficiente talvez seja o grande benefício.”

O retorno está em quem já é cliente

É fato que conectar todos os canais em tempo real custa caro, e a pergunta sobre retorno sobre investimento surge no debate. No Fleury, Patrícia conta que nenhum projeto é levado para aprovação pela área de tecnologia. “É sempre o gestor do negócio, e a gente precisa se comprometer com algum ganho ou alguma entrega”, pontua.

Na conta da executiva, o maior ganho está na fidelidade. “Conquistar novos clientes é caro. Por mais conhecida que seja a sua marca, você precisa gastar em branding, em marketing direto, e a taxa de conversão fica em 5%. Reter os clientes que já estão na sua base é chave. É onde você tem a maior geração de valor.”

Eduardo Ferreira defende que o investimento seja menor quando a tecnologia se soma ao que a empresa já tem. “A gente não acredita muito em substituir tudo. Você tem o seu CRM, o seu data warehouse, o seu data lake. Conviver com esses sistemas e potencializá-los talvez seja a grande vantagem da Twilio.” E conclui: “Se a marca tem o meu contexto, mais fácil ela vai conseguir tanto ser proativa com outros produtos quanto me fidelizar.”

O “uau” que o algoritmo não entrega

Por mais sofisticada que seja a tecnologia, os executivos chegam ao final do debate a um mesmo ponto: a lembrança que fica é humana. “O que o cliente mais lembra é a conexão emocional. Nosso desafio é gerar experiências imediatas, com agentes de IA, mas também gerar os dados que permitam à pessoa que entrega a experiência física criar essa conexão”, diz Maria. Na Ford, a IA já produz resumos de cada cliente para que o concessionário o receba de forma personalizada. “Isso é hiperpersonalização, porque são dados a serviço de uma pessoa que atende.”

Patrícia tem um exemplo que nenhum sistema planejou. Nas unidades do Fleury, uma copeira escreve bilhetes à mão nas bandejas de café entregues aos pacientes. “A gente nem orienta que ela escreva. Ela escreve porque gosta e acha que tem que fazer diferença na vida daquelas pessoas. A quantidade de elogios, prints e manifestações na internet que eu recebo por causa disso é impressionante. É esse tipo de impacto que torna o cliente fiel”, conta.

São os momentos que ela chama de “uau”. “No digital e canais mais automatizados, dificilmente você consegue trazer esse uau. Acredito muito que o equilíbrio entre esses dois processos faz a experiência diferente”, ressalta.

Para Lucas Copelli, mediador do painel, a conclusão que fica é que a tecnologia sustenta a entrega, mas a identidade da marca continua nas mãos das pessoas. “Os consumidores se conectam pela identidade que a empresa tem. E isso vem das pessoas. Depois, o restante da entrega vem pelas tecnologias”, finaliza.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Experiência é o que o concorrente não consegue copiar
No CONAREC 2026, Thaíze Tavares, especialista em vendas e experiência do cliente, afirma que a conexão humana pesa mais do que preço, técnica e produto na construção da preferência do consumidor
IA em toda a jornada garante percepção de valor no CX?
No CONAREC 2026, CEOs de Rappi, Méliuz, TP e Brasilprev mostram que a IA só se converte em experiência e valor quando eficiência, uso responsável de dados e presença humana caminham juntos
Diante de um mercado ilegal que movimenta bilhões no Brasil, tecnologia antifraude que permite verificação de procedência de garrafas da Diageo passa a integrar a jornada de consumo de bebidas destiladas.
Confiança entra na jornada de compra de bebidas destiladas da Diageo
Diante de um mercado ilegal que movimenta bilhões no Brasil, tecnologia antifraude que permite verificação de procedência de garrafas da Diageo passa a integrar a jornada de consumo de bebidas destiladas.
Por que o básico bem feito ainda define a experiência do cliente
No CONAREC 2026, CEOs da Dengo, Tommy Hilfiger, Tahto e Gupy mostram por que qualidade, processo e gente vêm antes de qualquer tecnologia na construção de marcas memoráveis

Webstories

SUMÁRIO – Edição 298

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Vice-Presidente Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

Rodrigo Santinelo
rodrigo.santinelo@gpadrao.com.br

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadora
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Prime Video aposta em vídeos curtos e amplia funções do streaming Do clique ao dano: quem responde nas novas relações de consumo? Menos estímulos, mais experiência? Quando o tempo perdido vira indenização