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A cruzada das maquininhas: uma “guerra saudável”

A cruzada das maquininhas: uma “guerra saudável”

Com o mercado de adquirentes e subadquirentes oxigenado após novas regulações do Banco Central, a disputa pelo consumidor gerou uma “guerra saudável” no ecossistema de pagamentos. Consumidor Moderno mapeou o que as empresas estão fazendo e como se preparam para o futuro

Crédito ou débito? Antes da pergunta ser feita ao consumidor, muitas decisões precisaram ser tomadas pelo lojista, até então preocupado com a saúde financeira de seu negócio e com a praticidade de organizar as vendas feitas por cartão.

Embora o número de pessoas desbancarizadas no Brasil ainda seja de aproximadamente 60 milhões, de acordo com dados do IBGE, o comerciante que não souber escolher bem a máquina que cuidará das suas operações poderá sentir, no bolso, as consequências.

“Culturalmente, o brasileiro ainda utiliza muito o dinheiro físico, mas esse cenário está mudando. Temos várias tecnologias e tendências se destacando”, explica Augusto Lins, presidente da Stone.

Se por um lado o consumidor não sai mais de casa sem cartões, os lojistas viram crescer vertiginosamente nos últimos anos o número de empresas e soluções que oferecem máquinas dos mais variados tipos e modalidades.

Seja em táxis, feiras de rua, estacionamentos ou até mesmo em pontos de venda fixos, as maquininhas se tornaram o elo fundamental entre quem vende e quem compra. De acordo com levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), o uso de cartões no Brasil cresceu 14,5% em 2018, atingindo a marca de R$ 1,55 trilhão em compras – o que equivale a 22,8% do PIB.

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Na esteira de novas soluções digitais criadas por fintechs e com o crescimento de microempreendedores individuais (MEIs), o setor de pagamentos – que era duelado por apenas dois players até pouco tempo – cresceu rapidamente.

“Muito se fala da guerra das maquininhas, mas se você for ver toda a conjuntura não existe um mercado novo ligado ao físico. As empresas que vão se destacar serão as que estão atentas a esse novo mundo, que está olhando o e-commerce, por exemplo, de forma diferente. São iniciativas como essa que vão diferenciar os homens dos meninos nesse setor”, avalia Edison Kinoshita, VP de Operações da Cielo.

Com opções que contemplam do pequeno empresário aos grandes varejistas, esses players atuam com diferenciais competitivos diversos, que vão desde zerar as taxas das maquininhas, até a rapidez de recebimento das transações. Companhias do setor financeiro já se preparam para a estruturação de dados que vai permitir organizar e padronizar plataformas de pagamentos instantâneos já em 2020.

Um levantamento da consultoria Accenture mostra que a transferência de valores – o que inclui transações entre pessoas e comerciantes – tem potencial de movimentar R$ 48 bilhões e atingir a marca de R$ 3,3 bilhões de transações por ano.

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A mudança definitiva desse setor se deu em diferentes fases nos últimos dez anos, após a atuação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica com o Banco Central do Brasil, que pôs fim à exclusividade entre credenciadores e bandeiras.

Paralelamente, com o surgimento de novas tecnologias, o setor de adquirentes e subadquirentes cresceu e a entrada de novos competidores passou a beneficiar o consumidor, que no final das contas é justamente quem decide a melhor opção na ponta final do processo.

 Na visão de Ricardo Vieira, diretor-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), a entrada de novos players trouxe benefícios para quem compra e para quem vende.

“Com o mercado aberto e a competição elevada, houve redução das taxas cobradas aos estabelecimentos comerciais e, com certeza, essa redução de preços acaba beneficiando o consumidor”, afirma Vieira.

Nesse cenário mais competitivo, diz ele, esse desafogo de taxas aos lojistas naturalmente acaba sendo repassado positivamente aos consumidores no preço final.

Em um estudo feito no ano passado, a instituição destaca que foram movimentados R$ 965 bilhões em vendas com cartões de débito. Um crescimento de 16% foi projetado para esse mercado este ano.

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Criada em 2003, a Getnet foi comprada pelo banco Santander em 2014 e se tornou um player importante no momento de curva de abertura desse mercado no Brasil.

“Hoje é preciso garantir que todos os competidores tenham a isonomia do ponto de vista do mercado”, explica Pedro Coutinho, CEO da operadora. O executivo acrescenta que o setor deve movimentar R$ 1,8 trilhão este ano.

“São quase 25% do PIB. Isso mostra que essa indústria vai conduzir mudanças importantes e a regulamentação tem ajudado muito nos últimos anos. Nessa evolução da competitividade, a Getnet foi a primeira empresa a romper o duopólio nesse setor”, destaca.

Ao avaliar as variáveis desse segmento, Kinoshita entende que o diferencial, daqui pra frente, está na prestação de serviços.

“Questões de tarifas e maquininhas são commodities. Amanhã posso reduzir a tarifa como o outro fará também. O diferencial dessas empresas será como elas se relacionam com os seus clientes”, enfatiza.

“Mais do que tecnologia, a chave desse avanço é entender o que o consumidor realmente precisa”, diz Kinoshita.

Fundada em 2012, a fintech global SumUp atua no setor de pagamentos móveis com foco em uma engrenagem fundamental na economia nacional: os microempreendedores.

“Esse cliente tem hoje uma dor que a gente está resolvendo melhor do que qualquer outro player”, explica Fabiano Camperlingo, CEO da SumUp no Brasil.

Para o executivo, um indicador que justifica o motivo de a empresa dobrar de tamanho a cada ano é a satisfação de seus clientes.

“Nosso Net Promoter Score (NPS) é o triplo da média da indústria e o dobro do segundo maior. O que vai nos garantir continuar crescendo é ter essa grande base de clientes, que tem dobrado a cada ano”, acrescenta.

Também entusiasta desse novo desenho do ecossistema brasileiro de pagamentos, Augusto Lins, da Stone, explica que as novidades oxigenaram o mercado e promoveram mudanças que vão muito além do ato de realizar uma compra.

“Com a abertura de mercado, outras empresas se desenvolveram e entraram no jogo, o que levou a uma queda sistemática nas taxas cobradas, aumentando a inovação e a inclusão financeira e social”, diz Lins.

Ele salienta que a proximidade com o cliente e a transparência foram fatores determinantes no expressivo crescimento da empresa. “São as principais causas para termos alcançado mais de 7% de market share em apenas cinco anos de existência e uma bem-sucedida abertura de capital na Nasdaq”.

Para Edlayne Altheman Burr, diretora-executiva da Accenture, a chave da mudança do cenário de pagamentos brasileiro se redefiniu com o início da descentralização do setor bancário.

“Além da entrada de grandes empresas como Getnet, Stone, First Data, SafraPay, PagSeguro e Mercado Pago, houve a criação de novos negócios a partir das startups”, explica a executiva. Segundo ela, temos mais de 200 fintechs no Brasil, sendo o tema pagamentos aquele com o maior número de empresas e investimentos (cerca de 25% do total).

Como resultado do surgimento de novos modelos de negócios, inovações e mais competitividade, as taxas praticadas pelo mercado passaram por compressão, o que fez com que os adquirentes explorassem novas fontes de receita.

De acordo com Marcelo Wakatsuki, diretor de Serviços Financeiros da Deloitte, o setor deve crescer com ofertas de pagamentos mais amplas. Os consumidores poderão selecionar formas que melhor atendam às suas demandas.

“Observamos um movimento dos adquirentes para ampliar suas ofertas com serviços de valor agregado. Gestão de fluxo de caixa e prevenção a fraudes são alguns exemplos. Essa tendência de ajuste da proposta de valor deve continuar para reduzir a dependência em relação à receita gerada somente pelas máquinas de pagamento”, afirma.

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Tendências do setor

De modo geral, o setor de meios de pagamento continua a empreender tecnologias com intervalos cada vez menores. Tendências começam a se consolidar na agenda dos consumidores, como contactless e mobile payments, assim como ativos habilitadores ao negócio, como analytics e loyalty.

Outros conceitos que se desenham no horizonte é a personalização do relacionamento e serviços de identidade digital, além de investimentos em cibersegurança e blockchain para garantir a segurança das transações.

Com mais de 1 bilhão de usuários, o famoso app de troca de mensagens WeChat funciona na China também como um grande ecossistema de pagamentos, inclusive via QR Code.

“Se você quiser dar uma gorjeta ao garçom, por exemplo, basta fazer o pareamento com o código e o valor já cai automaticamente na conta dele. As pessoas já estão pedindo dinheiro com o QR Code, inclusive”, argumenta Fernando Flauto, especialista em segurança cibernética da Crowe, rede global nas áreas de auditoria e consultoria.

Wakatsuki, da Deloitte, explica que, na China, o setor de meios de pagamento não apresentava a mesma estrutura do Brasil, País que conta com um parque de pontos de venda mais amplo e com muita penetração de cartões.

“Neste contexto, o WeChat teve um bom espaço para entrar e crescer no mercado chinês sem ter de competir com soluções que tivessem um legado. O contexto no Brasil é diferente e, por isso, é muito complicado prever se teremos uma solução digital com a mesma curva de adoção e relevância que o WeChat teve na China”, explica.

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