Segurança para circular pela cidade, renda estável para planejar o futuro e autonomia financeira para as mulheres. Em síntese, esses são os principais desejos do consumidor da favela brasileira para 2026, segundo a pesquisa Sonhos da Favela, divulgada pelo Data Favela.
O estudo ouviu 4.471 moradores de territórios de vulnerabilidade social em todo o Brasil. Em conclusão, o material revela um consumidor conectado, digitalizado e economicamente ativo. Entretanto, esse consumidor ainda está limitado por falhas estruturais do Estado.
Veja abaixo o perfil dos entrevistados:

Segurança pública, trabalho formal e infraestrutura básica aparecem como fatores decisivos para o consumo, o acesso a serviços e as oportunidades de ascensão social.
Quem é o consumidor da favela hoje
A pesquisa traça o perfil de quem movimenta a economia das favelas brasileiras. Entre os entrevistados, 62% são mulheres, 82% são pessoas negras e 58% vivem com até um salário mínimo. Apesar das restrições financeiras, o consumo segue integrado ao mercado formal.
Dados mostram que 65% utilizam o Pix como principal meio de pagamento. Ademais, 60% realizam as compras do mês em supermercados. Esses dados reforçam o papel central do consumidor da favela no varejo e no sistema financeiro.
Por outro lado, o principal obstáculo está na instabilidade. Apenas 25% possuem carteira assinada e 58% não têm renda fixa mensal, o que limita decisões de longo prazo, como investir na casa própria, estudar ou acessar crédito.
O perfil socioeconômico da pesquisa reforça a fragilidade da renda do consumidor da favela no Brasil. Seis em cada dez entrevistados afirmam viver com até um salário mínimo por mês, índice que sobe para quase sete em cada dez nas regiões Norte e Nordeste. Apenas 27% dizem receber entre R$ 1.521 e R$ 3.040, enquanto as faixas acima de R$ 3.040 representam uma parcela menor, cerca de 15% do total.
Os dados evidenciam desigualdades regionais profundas e ajudam a explicar por que o consumo nas favelas é marcado pela instabilidade financeira e pela dificuldade de planejamento no médio e longo prazo.

Benefícios sociais nas favelas
Os dados sobre benefícios sociais revelam outro aspecto importante da realidade do consumidor da favela. Embora o Bolsa Família seja o programa mais citado, alcançando 29% dos entrevistados, a maioria (56%) afirma não receber nenhum tipo de benefício social.
O índice varia regionalmente, chegando a 67% no Sudeste e 59% no Centro-Oeste. O recorte indica que grande parte desses consumidores depende exclusivamente da própria renda, muitas vezes instável e informal, para sustentar o consumo básico, o que amplia a vulnerabilidade financeira diante de crises, desemprego ou aumento do custo de vida.

Segurança pública influencia diretamente o consumo
Para 47% dos entrevistados, o principal sonho para 2026 é o direito de ir e vir com segurança. A insegurança afeta diretamente o consumo, o trabalho e o acesso a serviços fora da favela.
Quase 40% afirmam não confiar em nenhuma instituição de segurança pública para protegê-los. Outros 25% dizem que a presença da polícia não muda a sensação de segurança, enquanto 13% relatam sentir medo.
Esse cenário cria um consumidor que restringe deslocamentos, horários e escolhas. “A insegurança limita o consumo e a mobilidade. Quando o morador evita sair do território, ele perde oportunidades de trabalho, lazer e acesso a serviços essenciais”, afirma Marcus Vinicius Athayde, copresidente do Data Favela.
Falta de infraestrutura limita escolhas do consumidor
A ausência de serviços básicos segue como um dos principais entraves para o consumo nas favelas. Segundo a pesquisa, 26% dos entrevistados apontam o saneamento básico como prioridade, 23% citam a educação e 20% destacam o acesso à saúde.
Sobre esse último (acesso à saúde), a avaliação reforça como a precariedade da infraestrutura territorial impacta diretamente o cotidiano e o consumo do morador da favela. No recorte nacional, 40% classificam a disponibilidade dos serviços de saúde como regular, enquanto 26% avaliam como boa e apenas 8% como ótima. Já as avaliações negativas somam 26% entre “ruim” e “muito ruim”, com destaque para a região Norte, onde 36% dos entrevistados fazem essa avaliação.
A dificuldade de acesso à saúde pública pressiona o orçamento doméstico, aumenta gastos com medicamentos, consultas particulares e transporte, e reduz a capacidade do consumidor de manter renda e planejamento financeiro.

A conectividade, essencial para estudar, trabalhar e consumir, ainda é desigual. Apenas 50% afirmam ter internet de boa qualidade. As diferenças regionais são evidentes: em São Paulo, 57% avaliam positivamente o acesso, enquanto no Rio de Janeiro esse número cai para 44%.
Sem infraestrutura adequada, o consumidor da favela paga mais caro – seja em tempo, deslocamento ou acesso limitado a ofertas e serviços.

O consumo das mulheres da favela
Entre as mulheres, o consumo está diretamente ligado à sobrevivência. Para 66% das entrevistadas, a violência doméstica e o feminicídio são os maiores desafios enfrentados no território.
Como resposta, 62% defendem a criação de programas de renda e trabalho para mães solo como a política pública mais urgente. Autonomia financeira, nesse contexto, representa proteção e liberdade de escolha.
“Garantir renda às mulheres é permitir que elas rompam ciclos de violência e tomem decisões sobre o próprio consumo e futuro”, afirma Cléo Santana, copresidente do Data Favela.

Informalidade e racismo

O estudo mostra que a economia da favela segue marcada pela informalidade. Além da ausência de renda fixa, o racismo estrutural aparece como um limitador direto das oportunidades. Metade dos entrevistados acredita que a cor da pele impacta negativamente sua ascensão social.
Diante disso, 40% defendem que o governo priorize programas de emprego para a população negra e ações afirmativas na educação, como cotas raciais.
Mesmo com esses entraves, o consumidor da favela se mantém ativo, conectado e essencial para a economia urbana, ainda que privado de condições iguais para planejar e crescer.
Sonhar com o básico ainda revela a desigualdade
De acordo com o estudo, os principais objetivos para 2026 refletem necessidades fundamentais. Entre eles, ter uma casa melhor, acesso a saúde de qualidade e garantir que os filhos cheguem à universidade.
O levantamento mostra que, para milhões de brasileiros, o consumo ainda depende do acesso a direitos básicos. E que, por consequência, sonhar com o mínimo continua sendo um retrato da desigualdade social.
No fim, os dados da pesquisa escancaram uma contradição central da defesa do consumidor no Brasil: milhões de pessoas seguem sendo tratadas como consumidoras apenas na hora de pagar, mas não na hora de ter direitos garantidos. Sem segurança, renda estável e serviços básicos, o direito de escolha – princípio fundamental do Código de Defesa do Consumidor – se torna frágil ou inexistente.
Defender o consumidor da favela, portanto, não é apenas fiscalizar preços ou contratos, mas garantir condições mínimas para que esse consumidor possa circular, comparar, decidir e planejar. Enquanto o básico seguir sendo um sonho, o consumo continuará revelando, todos os dias, as falhas estruturais que o mercado e o Estado insistem em ignorar.





