O relatório Edelman Trust Barometer Flash Poll: Trust and Artificial Intelligence at a Crossroads traça um panorama global sobre como a confiança – ou a falta dela – está moldando o futuro da Inteligência Artificial (IA).
Com base em 5.000 entrevistas em cinco países (Brasil, China, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos), o estudo aponta que o entusiasmo pela IA não é inevitável. Mais do que isso, depende fortemente de fatores como confiança, familiaridade e experiência.
Para o Brasil, os achados ganham relevância estratégica: o País aparece entre os líderes em disposição para abraçar a IA.
Entusiasmo impulsiona IA no Brasil
No Brasil, o índice de confiança na IA é consideravelmente mais alto que em alguns mercados desenvolvidos. Segundo o estudo, esse índice foi de 67%.
Já a proporção de brasileiros que apontam “questões de confiança” como motivo para usarem IA com pouca frequência é de 53%. Em comparação, países como China e Reino Unido apresentam índices de 43% e 55%.

O Brasil mostra um ambiente mais propício ao experimento com IA. O relatório observa que “entusiasmo conduz adoção mais rápida”.
Apesar desse otimismo, o desafio da equidade se mantém. Em geral, o relatório mostra que pessoas de renda mais baixa têm maior medo de serem “deixadas para trás pela IA”. Por outro lado, no Brasil, essa pauta não segue exatamente o padrão dos países desenvolvidos.
Para empresas e marcas que atuam no País, o relatório sugere foco em experiência prática, mais do que apenas comunicação de benefícios. Isso porque a confiança cresce à medida que as pessoas vivem bons resultados com IA.
Implicações para setores chave no Brasil
- Varejo e Tecnologia: A adoção de IA em pontos como atendimento ao cliente, personalização de ofertas ou automação de processos internos tem um “gatilho” de confiança. Marcas brasileiras que forem transparentes sobre como usam IA, como protegem dados e quais benefícios entregam ao consumidor estarão em vantagem.
- Políticas Públicas e Regulação: Dado que grande parte da desconfiança está ligada a uso de dados e proteção, o Brasil pode se antecipar ao debate regulatório fortalecendo marcos de transparência e segurança para IA. E, assim, acelerar a aceitação.
- Comunicação e Educação: A familiaridade com IA está diretamente ligada à confiança. Iniciativas de capacitação, experiências concretas (ex: chatbots, assistentes inteligentes), e mostrar resultados tangíveis ajudam a reduzir o “medo do desconhecido”.
- Equidade e Inclusão: Mesmo em um cenário otimista como o brasileiro, é vital que o avanço da IA não acentue desigualdades. O medo de ficar para trás ou de que apenas alguns se beneficiem já aparece no relatório global e pode se refletir no Brasil.
- Estratégia de Marca: Em um País em que empresas ainda têm papel crucial em reconstruir confiança (dada a crise institucional), incorporar IA de forma ética, explicável e orientada ao consumidor pode reforçar credibilidade e engajamento.
Principais destaques
- Confiança na IA no Brasil: cerca de 67% que dizem confiar na tecnologia.
- Percentual dos brasileiros que citam “questões de confiança” como motivo para usar IA ocasionalmente: 53%.
- Em mercados como Alemanha, Reino Unido e EUA, a rejeição ao uso crescente de IA supera o entusiasmo.
- Os dois principais impulsionadores da adoção “entusiasmada” de IA: sentir-se moderadamente ou muito informado sobre IA (+17,45 %) e confiar em IA (+16,27 %).
- Usuários regulares de IA relatam melhorias em rapidez, criatividade e qualidade de decisões – experiência prática converte ceticismo em confiança.
IA e impacto global
De acordo com o estudo há uma divisão geográfica expressiva: mercados em crescimento como Brasil e China mostram maior aceitação da IA, enquanto mercados desenvolvidos como EUA, Reino Unido e Alemanha registram maior resistência.
A confiança é um dos dois maiores impulsionadores da adoção entusiástica da IA: ser informado sobre IA e confiar nela aumentaram a probabilidade de adoção em cerca de +17% e +16% respectivamente.
O uso frequente de IA leva a efeitos positivos: usuários regulares relatam que se tornaram mais rápidos, mais criativos e tomam decisões melhores – e isso, por sua vez, eleva a confiança no recurso.
As razões para não usar IA com frequência não estão tão ligadas à falta de acesso ou motivação, mas sim à desconfiança: preocupações com uso de dados e proteção da privacidade são o principal entrave.
Não basta adotar IA
O relatório da Edelman deixa claro que apesar de todos os avanços estamos em uma encruzilhada: a IA tem potencial revolucionário, mas sua aceitação não é automática – depende de confiança, experiência e equidade.
Para o Brasil, esse momento representa uma oportunidade relevante já que o País se destaca globalmente em Customer Experience (CX) e em receptividade à IA. A percepção de que a IA poderá ajudar em desafios sociais como mudança climática, desigualdade ou saúde também varia bastante, mas no Brasil esse otimismo aparece em nível mais elevado do que em países desenvolvidos.
No entanto, o desafio para o seu crescimento não é apenas tecnológico: não basta adotar IA, é preciso conectar a adoção ao valor percebido, à confiança, à emoção e à experiência, é claro. Nesse ecossistema em transformação com IA, a única certeza é que o Brasil tem uma enorme oportunidade, pois aqui, a experiência do cliente é definitiva para as empresas e a IA pode incrementar ainda mais essa qualidade.
Outros destaques do Estudo
Experiência pessoal com IA generativa
Usuários frequentes de IA generativa (uso diário ou várias vezes por semana) relatam benefícios muito superiores aos usuários raros em cinco dimensões:
- Velocidade para concluir tarefas;
- Compreensão de ideias complexas;
- Solução de problemas no trabalho;
- Solução de problemas na vida pessoal;
- Criatividade.
Em vários desses itens, mais de 60% dos usuários frequentes relatam melhora, contra menos de 30% entre os raros.
Quando a IA ajuda a entender conceitos complexos, a confiança cresce:
- 69% dos que tiveram essa experiência dizem confiar em IA;
- Apenas 24% dos que não sentiram impacto confiam;
- Salto de 45 pontos associado à experiência prática;
- Experiências “muito ruins” com IA generativa são pouco comuns;
- Apenas 8% dos que abraçam IA relatam episódios negativos;
- 18% dos que rejeitam IA tiveram experiências ruins.
Isso sugere que a rejeição se alimenta mais de narrativas, riscos antecipados e incertezas do que de danos reais.
Trabalho e transparência das lideranças
A aceitação de IA aumenta quando ela é vista como transformadora do trabalho, e não como substituta do trabalhador. Pessoas que sentem que a IA aumenta sua segurança no emprego tendem a abraçar mais a tecnologia do que quem acredita que ela reduz essa segurança.
Mesmo com a desconfiança, o empregador é a instituição com maior licença para usar IA, aumentando a responsabilidade sobre:
- Políticas internas claras de uso de IA;
- Comunicação transparente sobre impactos em empregos;
- Programas estruturados de requalificação e transição de funções.





