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CM Entrevista: A conscientização que protege – e que falta na saúde

CM Entrevista: A conscientização que protege – e que falta na saúde

A proteção de dados não pode ser deixada de lado; ela deve ser uma prioridade nas plataformas digitais de saúde.
A proteção de dados não pode ser deixada de lado; ela deve ser uma prioridade nas plataformas digitais de saúde.
Foto: Shutterstock.
A digitalização da saúde avança, mas a baixa conscientização dos pacientes sobre segurança abre espaço para fraudes e vazamentos de dados. Especialistas defendem a “segurança por experiência”, em que o próprio sistema guia o usuário e reduz riscos. O futuro da saúde é digital, porém depende de educação contínua, governança e confiança para proteger informações sensíveis.

A digitalização da saúde avança em ritmo acelerado. Entretanto, ela esbarra em um elemento crítico: a baixa conscientização dos pacientes sobre como proteger seus próprios dados. De um lado, as instituições ampliaram investimentos em segurança. Mas, especialistas garantem que campanhas educativas continuam pontuais e desconectadas da jornada real do usuário. Por consequência, a situação deixa brechas para golpes, fraudes e vazamentos de dados. Em um ambiente no qual sistemas, aplicativos e serviços digitais se multiplicam, o comportamento do paciente torna-se parte essencial da proteção.

Para especialistas, o caminho mais eficiente passa pelo conceito de segurança por experiência. Nesse conceito, o próprio design das plataformas orienta o usuário. Por exemplo, a autenticação multifatorial simplificada, alertas de uso de dados, confirmações inteligentes e comunicação constante durante atendimentos, internações e acessos.

Para aprofundar o tema, a Consumidor Moderno volta a conversar com Letícia Piasecki Martins, sócia do Meira Breseghello Advogados e membro da Comissão de Direito Médico e de Saúde da OAB São Paulo. Especialista em temas de proteção de dados em saúde, Letícia é pós-graduada em Direito Médico, Odontológico e da Saúde pela FMRP/USP e pós-graduada em Direito Processual Civil pela FGVLAW-SP. Ela então explica os sinais de alerta para fraudes, os riscos da digitalização e o futuro da confiança no ecossistema de saúde. Confira!

Segurança além da tecnologia

Letícia Piasecki Martins, sócia do Meira Breseghello Advogados

Consumidor Moderno: Você acredita que a conscientização dos consumidores sobre a segurança digital é suficiente?

Letícia Piasecki Martins: Embora haja um progresso significativo, ainda não é suficiente. A maioria das campanhas de conscientização é pontual e pouco integrada à jornada real do paciente.

O ideal é implementar o conceito de “segurança por experiência”, no qual o próprio design do sistema instrui o usuário: autenticação multifatorial simplificada, alertas sobre uso de dados, confirmações contextuais e comunicação clara sobre acessos realizados, além de comunicados frequentes, como durante atendimentos e internações.

CM: O que poderia ser feito para educá-los?

As operadoras e clínicas deveriam investir em programas educativos contínuos, formar parcerias com conselhos profissionais e associações de pacientes, e desenvolver selos de confiança digital. Também é fundamental enfatizar a importância do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que não abrange apenas a parte médica, mas também a digital, relacionada à transmissão de dados, entre outros.

A conscientização deve ser cultivada por meio de ações práticas e não apenas de manuais – educar o paciente é uma forma eficaz de prevenir incidentes, já que medidas simples como evitar clicar em links suspeitos, não compartilhar códigos de autenticação e verificar a origem das comunicações médicas ajudam a reduzir significativamente o risco de fraudes e protegem a integridade dos seus dados.

Dicas para o consumidor

CM: Quais são os sinais de alerta que os consumidores devem observar para identificar possíveis fraudes relacionadas a seus dados médicos?

Os consumidores precisam estar alerta a sinais sutis, mas significativos, de uso indevido de suas informações. Entre os principais alertas, destacam-se:

  • Mensagens com links solicitando senhas, códigos de autenticação ou dados bancários.
  • Cobranças ou autorizações de procedimentos que o paciente não reconhece.
  • Alterações repentinas nos e-mails ou telefones de contato nos cadastros.
  • Aplicativos ou sites “não oficiais” que oferecem acesso a exames ou resultados.
  • Notificações de login em novos dispositivos sem que o usuário tenha acessado.

As operadoras e clínicas devem comunicar proativamente sobre tentativas de golpe para fortalecer o ecossistema de confiança.

CM: E se o consumidor notar alguma anormalidade?

Ao notar qualquer anormalidade, é essencial informar imediatamente a operadora de saúde e, se necessário, acionar a ANS, que disponibiliza um canal para recebimento de petições e reclamações do titular de dados pessoais, assim como a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), quando necessário.

O futuro da saúde

CM: Como você vê o futuro da digitalização no setor de saúde, considerando os riscos e as oportunidades que ela apresenta?

O futuro da saúde é indiscutivelmente digital, mas deve ser orientado por confiança, responsabilidade e governança compartilhada.

As oportunidades são amplas: interoperabilidade segura entre sistemas, medicina personalizada, análise preditiva, coordenação integrada do cuidado e redução de custos administrativos – todos fatores que reforçam a sustentabilidade do setor.

No entanto, a digitalização exige maturidade institucional e regulatória. A expansão de tecnologias como Inteligência Artificial generativa, telemedicina e big data aumenta exponencialmente o volume e a sensibilidade dos dados manuseados. Isso eleva os riscos de violação de privacidade, viés algorítmico, uso indevido de informações genéticas e ciberataques, os quais se tornam mais sofisticados, exigindo estruturas robustas de governança digital, ética e segurança da informação.

CM: O que essa realidade representa?

Esses desafios também estimulam a formação de uma cultura de compliance tecnológico e ética digital, na qual a inovação deve progredir lado a lado com a proteção da dignidade do paciente e a transparência no uso dos dados. É crucial, ainda, reconhecer que o acesso a links suspeitos, o compartilhamento indevido de informações pessoais e o uso de plataformas não oficiais podem configurar responsabilidade exclusiva do consumidor, rompendo o nexo causal em eventuais incidentes e reforçando a necessidade de educação digital contínua.

O que é o TCLE?

O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) é um documento que formaliza a autorização do paciente para um procedimento ou participação em pesquisa, após receber informações claras sobre objetivos, riscos, benefícios e alternativas. Ele garante que a decisão seja voluntária e consciente, respeitando a autonomia do paciente e servindo como segurança legal para ambas as partes. 

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