O mundo nunca teve tantos milionários.
Segundo o Global Wealth Report 2025, divulgado pelo UBS, a riqueza global cresceu 4,6% em 2024 e o planeta passou a reunir aproximadamente 60 milhões de pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão. Juntos, esses indivíduos concentram cerca de US$ 226 trilhões, o equivalente a quase metade da riqueza mundial.
Ao mesmo tempo, a World Inequality Database mostra que os 10% mais ricos do planeta concentram aproximadamente 76% da riqueza global, enquanto a metade mais pobre da população detém apenas cerca de 2%.
Os números ajudam a dimensionar uma transformação econômica global. Contudo, também levantam uma questão incômoda: afinal, quem são os ricos?
No Brasil, a resposta está longe de ser consensual.

Mais do que uma discussão tributária, o tema expõe um desafio estatístico. Afinal, os instrumentos tradicionais conseguem medir adequadamente a riqueza acumulada em empresas, imóveis, fundos, participações societárias e estruturas patrimoniais complexas?
Para especialistas ouvidos pela Consumidor Moderno, a resposta é: parcialmente.
O problema começa quando renda e patrimônio são tratados como sinônimos
Grande parte das estatísticas econômicas utiliza informações de renda para medir desigualdade e capacidade econômica. O problema é que renda e patrimônio não representam a mesma coisa.
Alexandre Evaristo Pinto, vice-presidente da Associação Paulista de Estudos Tributários (APET), explica que a renda representa os valores recebidos ao longo de determinado período, enquanto o patrimônio corresponde ao estoque de riqueza acumulado ao longo da vida. “Uma pessoa pode ter patrimônio muito elevado e renda anual relativamente baixa ou diferida”, afirma.
Segundo ele, a própria legislação brasileira ainda enfrenta dificuldades para estabelecer critérios objetivos capazes de definir quem são os chamados super ricos. “O debate sobre grandes fortunas evidencia justamente essa dificuldade de transformar riqueza econômica em conceito jurídico-tributário objetivo”, observa.

Patrimônio não declarado? Não. Patrimônio difícil de medir
Além disso, Evaristo destaca que a organização patrimonial adotada por famílias e empresários também contribui para tornar a leitura da riqueza mais complexa. Holdings familiares, estruturas societárias e mecanismos de planejamento patrimonial não configuram irregularidades, mas podem fragmentar a titularidade dos ativos entre pessoas físicas e jurídicas, dificultando uma compreensão mais ampla da concentração de riqueza.
Ao mesmo tempo, ele ressalta que os avanços tecnológicos ampliaram significativamente a capacidade de fiscalização do Estado. Hoje, declarações digitais, cruzamento de dados, informações sobre capitais brasileiros no exterior, identificação de beneficiários efetivos e a tributação de offshores aumentaram a transparência e reduziram parte das zonas de sombra que historicamente cercavam grandes patrimônios.
Ainda assim, o sistema está longe de oferecer uma fotografia perfeita. Segundo o tributarista, ativos como obras de arte, joias, bens de luxo, participações societárias e patrimônios mantidos no exterior continuam impondo desafios à mensuração econômica. “O sistema melhorou muito nos últimos anos, mas ainda existem zonas de invisibilidade econômica”, afirma.
Por isso, na avaliação de Evaristo, indicadores de renda devem ser interpretados com cautela quando o objetivo é compreender a dimensão real da riqueza brasileira. “O crescimento de mercados ligados ao luxo, a imóveis de alto padrão, viagens premium e serviços exclusivos pode funcionar como um indício da existência de renda e patrimônio relevantes circulando na economia, embora não constitua uma prova isolada”, conclui.
A ponta do iceberg da riqueza brasileira
O advogado tributarista Raul Iberê Malagò, sócio do M&A Law, vai além.
Para ele, quando os levantamentos observam apenas a renda declarada pelas pessoas físicas, acabam capturando apenas parte da realidade. “Quando olhamos apenas para o fluxo de renda anual declarado na pessoa física, capturamos apenas a ponta de um iceberg, deixando de fora o estoque real de patrimônio.”
Segundo Malagò, a riqueza contemporânea está cada vez mais associada a ativos patrimoniais. Participações societárias, imóveis, fundos de investimento fechados e estruturas internacionais frequentemente concentram volumes expressivos de riqueza sem necessariamente gerar rendimentos tributáveis imediatos.

A riqueza invisível dos ativos
A dificuldade de medição aumenta quando entram em cena holdings familiares, fundos patrimoniais e estruturas societárias utilizadas para organização sucessória e gestão de ativos. Malagò destaca que embora essas estruturas sejam legais e amplamente utilizadas, elas criam uma espécie de camada adicional de complexidade para quem tenta medir riqueza.
“Quando uma mansão, uma frota de carros de luxo ou uma carteira de investimentos pertencem a uma empresa e não diretamente ao indivíduo, a mensuração daquela riqueza desaparece dos radares comuns”, explica.
Outro desafio apontado pelo especialista envolve a forma como determinados ativos são registrados. Um imóvel adquirido há décadas pode ter valorização milionária sem que esse ganho apareça integralmente nas bases estatísticas utilizadas para mensuração patrimonial.
É justamente por isso que especialistas defendem cautela ao analisar indicadores de renda como representação automática da riqueza existente no país.
O que as estatísticas captam — e o que elas deixam escapar
Para Carlos Eduardo Oliveira Jr., conselheiro do Corecon-SP e presidente do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo, os instrumentos atuais cumprem papel importante, mas ainda apresentam limitações. “Os critérios atualmente empregados oferecem uma visão importante da distribuição de renda, embora captem apenas parcialmente a realidade do topo”, afirma.
De acordo com ele, a diferença entre renda e patrimônio torna-se particularmente relevante quando se observa a parcela mais rica da população. “A renda representa fluxo anual de rendimentos, enquanto o patrimônio reflete estoque acumulado de riqueza. Muitos ativos não geram renda tributável imediata, o que pode resultar em concentração patrimonial ainda maior do que aquela capturada pelas estatísticas tradicionais”, explica.
O especialista lembra ainda que estimativas apontam que os 10% mais ricos concentram cerca de 70% do patrimônio brasileiro.
Ainda na avaliação do economista, os debates recentes sobre tributação de patrimônio, fundos exclusivos e rendimentos de capital evidenciaram a necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de mensuração da riqueza nacional.

A nova geografia da riqueza brasileira
Se os números apresentam limitações, o comportamento do mercado frequentemente oferece pistas. É justamente essa a percepção de Carlos Ferreirinha, fundador e CEO da MCF Consultoria, principal empresa de inteligência estratégica e gestão do luxo da América Latina.
Para ele, existe hoje uma riqueza que muitas vezes não aparece integralmente nos indicadores econômicos convencionais. “Há uma nova geografia da riqueza no Brasil”, afirma.
Segundo Carlos Ferreirinha, durante décadas o mercado concentrou sua atenção em polos tradicionais como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e algumas capitais do Sul, mas esse cenário mudou.
“A riqueza aparece no agronegócio, na tecnologia, no mercado financeiro, em empresários regionais, em novas gerações patrimoniais, em profissionais liberais de alta performance e em famílias que expandiram seu capital fora dos grandes centros tradicionais.”
Na prática, isso significa que parte relevante da alta renda brasileira pode estar distribuída em regiões e segmentos que nem sempre aparecem no imaginário tradicional associado ao luxo.

O luxo virou um termômetro econômico?
Para Ferreirinha, sim.
O especialista argumenta que mercados ligados ao alto padrão funcionam como sensores capazes de identificar movimentos econômicos antes mesmo de eles aparecerem integralmente nas estatísticas. “O luxo é um termômetro sensível porque capta dimensões que a economia tradicional nem sempre mede bem.”
Em seu parecer, empreendimentos imobiliários de altíssimo padrão, hospitalidade premium, turismo de excelência, gastronomia de destino e serviços personalizados indicam não apenas capacidade financeira, mas também confiança, desejo de consumo e disposição para investir em experiências de alto valor.
Quando novos projetos de luxo encontram demanda consistente, afirma, eles revelam a existência de públicos com patrimônio, liquidez e capacidade de consumo muitas vezes superiores àqueles capturados pelas métricas tradicionais.
“O luxo muitas vezes antecipa sinais. Ele percebe antes o amadurecimento de determinados mercados porque trabalha na fronteira entre dinheiro, desejo e cultura.”
Mais rico no topo; mais desigual no conjunto
A discussão sobre os limites das estatísticas brasileiras encontra eco também na literatura acadêmica internacional. Estudos do economista Fernando Nogueira da Costa, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostram que a riqueza contemporânea está cada vez menos associada apenas à renda e cada vez mais concentrada em ativos financeiros, participações empresariais, fundos de investimento e estruturas patrimoniais complexas.
Na obra Riqueza Mundial: Alocação na Economia Global, o pesquisador argumenta que a expansão da riqueza nas últimas décadas foi acompanhada por um intenso processo de financeirização, no qual parcelas crescentes do patrimônio passaram a ser administradas por instituições financeiras e veículos especializados.
Nunca houve tanta riqueza e nunca foi tão difícil medi-la
Essa transformação ajuda a explicar por que medir riqueza se tornou uma tarefa muito mais complexa do que medir salários ou rendimentos. Enquanto a renda costuma aparecer com relativa clareza em declarações fiscais, pesquisas domiciliares e registros oficiais, patrimônios acumulados ao longo de gerações, participações societárias, imóveis valorizados e ativos financeiros exigem metodologias mais sofisticadas para serem identificados e avaliados.
Os números globais reforçam essa percepção. Dados da World Inequality Database indicam que os 10% mais ricos concentram aproximadamente 76% da riqueza mundial, enquanto a metade mais pobre da população detém apenas 2%. Já o Global Wealth Report 2025, do UBS, mostra que a riqueza global cresceu 4,6% em 2024 e que cerca de 60 milhões de pessoas possuem patrimônio superior a US$ 1 milhão, concentrando aproximadamente US$ 226 trilhões em ativos.
Em outras palavras, o mundo nunca acumulou tanta riqueza. Ainda assim, entender onde ela está, como se distribui e quem efetivamente a controla tornou-se um desafio crescente para pesquisadores, governos e instituições.
E se a mensuração da riqueza já é complexa em escala global, especialistas afirmam que o desafio se torna ainda maior em países como o Brasil, marcados por forte concentração patrimonial, grande diversidade econômica regional e estruturas sofisticadas de organização de ativos.
Nesse contexto, a pergunta inicial permanece atual: os instrumentos tradicionais conseguem captar toda a dimensão da riqueza existente? Para os especialistas ouvidos pela Consumidor Moderno, o desafio vai além da interpretação de dados sobre renda declarada. É preciso também ampliar a capacidade de compreender patrimônios, ativos e estruturas econômicas mais complexas.





