/
/
Entre o algoritmo e o bairro, a ressurreição da Barnes & Noble

Entre o algoritmo e o bairro, a ressurreição da Barnes & Noble

O que uma livraria que ainda ganha dinheiro vendendo livros pode ensinar para um mercado que vende revistas de colorir como se fossem livros.
Kevin Kelley e Shannon DeVito, diretora sênior de Livros da Barnes & Noble.
Foto: Jacques Meir/Consumidor Moderno.
Kevin Kelley e Shannon DeVito, diretora sênior de Livros da Barnes & Noble.
A NRF 2026 evidenciou a tensão entre consumo mediado por algoritmos e a busca por pertencimento humano, ao contrapor a Geração Z e o case da Barnes & Noble. Enquanto a Gen Z consome por curadoria algorítmica, a livraria cresce ao transformar lojas em espaços físicos de descoberta, cultura e comunidade. A lição é clara: o futuro do varejo está em integrar curadoria digital com experiências presenciais que gerem significado e vínculo emocional.

Se existe uma tensão que define o varejo de 2026, ela não está entre online e físico. Está entre mediação algorítmica e pertencimento humano. E poucos painéis da NRF materializaram isso tão bem quanto o estudo sobre os padrões de gasto da Geração Z e o case da Barnes & Noble, com Kevin Kelley.

De um lado, uma geração que cresce pedindo tudo a máquinas: recomendações, validação, escolhas, identidades. A Gen Z não descobre marcas, antes as recebe filtradas por feeds, IA, creators e bolhas de afinidade. Seu consumo é menos exploratório e mais curado por algoritmos, o que cria jornadas rápidas, emocionais, mas também frágeis e facilmente substituíveis.

Do outro lado, a Barnes & Noble, redesenhada por Kevin Kelley, mostra o oposto: lojas como territórios de desaceleração, descoberta, socialização e afeto. Espaços onde o cliente não é um perfil, mas uma presença. Onde o livro não é um SKU, mas um convite ao tempo lento. Em um mundo dominado por IA e escolhas induzidas, a livraria vira um ato de resistência cognitiva.

A NRF 2026 colocou essas duas narrativas frente a frente por uma razão clara: o futuro do varejo não será vencido nem só por algoritmos, nem só por comunidades. Será vencido por quem conseguir integrar curadoria digital e pertencimento físico em uma mesma experiência de valor.

Mas aqui está o ponto mais sofisticado: a Barnes & Noble não rejeitou a lógica visual e viral da internet – ela a absorveu. Seus displays instagramáveis, que transformam lançamentos em esculturas, cenários e instalações, não são decoração. São mídia. São o feed materializado no espaço físico. O livro deixa de ser apenas capa na prateleira e vira experiência visual, palco, narrativa. A livraria recupera a atenção que o algoritmo sequestrou.

O mesmo acontece com eventos, leituras, clubes e encontros que conectam fãs a universos mais amplos das obras: autores, gêneros, debates, comunidades. A Barnes & Noble se converteu em uma plataforma cultural física. O que o digital faz por afinidade e recomendação, ela faz com algo que nenhum algoritmo entrega: corpo, voz, encontro e memória compartilhada.

E há um gesto ainda mais profundo: cada loja é diferente da outra. Não existe uma “fórmula Barnes & Noble” replicada como franquia. Existem bairros, comunidades, ritmos, arquiteturas, curadorias. Ir a uma nova unidade é descobrir um novo território simbólico. A rede entendeu algo que o varejo brasileiro tenta praticar, mas sempre acha “muito caro”: padronização mata curiosidade; singularidade cria desejo.

O subtexto disso tudo é desconfortável para nosso mercado. Enquanto a maior livraria tradicional dos Estados Unidos volta a crescer vendendo romances, ensaios, biografias e livros de negócios, o mercado brasileiro celebra rankings onde metade dos “mais vendidos” são revistas de colorir maquiadas de livros. Não é uma questão de gosto. É um sinal econômico. Quando cultura vira passatempo descartável, o varejo cultural deixa de ser negócio e vira souvenir.

Kevin Kelley não reconstruiu a Barnes & Noble mudando prateleiras. Ele restaurou o valor simbólico do livro. Fez das lojas, juntamente com Shannon DeVito, diretora sênior de Livros da varejista (sim, isso ainda existe), espaços de formação de repertório que transcendem a ideia rasa de giro rápido. Ambos entenderam que cultura se vende por densidade emocional, o que, por sua vez, gera volume.

O Brasil, ao contrário, insiste em competir por preço e conveniência, procurando por produtos descartáveis e sucessos passageiros para manter a engrenagem funcionando sem óleo vital, o que empurra o mercado para um sortimento cada vez mais raso. Resultado: um País que consome muito conteúdo, mas paga pouco por significado.

A pergunta que a Barnes & Noble lança para reflexão é pertinente: é possível ganhar dinheiro vendendo cultura em um país que desaprendeu a valorizá-la?

A Barnes & Noble responde que sim, guardadas as devidas proporções entre mercados, culturas e ambientes, desde que a loja deixe de ser ponto de venda e volte a ser lugar de descoberta. Em um mundo no qual o algoritmo decide antes de você, a livraria virou um dos poucos espaços onde a curiosidade ainda é um direito, não uma sugestão patrocinada.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Mastercard vê até US$ 750 bi em fluxos B2B como nova fronteira para cartões
Com cartões virtuais, pagamentos internacionais e soluções para PMEs, companhia quer ampliar a digitalização das transações entre empresas no Brasil
Na Vivo, CX vira inteligência contínua
Carla Beltrão, VP de Experiência do Cliente da Vivo, explica como construir inteligência e diferenciação de forma ininterrupta e em escala na experiência do cliente
Itaú, Bradesco, Nubank e mais mostram como a IA transforma produtividade, crédito e CX
Na Febraban Tech 2026, executivos dos principais bancos do País mostram como a tecnologia tem avançado em ritmo acelerado no setor
Na Pele de Rodrigo Cury, presidente da Visa no Brasil
Em entrevista exclusiva, Cury explica como a Visa deixou de vender apenas cartões para se tornar uma empresa de tecnologia, e por que trata IA, Pix e hiperpersonalização como as próximas fronteiras do consumo

Webstories

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]


Leandro Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

Rodrigo Santinelo
rodrigo.santinelo@gpadrao.com.br

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Carolina Paes
Danielle Ruas 
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Gerente
Leonam Dias

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Menos estímulos, mais experiência? Novas cobranças do WhatsApp Marco Legal da Cibersegurança: o que muda? A IA democratizou o cibercrime