O Pix é um dos principais símbolos da transformação do sistema financeiro brasileiro. Em 2025, a plataforma registrou 80 bilhões de transações e movimentou R$ 35 trilhões, além de alcançar 162 milhões de pessoas e 16 milhões de empresas. A grande adoção do sistema de pagamento instantâneo também contribuiu para a ampliação do acesso da população ao sistema financeiro.
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, lembra que, antes da criação do Pix, o processo de inclusão bancária permanecia praticamente estável. Três anos depois do lançamento, em dezembro de 2023, 74% dos adultos registrados no CadÚnico já possuíam uma chave Pix e 72% utilizavam a ferramenta.
“A inovação foi além dos pagamentos e aproximou milhões de brasileiros de outros serviços financeiros”, diz durante a abertura do Febraban Tech 2026. “Essa inclusão financeira foi um movimento fundamental, mas agora é importante que a gente consiga ter o uso responsável dos serviços financeiros”, afirma.
Dessa forma, Galípolo chama atenção para um desafio importante: o crescimento do endividamento das famílias. Para ele, o maior acesso precisa ser acompanhado de informação e escolhas mais adequadas, principalmente porque a expansão do crédito e o aumento das dívidas são movimentos diretamente relacionados.
“Se você promoveu, de alguma maneira, uma elevação do crédito, é normal você esperar que o endividamento também cresça”, afirma. Mas, na visão dele, o problema não está necessariamente na existência da dívida, mas em sua finalidade e nas condições em que ela é contratada.
Uma operação voltada, por exemplo, à compra de um imóvel pode resultar na constituição de um ativo. Já o endividamento destinado a despesas de curto prazo, especialmente em linhas caras e sem garantias, tende a representar um risco maior.
Crédito cresce, mas qualidade da dívida preocupa
Galípolo ressalta que não é possível celebrar o aumento da oferta de crédito e, ao mesmo tempo, se surpreender com o avanço do endividamento. “O crédito que um banco ou uma instituição financeira dá é a dívida de alguém que tomou”, diz.
A preocupação exige ainda mais atenção porque o endividamento continua elevado mesmo em um contexto de aumento da renda e queda do desemprego. Segundo o presidente do Banco Central, é preciso entender por que a melhora das condições econômicas não tem sido suficiente para reduzir determinados tipos de dívida.
Entre os dados apresentados, Galípolo destaca que, dos 96 milhões de usuários de cartão de crédito no País, 52,8 milhões carregam dívidas no rotativo ou no parcelamento. Além disso, desde a criação do Pix, outros 37 milhões de brasileiros passaram a utilizar o cartão de crédito.
O avanço do crédito livre também chama atenção do Banco Central. Linhas sem garantias tendem a apresentar juros mais elevados, o que aumenta o risco para o consumidor. Para Galípolo, o desafio agora é avançar na adequação das modalidades de crédito e no uso mais consciente dos serviços financeiros.
“Mesmo em um ambiente que você esperaria melhora, com renda mais alta, emprego mais baixo e uma taxa de juros mais restritiva, a gente ainda enxerga um processo de endividamento elevado, com uma inadimplência crescente”, alerta.

Crédito sem garantia amplia preocupação
Ao detalhar os fatores por trás do avanço do endividamento e da inadimplência, Galípolo destaca a preocupação do Banco Central com modalidades de crédito usadas para financiar despesas que não resultam na constituição de ativos.
Entre as linhas que ajudam a explicar esse movimento, ele cita o consignado para trabalhadores do setor privado, o rotativo do cartão de crédito e o crédito pessoal sem garantias. O consignado privado, segundo os dados apresentados, foi o principal vetor recente de expansão do crédito às famílias.
Desde o lançamento, em março de 2025, o saldo dessa modalidade saltou de R$ 41 bilhões para R$ 102 bilhões, crescimento de 145%. No mesmo período, a inadimplência passou de 5% para 6,7%, enquanto a taxa de juros avançou de 40,9% para 57%.
Para o presidente do Banco Central, um dos pontos centrais está na diferença de custo entre linhas com e sem garantias. Enquanto operações garantidas podem ter juros próximos de 27%, o crédito sem garantia pode superar 140%.
O financiamento de veículos ilustra essa diferença do custo do crédito. Como o próprio bem pode servir de garantia da operação, a modalidade apresenta juros mais baixos. Ainda assim, a carteira para pessoas físicas cresceu 10,6% em 12 meses, passando de R$ 343 bilhões no fim de 2024 para quase R$ 400 bilhões ao fim de 2025.
Ao reunir esses dados, Galípolo reforça que o desafio não é apenas conter o crescimento do endividamento, mas melhorar a qualidade do crédito contratado e garantir que consumidores tenham acesso à modalidade mais adequada às suas necessidades e condições de pagamento.
Em paralelo, as ações para transformar a inclusão financeira em uma relação mais sustentável com o crédito, ajudando consumidores a compreender os riscos e identificar boas oportunidades ganham cada vez mais importância.





