As Olimpíadas de 2024 chegaram ao fim e foram marcadas por inovações, mas assim como nas últimas edições, contou com uma grande quantidade de atletas. Ao todo, foram 10,5 mil competidores, considerando as 48 modalidades, com muitos atletas jovens que participaram de sua primeira Olimpíada, sonhando com a chance de estarem no pódio e ganharem uma medalha. Porém, como nasce esse sonho?
É provável que, além do possível incentivo dos familiares, os atletas – quando crianças –, tenham se inspirado em outros veteranos ao assistirem competições. Muitas vezes, a admiração por um ídolo faz com que tenhamos vontade em ser igual àquela pessoa, fazendo o que ela faz. Esse espelho serve de motivação, principalmente no esporte, sendo de geração para geração, e esse é o princípio da influência. Ser influenciador não é colocar o termo no perfil, mas impactar na mudança de comportamento das pessoas.
Além disso, existem modalidades em que antes não existiam representantes, como por exemplo, apenas homens competiam e mulheres não, ou apenas pessoas brancas. Neste sentido, foi necessário alguém abrir o caminho, para que a história pudesse começar a ser escrita e as pessoas tivessem oportunidades maiores. Como é o caso da brasileira Daiane dos Santos, atualmente com 41 anos.
A ginasta esteve em atividade do período de 1997 até 2012 e se tornou uma referência no esporte. Ela quebrou tantas barreiras ao mostrar talento e carisma nos aparelhos, em especial no solo, ao som do clássico “Brasileirinho”. Seu sucesso é tanto que existe um efeito Mandela (quando lembramos, coletivamente, de algo que nunca aconteceu) entre os brasileiros de que Daiane possui uma medalha Olímpica, o que não procede.
Porém, Daiane foi a primeira ginasta brasileira, entre homens e mulheres, a conquistar uma medalha de ouro em uma edição do Campeonato Mundial, além de inúmeras outras competições em que ganhou, e é a inspiração de outra ginasta: Rebeca Andrade, de 25 anos. Apenas em Paris, ela ganhou 4 medalhas (1 de ouro, 2 de prata e 1 de bronze). Em 2021, nas Olimpíadas de Tóquio, foram 2 medalhas (1 ouro e 1 prata). Com esse feito inédito, Rebeca se tornou a atleta brasileira mais premiada das Olimpíadas.
Como isso tudo se conecta? Rebeca é uma mulher negra, de origem humilde e que teve que lutar bastante para conquistar os seus objetivos, assim como Daiane no passado. E foi tendo uma representatividade de verdade, além do desejo de ajudar sua família, que a jovem ginasta se motivou a treinar e se aperfeiçoar, superando as diversas lesões que precisaram de cirurgias e conseguindo derrotar até mesmo a queridinha Simone Biles, dos Estados Unidos, considerada a melhor do mundo.
Inclusive, durante as competições de ginástica artística nas Olimpíadas, viralizou um vídeo nas redes sociais do dia em que Daiane treinou no Ginásio Bonifácio Cardoso, em Guarulhos, justamente o local em que Rebeca praticava. No vídeo, de 2010, Rebeca aparece criança dando uma breve entrevista, falando que Daiane estava lhe ensinando quando não conseguia fazer determinado movimento. O que reforça que os Millennials correram para a Geração Z poder andar, ou melhor, no caso das duas – saltar.
Seja correndo, saltando e até mesmo andando de skate, é indiscutível a influência e o impacto dos Millennials na vida de atletas GenZ. Outro caso de total admiração é entre as skatistas Rayssa Leal, de 16 anos, e Letícia Bufoni, de 31 anos. Quando era criança, aos sete anos, Rayssa viralizou andando de skate usando uma fantasia de fada e ganhou o apelido de “fadinha”. Sua maior inspiração era Letícia e as duas chegaram a se encontrar em um momento viabilizado pelo Esporte Espetacular, em 2015.
Anos depois, durante as Olimpíadas de Tóquio, Rayssa e Letícia competiram juntas. Inclusive, apesar da pouca idade, a fadinha foi a única que conseguiu se classificar para a etapa final da modalidade, conquistando a prata e se tornando a atleta brasileira mais jovem a conseguir uma medalha olímpica, com apenas 13 anos. Em Paris, apesar de não ter competido, Letícia estava presente para apoiar e torcer por Rayssa, que reforçou que a mais velha é e sempre será sua referência.
O fato é que essas Olimpíadas de 2024 chamaram muito a atenção da GenZ, porque muitos estão em uma idade em que começam a se interessar mais pelo evento, e também porque agora existe uma infinidade de possibilidades de acompanhar os esportes que foram transmitidos. Afinal, mesmo que você não entenda quase nada de uma modalidade, você consegue torcer, opinar e principalmente interagir com os memes que surgem diariamente na internet.
Todo evento grandioso nos mobiliza a comentar, narrar e fazer memes para rir em conjunto. Apesar de acontecerem em um curto período, as Olimpíadas representam um momento em que as populações mundiais entram em sintonia. E o Brasil tem um jeito único de consumir e comentar conteúdos, especialmente a Geração Z. Nós, os nativos digitais, nascemos tendo contato com a internet e seu mundinho, e a GenZ brasileira dá aulas de comportamento e humor nas ruas e vielas do World Wide Web.
Os brasileiros são verdadeiras máquinas de memes, em que o pensamento por trás da criação já está, de alguma forma, envolvido no nosso método de consumir conteúdos. Enquanto assistimos, já estamos pensando em piadas e vamos direto ao X (antigo Twitter) para comentar e interagir. Nessa onda que surfamos com o Medina, entramos em trends, virais, memes e estáticos icônicos, que fizeram parte do conteúdo em alta das Olimpíadas. No TikTok, a #Paris2024 teve mais de 570 mil publicações, com vídeos que alcançaram mais de 10 milhões de visualizações, enquanto a #Olimpiadas2024 obteve cerca de 51 mil publicações e com vídeos de mais de 3 milhões de visualizações.
Falamos sobre tudo e nos unimos para torcer pelos nossos atletas, e contra os outros. O caso mais marcante é o do skate. Vários países fizeram posts motivacionais, mas o Brasil viralizou jogando água na TV, para fazer com que os competidores “caíssem”. Além dos memes envolvendo Rebeca Andrade e Simone Biles (que estava filmando seu documentário). Sempre perguntávamos nas redes sociais “tá filmando, Netflix?”, em tom de brincadeira. Afinal, Simone virou queridinha e ganhou o apelido de “casca de Biles”, por sempre estar próxima de Rebeca na competição, tratando-a com carinho.
Isso reforça que as marcas anunciantes precisam conectar esses fenômenos, como a alteração nos formatos de se consumir eventos culturais. Os desafios dos negócios é entender como as alterações de comportamento das novas gerações impactam em como a marca pode dialogar com os novos consumidores. Não é sobre a “geração da vez”, mas sim sobre times intergeracionais que podem colaborar para uma construção mais assertiva, com os mais novos auxiliando na tradução de códigos e linguagens, e os mais velhos vindo com o repertório e legado das grandes companhias.

Luiz Menezes é fundador da Trope, uma consultoria de geração Z que ajuda marcas a rejuvenescerem suas estratégias de negócio. Aos 24 anos, Luiz é nativo digital, creator, apresentador, empresário e empreendedor.
*Foto: A.RICARDO / Shutterstock.com






