Todo começo de ano tem sua narrativa pessimista favorita. Desta vez, ela veio acompanhada de um calendário cheio com muitos feriados prolongados, Copa do Mundo, eleições e um ambiente político intenso e polarizado. A previsão é que os negócios devem desacelerar. O ano seria irregular, cheio de interrupções, com períodos de trabalho entre pausas cada vez mais frequentes.
No papel, o argumento até faz sentido. No Brasil, os feriados realmente costumam gerar preocupação entre empresários. Estudos mostram que cada feriado nacional pode reduzir a rentabilidade anual do varejo em cerca de 1,29%, enquanto o impacto econômico médio chega a bilhões de reais quando se considera toda a cadeia produtiva.
Mas o curioso é que a realidade do mundo dos negócios raramente segue o roteiro pessimista que se desenha em janeiro. Porque, na prática, ninguém parou.
Basta olhar para o ritmo das empresas desde o início do ano. Crises geopolíticas surgiram logo nos primeiros dias. Instabilidades econômicas aparecem quase semanalmente. O ambiente global parece produzir um novo motivo de preocupação a cada manchete. E mesmo assim, as empresas continuam funcionando, muitas vezes em velocidade ainda maior.
Projetos continuam sendo lançados, investimentos seguem acontecendo, reuniões estratégicas não param de surgir e novas iniciativas aparecem constantemente. Em vez de desacelerar, muitos profissionais relatam algo curioso: nunca trabalharam tanto.
Isso acontece porque o ambiente competitivo atual não permite pausas prolongadas. As empresas sabem que as transformações tecnológicas, as mudanças no comportamento do consumidor e a concorrência global não respeitam o calendário de feriados.
Essa percepção muda completamente a forma como olhamos para o ano. O problema nunca foi a quantidade de feriados, a Copa ou as eleições. O verdadeiro desafio sempre foi a capacidade de manter o ritmo mesmo quando o ambiente externo parece sugerir o contrário.
Empresas que entendem isso deixam de tratar o calendário como obstáculo e passam a tratá-lo como estratégia. Feriados viram oportunidades comerciais. Eventos esportivos se transformam em campanhas de marketing. Momentos de atenção coletiva são convertidos em engajamento de consumidores.
No fundo, o que esse ano aparentemente “cheio de pausas” revela é algo diferente. O mercado não desacelera porque o mundo não desacelera. Crises continuam acontecendo, tecnologias continuam evoluindo e consumidores continuam mudando.
O ritmo dos negócios não é mais determinado pelo calendário. Ele é determinado pela ambição das empresas. E talvez a grande provocação deste ano seja justamente essa: enquanto muita gente espera que as coisas parem por alguns dias, o mercado segue andando.

Fernando Moulin é CEO & Founder da Polaris Group, aceleradora estratégica de negócios, professor e palestrante internacional, especialista em transformação digital e experiência do cliente e coautor dos best-sellers “Inquietos por natureza”, “Você brilha quando vive sua verdade” e “Foras da curva”.





