A geração Z ainda está vendo seu comportamento, ideias e visão de mundo serem assimiladas pela sociedade e pelo mercado. Mas, no mundo acelerado de hoje, convém manter olhos e atenção para a Geração Alpha. As crianças nascidas por volta de 2010 têm características que provavelmente irão condicionar novos comportamentos, ainda mais por serem a primeira geração a crescer em um mundo associado à Inteligência Artificial.
O SXSW trouxe uma pesquisa muito densa e com dados de alta qualidade sobre a Geração Alpha. Apesar da amostra ser baseada no mercado americano – e da carência de estudos similares no Brasil – há informações que permitem elaborar boas hipóteses para o futuro desses jovens em nosso mercado.
A responsável pelo estudo, Joana Piacenza, Head de Inteligência da Morning Consult, trouxe muitos insights e dados curiosos sobre os hábitos e influências da Geração Alpha. A seguir, um resumo selecionado dos dados mais representativos do estudo.
O que os pais da geração Alpha esperam de seus filhos?
Para surpresa de ninguém, e a exemplo de incontáveis gerações anteriores, os pais dos jovens Alpha querem que seus filhos cresçam em ambientes saudáveis, com integridade e em famílias estáveis.
- Agora vamos às nuances. Mais de 45%, ou exatamente 47% dos pais da geração Alpha são millennials que vivem sob grande pressão financeira. São pessoas, profissionais e cidadãos que depositam em seus filhos a pressão de serem bem-sucedidos para que não enfrentem os problemas que eles vivenciam atualmente.
- Lembramos que as classes médias vivem em crise no mundo inteiro, particularmente nos mercados ocidentais. A sombra do orçamento curto, da culpa por não poderem oferecer as melhores condições possíveis aos seus filhos, está na base de crises de ansiedades e traumas sensíveis para estes pais.
- Ao mesmo tempo, as questões identitárias ganharam a mesa e os lares do geração Alpha. Falar sobre identidade, raça, gênero, política faz parte da rotina dessas famílias.
- Os desejos naturais da sociedade de consumo também atingem a geração Alpha. 46% dessas crianças tomam decisões sobre marcas, 43% dos pais, por sua vez, costumam fazer corridas rápidas às redes de fast food, para comprar comida barata e, ao mesmo tempo, com apelo para as crianças. Há uma evidente busca por recompensa emocional nessa escolha.
- São muitas as implicações dessas escolhas. Isso faz com que os pais costumem até mesmo dar a seus filhos uma comida diferente daquela que eles mesmos consomem. Novamente, os complexos derivados da restrição financeira ganham espaço e tomam a mesa. São 28% dos pais que se alimentam dessa forma, particularmente no jantar.
- Com relação ao lazer, 63% dos pais da geração Alpha decidem os destinos de turismo porque seus filhos assim desejam. Eles gostam de viajar, e querem que as crianças participem disso. Então, imaginem que um jovem viu um determinado destino na TV, no YouTube, e, de forma não refletida, manifesta o desejo de visitar o local. Surpresa! pais complexados que querem dar o melhor aos seus filhos, simplesmente concordam.
- Podemos perceber que as decisões relacionadas à criação e a satisfação das vontades e necessidades dos filhos, dos jovens Alpha, passam por um caminho semelhantes ao da geração do pôs-guerra, há quase 80 anos! Ainda sobre o lazer, 55% dos pais da geração Alpha dizem que seus filhos preferem se divertir em atividades externas (sem vídeo game?). Mas o que eles falam é um retrato da realidade? Obviamente, crianças pequenas querem sentir o ar e ver o que há além de suas casas. Mas quando ganham mais idade, será que continuam com esse desejo?
- Um dado para ilustrar (desmontar) essa hipótese, é que quase 50% dessas crianças têm um tablet. Quase 20% já têm um headset de Realidade Virtual e, por consequência, quase 40% passam 3 horas por dia… on-line, 24% gastam quase 7 horas usando smartphones! “Atividades externas”? Mesmo? Pois bem.
- E ainda dentro de casa, 51% dos Alphas assistem e acessam canais e programas de streaming, com 60% assistindo YouTube frequentemente. As plataformas preferidas ainda são o próprio YouTube, DisneyPlus e Netflix. Ao contrário do que se poderia imaginar, o TikTok ainda não encontra grande penetração nestes jovens. E, como ponto de grande atenção, 36% dessas crianças acessam rede sociais ao menos duas horas por dia. O quanto essa permanência e contato com mídias sociais irá afetar sua saúde mental? Aí temos um grande desafio para educadores e para os pais, pressionados pela renda comprimida, como realmente escolher o conteúdo mais saudável para seus filhos e alunos?
- Além do mais, em termos de socialização, os Alphas já começam a preferir encontrar amigos on-line, refletindo um comportamento já largamente disseminado na Geração Z, que reduziu sensivelmente o número de horas dedicadas a encontros presenciais com amigos e companheiros(as). Provavelmente, serão os Alphas, os incentivadores da “ressurreição” ou estabelecimento do meta verso e da Vida Híbrida, transitória entre realidades.
- E também, a exemplo da geração Z, 29% dos Alphas usam gírias que não são compreendidas pelos seus pais. Já oremos vislumbrar problemas de comunicar, compreensão, cognição e entendimento no futuro próximo…
A partir desses insights, novamente, extraídos do estudo dos jovens Alpha. Os EUA, é possível desenhar algumas hipóteses para o mercado brasileiro. Como por aqui a restrição de renda é praticamente parte da vida das pessoas, e a inclusão digital caminha acelerada, com uma adoção sem precedentes de serviços financeiros digitais, é possível que as escolhas de criação dos Alfas (agora com “f”, em bom português) sejam ainda mais radicais do que as dos pais dos EUA. Os efeitos da vida em redes sociais e da introversão derivada da convivência digital serão ambiente para a multiplicação de neuroses ou ou episódios de ansiedade e depressão?
E qual a capacidade de influenciar decisões da nova geração em relação às escolhas de seus pais? Já sabemos que os Alfas no Brasil determinam a escolha das plataformas de streaming e algumas decisões de lazer. O que isso irá motivar em termos de comportamento e atitudes na vida adulta? Como serão os consumidores e os colaboradores Alfas? Serão tão independentes e avessos às tradições quanto os membros da Geração Z?
O tempo dirá. E ele já está logo ali. Em menos de 5 anos, a Geração Alfa já estará disponível para mostrar sua narrativa e seus hábitos no mercado de trabalho.