- O consumidor passou a medir conveniência pelo trajeto, e não só pela entrega em casa. Na Food To Save, seis em cada dez pedidos já são retirados na loja.
- A retirada acontece perto de casa ou do trabalho, a 3,82 km em média, e quase sempre em horário comercial, com as padarias à frente.
- Mais de 61% de quem vai buscar o pedido compra algo a mais, o que transforma o excedente de alimentos em tráfego para o comércio de bairro.
Nunca foi tão fácil comer sem sair de casa. Em abril de 2026, o delivery respondeu por 25,9% das vendas das redes acompanhadas pelo Índice de Desempenho do Foodservice (IDF). Segundo levantamento do Instituto Foodservice Brasil, responsável pelo índice, no mesmo mês as transações do canal cresceram 24,8%, enquanto as do salão recuaram 2% na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Em uma plataforma de alimentos com desconto, porém, a lógica corre em outra direção. A Food To Save conecta consumidores a estabelecimentos que vendem excedentes de alimentos em sacolas surpresas. Ou seja, o cliente nunca sabe exatamente o que irá receber, a não ser uma pista entre “Doce”, “Salgado” e “Misto”. No aplicativo, seis em cada dez pedidos são retirados presencialmente, segundo a empresa. O que significa que o cliente até compra pelo celular. Mas, em vez de esperar pela entrega, percorre o caminho até a padaria, o café ou o mercado para buscar seu pedido.
Esse cenário mostra que a conveniência deixou de ser sinônimo de receber a compra em casa. Para parte dos consumidores, ela passou a ser medida pela ausência de atrito na jornada, como o encaixe na rotina atarefada, o preço final e os benefícios ganhos ao longo do caminho.
A opção de retirada
Diferentes plataformas de delivery oferecem a opção de retirada como um plano B. Ou seja, apenas caso o consumidor prefira buscar o pedido diretamente na loja, a entrega por um parceiro será sempre a primeira opção. No entanto, hoje a retirada no local já responde a uma ideia mais ampla de conveniência.
Uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, divulgada em agosto, lista as principais vantagens que o brasileiro enxerga nas compras online. O preço abaixo aparece em primeiro lugar, citado por 44% dos entrevistados. Em seguida, surgem comprar sem sair de casa (33%) e economia de tempo (26%). Isso quer dizer que, mesmo no canal digital, ficar em casa é apenas uma das faces da conveniência.
Ainda, o consumidor deixou de escolher um único caminho. A pesquisa Fiserv Insights 2026 mostra que 30% dos consumidores combinam loja física e e-commerce em uma mesma compra, sendo que apenas 17% compram exclusivamente no presencial.
É nesse consumidor híbrido que a Food To Save aposta. “O consumidor está cada vez mais atento à relação entre preço, qualidade e conveniência, e a retirada permite combinar esses fatores de uma maneira muito interessante”, afirma Marcelo Fernandes, diretor de marketplace da empresa.
Para ele, a definição de conveniência precisa ser revista. “Para nós, conveniência não significa necessariamente que tudo precisa chegar à porta de casa. Significa oferecer alternativas que façam sentido para diferentes rotinas e necessidades.”

Foto: Jefferson Alcântara.
Taxa vs. Trajeto
A redefinição da conveniência acontece em um momento de orçamento curto do consumidor. Segundo o estudo Consumer Insights 2026, da Worldpanel by Numerator, 70% dos lares brasileiros estão sob algum grau de restrição orçamentária. No segundo trimestre do ano, as compras em promoção cresceram 35% em valor. Além disso, o consumidor passou a ir menos vezes ao ponto de venda, concentrando mais itens em cada visita.
Nesse cenário, cada componente do preço final passa a ser examinado. No delivery de alimentos e bebidas, o ticket médio chega a ser quase três vezes superior ao dos canais não digitais, de acordo com a consultoria. Abrir mão da entrega vira, para parte dos consumidores, uma forma de controlar o gasto sem abrir mão do pedido.
Na Food To Save, por sua vez, os alimentos já chegam ao app com desconto, e a retirada no estabelecimento elimina o custo do frete. Mas Marcelo Fernandes não reduz a escolha ao preço. “Acreditamos que a decisão passa principalmente pela combinação entre economia, conveniência e rotina”, diz. Assim, a economia abre a porta, mas é a rotina que sustenta o hábito.
Rotina e hiperlocalidade
Segundo a Food To Save, a distância média percorrida para buscar uma sacola – como são chamados os pedidos na plataforma – é de 3,82 km. Ainda, cerca de 80% das retiradas acontecem entre 8h e 17h, com um pico entre 10h e 12h, que concentra perto de 18% dos pedidos. Já o restante se distribui de forma quase uniforme. Cada hora do expediente responde por 7% a 9% das transações.
Assim, a distribuição indica um consumo diluído no dia, em vez de concentrado nos horários de refeição. “A retirada permite que o consumidor aproveite um deslocamento que já faria, como o caminho de volta do trabalho ou uma ida ao comércio do bairro”, afirma Marcelo Fernandes. Na definição do executivo, a retirada “é essencialmente uma compra de bairro, ancorada na rotina diária e na hiperlocalidade”.
Entre os formatos de estabelecimento, as padarias dominam amplamente as retiradas. Geograficamente, o comportamento é mais forte nas grandes capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília e Belo Horizonte. Entre os usuários que informaram a idade, lideram as faixas de 25 a 40 anos e de 41 a 60 anos. Ou seja, um público economicamente ativo e inserido no fluxo da cidade.
A escala ajuda a dimensionar o fenômeno. Em março de 2026, a empresa informava presença em 14 estados e mais de 100 cidades, com mais de 7,5 milhões de usuários cadastrados.
Compra espontânea
Mas a retirada não termina na sacola. Segundo a Food To Save, mais de 61% dos consumidores que vão até a loja buscar o pedido acabam comprando algum item adicional. “Esse é um dos dados mais estratégicos para os nossos parceiros”, afirma Marcelo Fernandes.
A empresa identifica alguns comportamentos nessa compra espontânea. O primeiro é o consumo imediato. O cliente aproveita a visita para pedir um café no balcão, uma fatia de bolo ou um suco. O segundo é a complementação da cesta. É quando quem resgatou pães ou croissants leva também, a preço cheio, itens como manteiga, frios ou leite.
A pesquisa Future Consumer Index, da EY, mostra que 45% dos consumidores ainda descobrem novos produtos por meio de exposições em lojas, contra 17% que fazem essa descoberta a partir de recomendações online. O balcão, nesse sentido, continua sendo uma vitrine que o algoritmo não substitui.
Já para o estabelecimento, a conta muda de natureza. O que entra no aplicativo é o excedente da produção, um alimento que poderia ir para o lixo. Isso em um País em que o desperdício na etapa de consumo das famílias é estimado em 94 kg por pessoa ao ano, segundo o Índice de Desperdício de Alimentos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
Assim, com a retirada, esse excedente passa a trazer gente para dentro da loja. “Muitas vezes, a pessoa descobre pelo aplicativo uma padaria, um café, uma confeitaria ou um restaurante que ainda não conhecia e passa a frequentar aquele lugar”, diz o executivo.
Balcão como ponto de experiência
Quando o pedido não chega de moto, a experiência deixa de acontecer na tela e passa a depender de quem está atrás do balcão. Isso devolve ao atendimento presencial um peso que o delivery havia diluído. Mas também reabre velhas fricções. Na pesquisa Fiserv Insights 2026, 42% dos consumidores apontam as filas como um dos principais incômodos nos estabelecimentos físicos.
Para uma plataforma que reúne milhares de parceiros, garantir consistência é o desafio central. “Uma padaria, um restaurante e um mercado têm dinâmicas operacionais diferentes, assim como os alimentos disponíveis variam de acordo com o negócio e o momento”, afirma Marcelo Fernandes. O modelo da sacola surpresa adiciona uma camada extra, já que o consumidor não escolhe item a item o que vai levar.
Por isso, a empresa trabalha para que os parceiros tenham clareza sobre horários de retirada, organização dos pedidos e acondicionamento dos alimentos. O executivo resume a lógica em termos de recorrência. “Quanto melhor a experiência, maior a possibilidade de o consumidor voltar e de o parceiro aproveitar os benefícios do modelo.”
Entrega e retirada
Nada disso indica um recuo do delivery. A penetração do canal de alimentos e bebidas chega a 77% dos lares brasileiros, segundo a Worldpanel by Numerator, e o próprio aplicativo da Food To Save oferece entrega. “A entrega, por sua vez, atende quem prioriza receber o pedido em casa”, reconhece Marcelo Fernandes. O que muda é que o consumidor escolhe o canal de acordo com a ocasião, e não por hábito fixo.
A empresa projeta uma retirada cada vez mais integrada aos deslocamentos. Na visão do executivo, a tecnologia deve passar a sugerir resgates nos trajetos que o consumidor já faz, como a volta do trabalho ou o caminho da academia, aproximando o modelo do conceito de cidade de 15 minutos.
Resta saber quanto desse comportamento é estrutural e quanto é resposta a um orçamento pressionado. Se o bolso folgar, parte dos consumidores pode voltar a pagar pela comodidade da porta de casa. Os que ficarem no balcão, porém, já terão mostrado ao varejo de bairro que a conveniência mais disputada nem sempre é a que chega mais rápido, mas a que cabe no caminho.





