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“Adaptabilidade não é falhar nunca – é falhar produtivamente”

“Adaptabilidade não é falhar nunca – é falhar produtivamente”

Benito Berretta, da Hyper Island, traz uma análise profunda sobre sucesso e fracasso, e como podemos obter uma compreensão honesta sobre adaptação e liderança.
Adaptabilidade.
Adaptabilidade.
Foto: Shutterstock.

A Terceira Lei de Adaptabilidade, conceito desenvolvido por Benito Berretta, diretor geral da Hyper Island nas Américas, embasada na regressão à média, nos leva a questionar a forma como encaramos o sucesso e o fracasso do ponto de vista de uma verdade fundamental: “Adaptabilidade não é nunca falhar, é falhar produtivamente”, diz.

Em sua mais nova argumentação, “A Terceira Lei da Adaptabilidade: O sucesso é um jogo de volume e a natureza venenosa da admiração”, o especialista reflete sobre a realidade dolorosa do fracasso e o inebriante sentimento de sucesso.

“Eu vivo em um mundo barulhento e exaustivo, assombrado pela adoração obscena de realizações extraordinárias e igualmente desesperado para enterrar o fracasso a qualquer custo. Possivelmente você está pensando: Oh, que cara dramático. Deixe-me dizer que nem sempre me sinto assim; é só quando consigo me afastar do estado entorpecido de sobrecarga de dopamina”, explana Benito sobre estes sentimentos antagônicos.

A partir desse argumento, Benito traça uma análise sobre a Terceira Lei da Adaptabilidade (conceito da Hyper abordado anteriormente em uma entrevista exclusiva), que nos oferece um tipo raro, mas brutal, de alívio: “Ela nos lembra que a maioria dos resultados não são triunfos puros nem desastres, mas regressões confusas em direção à média”, aponta o especialista.

Benito é audacioso ao propor que sucesso e fracasso são menos pessoais do que queremos que sejam, e muito menos permanentes. “Você nunca é tão excepcional ou tão terrível quanto pensa que é. Esse princípio, enraizado no conceito estatístico de regressão à média, traz profundas implicações para a forma como abordamos a inovação, a resiliência e o crescimento pessoal”.

Entendendo a regressão à média

Descoberta e nomeada por Sir Francis Galton no final do século 19, a “regressão à média” é uma realidade fria e matemática: “Resultados extremos são anomalias estatísticas, e anomalias não se autoperpetuam. Com o tempo, os resultados naturalmente voltam para a média”, pontua Benito.

Segundo o executivo, esse efeito matemático universal, em termos mais simples, explica desempenhos discrepantes (bons ou ruins) normalmente seguidos por resultados mais moderados. “Não é carma, não é ‘o universo se equilibrando’ e definitivamente não é um pôster motivacional sobre ‘resiliência’”, provoca o especialista. A partir deste conceito, amplamente aplicado em diversas áreas, como Psicologia, Finanças e Ciências Sociais, Benito diz que ele nos ajuda a evitar interpretações equivocadas de causalidade baseadas apenas em observações extremas.

Para ele, este princípio aparece em todo o mundo e nos sistemas humanos. Benito ilustra: “Uma equipe esportiva que tem uma sequência de vitórias extraordinária acabará retornando a níveis de desempenho mais próximos de sua média histórica. Os retornos de investimento que superam drasticamente o mercado em um período geralmente apresentam desempenho inferior nos períodos subsequentes. CEOs ‘lendários’ brilham durante os momentos de pico, mas a matemática fria da regressão sempre alcança. O desempenho superior inicial é frequentemente seguido por resultados médios – ou mesmo decepcionantes. Muito do que atribuímos à habilidade ou ao fracasso pode ser simplesmente variância estatística. Flutuações aleatórias que criam a ilusão de excelência consistente ou inadequação consistente”.

A falácia da Correlação-Causalidade

Um dos insights mais profundos da Terceira Lei de Adaptabilidade é compreender a diferença brutal entre correlação e causalidade. “Somos criaturas famintas por padrões, programadas para costurar causa e efeito em cada resultado que vemos”, pontua Benito.

Por exemplo, muito de nós, quando ganhamos, dizemos a nós mesmos que conquistamos isso ou aquilo porque somos brilhantes. Ou quando perdemos, culpamos algo, o tempo, a má sorte ou algum outro vilão externo. Para Benito há um ponto mais profundo: “A verdade é menos lisonjeira, mas há sabedoria em compreender que a maioria dos resultados é uma confusão emaranhada de habilidade, aleatoriedade e forças sistêmicas invisíveis que mal entendemos. Entender isso não torna a vida mais fácil. Isso só torna tudo mais honesto”.

Quantidade de falhas: o preditor oculto de sucesso

Benito Berretta, diretor geral da Hyper Island nas Américas.

Talvez o aspecto mais contraintuitivo da Terceira Lei, seja este poderoso insight: “a quantidade de fracassos é o melhor indicador de sucesso”. Esta afirmação trazida por Benito diz muito sobre resultados concretos das nossas ações. “Em um empreendimento complexo, não importa quantas vezes falhemos, se continuarmos tentando, muitas vezes há uma boa chance de acabarmos tendo sucesso”, completa Benito citando, Leonard Mlodinow, em seu livro, “O Andar do Bêbado“, que explora como o acaso e a aleatoriedade influenciam profundamente nossas vidas, muitas vezes sem que percebamos.

“Isso não é meramente retórica motivacional é realidade matemática. Quanto mais tentativas fizermos, maior a probabilidade de alcançarmos momentos de avanço”, afirma.

Benito reforça que tais “criadores prolíficos”, geralmente produzem mais obras-primas do que “criadores seletivos”. “Empreendedores com vários empreendimentos fracassados geralmente acabam tendo sucesso. Cientistas que conduzem vários experimentos podem fazer mais descobertas.”

Ou seja, por essa ótica, o número de falhas anteriores torna-se o indicador mais absoluto de sua adaptabilidade. Cada fracasso representa não apenas uma lição aprendida, mas um passo estatístico em direção ao sucesso final.

Adotando a regressão na prática

Mas como podemos aplicar essa Terceira Lei de Adaptabilidade para melhorar nossa própria habilidade de integração e de liderança?

Benito tem alguns guias para isso: “Modere suas reações ao sucesso e ao fracasso. O sucesso não significa que você é invencível. O fracasso não significa que você é incompetente. Ambos são frequentemente eventos estatísticos dentro de uma distribuição normal de resultados. Aumente seu volume de tentativas. Se o sucesso for parcialmente um jogo de números, a abordagem lógica é aumentar suas tentativas. Crie mais, lance mais, tente mais abordagens. Documente e aprenda com os padrões. Embora os resultados individuais possam variar, os padrões em várias tentativas revelam informações valiosas sobre seus processos. Reenquadre a falha como coleta de dados. Cada falha fornece informações que aumentam a probabilidade de sucesso futuro. Celebre a persistência sobre a perfeição. A capacidade de continuar apesar dos contratempos torna-se mais valiosa do que evitar o fracasso completamente”. 

A Dimensão Coletiva

Embora a “regressão à média” possa parecer um lembrete preocupante de nossas limitações como indivíduos, Benito diz que na verdade ela destaca o poder do esforço coletivo. “Quando combinamos várias perspectivas e abordagens, expandimos nosso leque de tentativas e aumentamos nossas chances de sucesso inovador.”

Conforme destacado na Segunda Lei (“somos projetados para falhar individualmente e prosperar coletivamente”), Benito percebe que a regressão à média nos lembra que nenhuma pessoa pode superar consistentemente a aleatoriedade. Mas juntos, por meio da colaboração e do aprendizado compartilhado, ele diz que podemos alcançar um progresso consistente além do que a variância estatística preveria para qualquer indivíduo.

Sucesso: um jogo de volume

A Terceira Lei da Adaptabilidade, por mais complexa que possa parecer, reformula fundamentalmente a forma como pensamos sobre sucesso e fracasso. “Em vez de ver a realização como resultado de talento inerente ou estratégia perfeita, nós a entendemos como parcialmente o resultado da persistência estatística – fazendo tentativas suficientes para romper, apesar da regressão à média”, pontua Benito.

Essa perspectiva, ele diz, é “simultaneamente humilhante e fortalecedora”. Isso para o especialista, “tempera” nosso ego quando temos sucesso e nosso desespero quando falhamos. “Mais importante ainda, muda nosso foco de evitar o fracasso para aumentar nosso volume de tentativas, reconhecendo que, a longo prazo, a quantidade de nossos fracassos pode, de fato, ser o melhor preditor de nosso sucesso final.”

Em resumo, Benitio nos traz uma provocação para tempos acelerados, onde sucesso e fracasso geram incertezas de como podemos ser mais eficientes, consistentes e construtivos o mais rápido possível. Sobre essa necessidade, Benito conclui: “Em um mundo em que muitas vezes se celebra o sucesso da noite para o dia e esconde-se as inúmeras tentativas que o precederam, a Terceira Lei de Adaptabilidade, embasada na regressão à média, nos lembra de uma verdade fundamental: adaptabilidade não é nunca falhar – é falhar produtivamente, repetidamente e com a sabedoria estatística de que a persistência em si é a estratégia.”

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