Recentemente, a TIVIT, multinacional de tecnologia controlada pelo grupo italiano Almaviva, revelou um programa de R$ 1 bilhão para comprar empresas na América Latina e criou um cargo que marca um novo ponto de inflexão nos negócios: o de Chief Artificial Intelligence Officer, o CAIO. Quem assume a função é Patrick Baudon, que segue também como CEO da Almawave Brasil, empresa do grupo especializada em dados e inteligência artificial.
O programa de fusões e aquisições mira desenvolvedoras de software e hardware proprietários, com produto já consolidado e espaço para crescer. Todas com faturamento anual entre R$ 20 milhões e R$ 200 milhões. São empresas grandes o bastante para ter tecnologia própria e pequenas o suficiente para ganhar escala dentro da estrutura comercial da TIVIT, que hoje opera em dez países da região.
A triagem diz bastante sobre a estratégia de crescimento. A companhia mapeou 620 empresas, abordou 308, avançou em conversas com 75 e mantém 15 em análise aprofundada. Em outras palavras, menos de 3% dos nomes do radar inicial chegaram perto da mesa de negociação.
“Não começamos o M&A pela empresa que aparece à venda; começamos pela estratégia”, diz Mitri Britto, diretor de Estratégia, M&A e Marketing da TIVIT. Segundo ele, a ideia é montar plataformas especializadas por setor, e não acumular operações por volume. As teses de investimento saíram de estudos por indústria sobre demanda dos clientes, concorrência e tendências tecnológicas.
O dinheiro vai para seis verticais: Governo (com ênfase em segurança pública e defesa), mercado financeiro, transportes, manufatura, saúde e utilities. Vai também para duas frentes que atravessam todas elas: IA e cibersegurança.
R$ 1 bilhão é só a primeira fase. A intenção declarada da companhia é manter um pipeline permanente de aquisições nos próximos anos, bancado pela geração de caixa da operação, pela melhora de rentabilidade e por sinergias com o controlador.
De acordo com Marco Tripi, CEO global do Grupo Almaviva, o grupo investiu mais de R$ 6 bilhões em aquisições nos últimos dois anos, cerca de metade na América Latina. A conta inclui a compra da própria TIVIT, no Brasil, além de Iteris, Mabrian e B.M. Tecnologie Industriali.

Uma cadeira para a IA
Já a nomeação de Patrick Baudon como Chief AI Officer tem outro objetivo: espalhar uma tecnologia específica de dentro para fora. A TIVIT já tinha competências dedicadas a Dados & IA. A mudança é tirar a IA dessa caixa e transformá-la em camada comum a todo o portfólio: Digital, Cloud, Cybersecurity e SAP.
“Inteligência Artificial está deixando de ser uma categoria isolada de tecnologia para se tornar parte da arquitetura de praticamente todas as soluções que desenvolvemos. A criação dessa posição reflete essa mudança. Nosso objetivo é acelerar a incorporação de IA em todo o portfólio da TIVIT, combinando nossas capacidades locais, nosso conhecimento dos clientes e a profundidade tecnológica que hoje temos dentro do Grupo Almaviva”, afirma Valdinei Cornatione, CEO da TIVIT Brasil.
IA com objetivo e resultados
A agenda do novo CAIO é extensa: amadurecer as capacidades de IA embutidas nas ofertas, desenvolver o ecossistema de parceiros, buscar novas alianças especializadas em Dados & IA e ajudar as áreas comerciais e de pré-vendas a converter conversas sobre Inteligência Artificial em projetos concretos. Há ainda um item que merece atenção: criar, com as equipes de execução, metodologias para acompanhar e quantificar os benefícios que a tecnologia gera para os clientes. Num mercado em que sobra piloto e falta comprovação de retorno, não é detalhe.
“A TIVIT já possui uma base importante de especialistas, projetos e clientes utilizando inteligência artificial. O desafio agora é dar escala a essas capacidades e fazer com que IA esteja cada vez mais presente em todas as conversas que temos com nossos clientes. Isso envolve tecnologia, mas também arquitetura de soluções, parceiros, modelos de negócio, desenvolvimento comercial e, principalmente, capacidade de transformar IA em resultados mensuráveis”, afirma Patrick Baudon.
O executivo comanda a Almawave Brasil desde julho de 2024 e, desde então, conduz a expansão da empresa no país. A Almawave concentra boa parte da tecnologia proprietária de IA do Grupo Almaviva, incluindo a plataforma AIWave e a família de modelos de linguagem Velvet, e já vinha trabalhando com a TIVIT na aplicação dessas ferramentas para empresas da região.
O novo cargo também conecta a TIVIT à estrutura global de IA do grupo, que desde maio tem Valeria Sandei como Chief Global AI Officer, com a missão de integrar tecnologias, modelos, plataformas, frameworks e casos de uso das diferentes operações.
Quando uma empresa é sólida, comprar costuma ser a parte mais simples de uma estratégia de crescimento. O teste virá na integração e naquilo que o próprio Patrick Baudon aponta como central, e que hoje é o ponto mais questionado pelo mercado: transformar IA em resultado que se possa medir.





