A Copa do Mundo FIFA 2026 deixou claro que, quando o assunto é apostas esportivas, a discussão sobre jogar ou não é irrelevante. Além da forte presença das bets na publicidade durante as transmissões das partidas, o brasileiro já coloca sua “fezinha” no jogo de diferentes formas: no bolão da família, nas orações e agora, com mais força, nas apostas online.
“O jogo tem muito mais força do que as vontades de várias entidades, e até mesmo do que o nosso próprio governo manifesta”, aponta Ricardo Magri, diretor-executivo da Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (EBAC) no seminário A Era do Diálogo Best Bets.
Por isso, ele aponta que boa parte das discussões sobre os riscos das plataformas de apostas são focadas no Marketing, quando deveriam ter como ponto de partida o próprio produto.
Barbara Esposito, head de Operações da BetMGM, destaca que, por muito tempo, os consumidores foram atraídos para as casas de apostas pelas odds e pelo bônus de boas-vindas. “Hoje, não existe mais isso”, destaca. “Propagamos um ambiente de segurança e confiança para os jogadores, através do jogo responsável e das ferramentas de autoexclusão e autolimitação.”
A executiva aponta que a plataforma, inclusive, lançou uma campanha de acolhimento para familiares, terceiros e amigos. O objetivo é incluir essas pessoas para que tenham voz no âmbito da ludopatia. “Obviamente, o jogador não escolhe a casa de apostas somente pelo jogo responsável. O que encanta o jogador é um ambiente seguro, de entretenimento, fácil navegação e entusiasmo.”
Mais do que entretenimento
Nesse sentido, na visão de Barbara, o retorno financeiro é uma consequência da experiência proporcionada na plataforma.
“Isso se dá a partir do momento que a gente traz um ambiente acolhedor, propagando entretenimento, mostrando para o cliente que estamos analisando o comportamento, navegando durante toda a sua jornada, sabendo os momentos exatos em que ele precisa de ajuda”, reforça. “O restante acaba virando consequência. É daí que a gente gera valor e fideliza os clientes dentro da nossa casa.”
No entanto, Carlos Lima, presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), aponta que ainda há divergências entre o que órgãos, plataformas, e formadores de política acreditam que o consumidor deve ouvir sobre jogo responsável. Em sua visão, o Brasil foi lento no processo de regular o setor. E, em contrapartida, o processo de proibição vai avançar de forma muito mais rápida.
“Se tivermos efetivamente a capacidade de mostrarmos para o formador de política pública e para a sociedade que o jogo responsável não é algo que está apenas em duas palavras, esse processo de exclusão irá acontecer mais rápido”, aponta. “Enquanto o setor não conseguir equilibrar essa balança, dificilmente irá sobreviver.”
Publicidade é informação
Nesse cenário, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) atua como um agente relevante e protagonista no setor de apostas. A instituição foi criada antes mesmo do Código de Defesa do Consumidor, em 1980.
Como aponta Vitor Hugo Ferreira, diretor jurídico do CONAR, diversos outros setores contam com restrições e regras próprias para a comunicação publicitária, como as divisões de bebidas alcóolicas, por exemplo. O órgão criou determinações liminares durante a Copa do Mundo, para que os próximos jogos tivessem possíveis publicidade abusivas durante as transmissões.
Para Ferreira, mais do que a efetividade das ações, trata-se também da construção de credibilidade. “Todos os sites de apostas legalizados no País são filiados ao CONAR. Nisso, ao cumprir com as exigências, assume o compromisso com a autorregulamentação”, explica.
“Não podemos esquecer que publicidade é, antes de tudo, uma informação. Se deixarmos todas as legislações já existentes e olharmos o Código de Defesa do Consumidor, a informação precisa ser clara, precisa, ostensiva e identificável. É pegar o básico e replicar na publicidade de qualquer setor”, acrescenta. “Ceifar a publicidade é ceifar a informação.”
A maturidade do setor de apostas
Por isso, a longevidade do setor está na responsabilidade, segundo Jun Makuta, member of the Gaming, Betting and Responsible Gaming Committee da OAB/SP. Em sua visão as regras para setor mostram como os stakeholders devem se comportar dentro do mercado regulado. “É um processo de evolução. Acho que não vamos acertar de primeira. Essas novas regras que estão vindo não serão as primeiras e nem as últimas.”
Ele compara o momento do setor – recente, com apenas dois anos de idade – ao movimento de placas tectônicas, que se mexem de forma agressiva, em diferentes direções, até que se acomodem. Será este o momento em que haverá uma consolidação do mercado, com players mais maduros, mais cientes da importância do papel da regulamentação em uma atividade que tem suas extremidades negativas.
“É importante criar essa maturidade, reconhecer que essa atividade tem potenciais negativos e que, se não forem bem controlados, poderão machucar o setor como um todo, matando uma indústria”, explica. “Pode vir um remédio muito forte que vai acabar matando o paciente, em vez de curá-lo. Por isso, o regulador deve entrar no detalhe da funcionalidade.”
Makuta ainda destaca o papel que o ECA Digital exerce no setor. Uma vez que, em sua visão, a preocupação do regulador deve passar também pelas redes sociais. “No final das contas, o jogo responsável é pretexto para evitar que o jogador acabe exagerando e faça mal a ele mesmo e, por consequência, acabe traumatizando toda uma indústria.”





