Eu só sei que nada sei

Eu só sei que nada sei

Em plena era da experiência cognitiva, a maioria das empresas acumula dados e, ainda assim, não sabe quem é o seu cliente

A dona de casa entra na loja para pagar o carnê. Ainda é uma cena comum nesse Brasil de contrastes. Uma vez na loja, ela se interessa por um liquidificador. Faz as perguntas para o vendedor que se esforça para encaminhar o negócio. Mas a cliente, ao contrário do que faria há alguns anos, saca o celular da bolsa e começa a pesquisar se existe uma oferta melhor. Em questão de segundos, ela encontra três opções mais interessantes. Paga o seu carnê e, enquanto isso, faz a compra do liquidificador naquele marketplace que vai entregar no mesmo dia.  

A loja que perdeu a venda está se perguntando onde foi que errou. O e-commerce corresponde a 10%, 15% das vendas totais do varejo brasileiro, a depender dos critérios. Eis um dos vetores que explica por que os clientes vão menos e, quando vão, ficam menos tempo nas lojas. Até porque sair de casa se tornou uma tarefa razoavelmente seletiva. Muitos saem para trabalhar, mas adorariam escolher quando tocar o expediente de casa. Outros não saem para trabalhar, beneficiados por empresas duvidosas, que fazem do home office um apelo de “retenção de talentos”.  

O importante aqui é enquadrar o comportamento central: o brasileiro sai menos de casa porque está cada vez mais encasulado, pela insegurança nas ruas, pelo custo de vida e pelo esforço que envolve deixar o abrigo do lar. 

Cerca de 65% dos cidadãos (segundo pesquisa do Instituto Locomotiva) relatam não ter tempo livre ou momentos de ócio durante a semana; a abstinência entre os jovens na faixa dos 18 aos 24 anos saltou de 46% em 2023 para 64% em 2025 (dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – CISA). Outro estudo, encomendado pelos institutos Update e Fogo Cruzado, realizado pelo Instituto Ideia, mostra que 60% das pessoas já deixaram de frequentar lugares de que gostariam.  

Mais seletivos, os cidadãos vão para a rua quando um evento realmente vale a pena. Por isso, grandes eventos corporativos, jogos e shows vivem lotados. Esse é o outro lado da moeda: o Brasil é o segundo maior mercado para shows no mundo (estudo da PwC/Live Entertainment).  

E o que essa saraivada de números diz sobre a dona de casa e seu carnê? Entre outras coisas, diz que há uma grande probabilidade de o cliente fiel, que costumava voltar para comprar (e pagar o carnê) todo mês em uma loja, agora voltar só uma vez ao ano. E que a rede de lojas que ocupava a posição do “acesso” aos itens de consumo bacanas não é mais a primeira opção.  

Resumo da ópera: dados dizem muita coisa, desde que haja disposição real e competência para codificar o que eles mostram, cruzar com outros dados, extrair insights e definir hipóteses que fundamentam problemas reais, além de expor verdades incômodas. 

Nos últimos tempos, vimos, uma a uma, grandes redes varejistas tombarem nos braços das recuperações judiciais. Marcas fortes, muitas delas líderes, cheias de boas histórias e vínculos que pareciam inquebráveis com os consumidores. Essas redes ruíram em parte por decisões erradas, em parte por alavancagem desmedida em um País viciado em juros “elefantinhos” e, em parte, por ignorarem o quanto os clientes mudaram (e continuam mudando). É perturbador ver a erosão de grandes negócios por conta da falta de habilidade no trato dos dados, não pelo que eles trazem na superfície, mas pelo que sinalizam.  

Dados dizem muita coisa, desde que haja disposição real e competência para codificar o que eles mostram

Os negócios combalidos de ontem, hoje e os que irão dar as boas-vindas às recuperações judiciais amanhã sabiam a frequência de compra dos seus clientes, a faixa etária deles, o gênero, a sua renda média, as condições de crédito, as preferências e uma infinidade de informações que fazem um cliente ser apenas um manequim. Nenhum rosto, nenhuma intenção, nenhuma motivação, nenhuma identidade. 

Um exemplo: por trás de muita álgebra inútil, foi difícil estabelecer associações ou hipóteses entre o provável aumento de clientes que iniciavam tratamento à base de tirzepatida e semaglutida (bases das canetas emagrecedoras) e a provável busca por alimentos mais ricos em proteína. Falar disso hoje em dia é só bancar engenheiro de obra pronta. 

Mas, nessa mesma linha, a busca desesperada pela magreza redentora também funciona como marcador social de refinamento, elegância, um passaporte para um “clube” de bem-aventurados e bem-sucedidos. E quais outros marcadores de consumo estão associados a essa recém-conquistada magreza, para além de restaurantes e da “proteína”? Que novos hábitos a magreza induz ou impõe? Que atividades culturais ou viagens de lazer esse consumidor ou consumidora auto-otimizada vai preferir?  

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Dados ignorantes

CRM, Big Data, Data Lake, Analytics – são muitas as ferramentas que foram colocadas à disposição das empresas, na busca do nirvana do conhecimento. Em termos simples, não haveria mais segredos insondáveis dos clientes que não fossem revelados pelas tecnologias de gestão de dados.  

Nada feito. Essas aplicações permitiram acumular dados e mais dados, até sinalizaram insights reveladores, mas produziram apenas ignorância em escala, sem trazer a compreensão real do cliente. 

No Brasil da renda média, o consumidor, que hoje trafega na classe B, amanhã estará na classe C, tanto quanto o milionário que hoje compra o carrão elétrico com cartão de crédito amanhã irá encarar um divórcio ruidoso e terá de ocultar o patrimônio para preservar seu estilo de vida. Coisas que o CRM não via e o Big Data enxergava pela metade. 

Com a adoção da Inteligência Artificial generativa, estruturar os dados ficou muito mais simples. Cruzar informações, indicadores e análise de sentimentos pode, afinal, produzir os insights que permitam às empresas abrir as caixas pretas cognitivas dos seus clientes. Ir além do que aconteceu de forma “narrada” e entender percepções, ganchos de atenção, memória e aprendizados para proporcionar ao cliente a realidade da Experiência Infinita. 

Estamos nos encaminhando para uma nova era, na qual a vantagem competitiva essencial passa, justamente, pela capacidade de uma marca gerar momentos frequentes de interação, transação e envolvimento. E isso de maneira realmente fluida, imperceptível, natural.  

Estamos falando de um novo jogo, que poucas empresas estão aptas a jogar. Um jogo de empresas que entendem por que um cliente ansioso declina uma entrega no mesmo dia, por outra que chegará somente daqui a três dias (é isso mesmo). 

Chega de formulários, camadas de cliques, validações irritantes. O cliente cansado, que procura alívio cognitivo na sua relação com as empresas, e não encontra isso na vida pessoal, profissional, social, econômica, vai priorizar toda jornada que assumir suas decisões, mantendo seu “controle”.  

Empresas que ignoram o que motiva, envolve e gratifica seus clientes vão sofrer. E vão se juntar àquelas que atualmente frequentam as páginas econômicas, abatidas que foram por não entenderem seus clientes, além de outros equívocos. 

Empresas que ignoram o que motiva, envolve e gratifica seus clientes vão sofrer

Nessa nova era, o CX não faz mais sentido. A experiência do cliente evoluiu e quer ocupar o espaço devido na mesa do board e no bottom line. O CX do passado dá as boas-vindas ao CX do amanhã: a Experiência Cognitiva. A única experiência viável que fará a dona de casa do início desse texto ir à loja, pagar o carnê no self-checkout, enquanto recebe uma oferta de liquidificador com crédito pré-aprovado, desconto nas duas parcelas seguintes do parcelamento anterior e entrega no mesmo dia, sem custo de frete, com pagamento no Pix parcelado.

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


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