Culturas, subculturas e o que sobra depois da digestão

Culturas, subculturas e o que sobra depois da digestão

Você já sabe o que a cultura faz com a estratégia toda manhã. O que talvez não saiba é o que acontece com a cultura corporativa na hora do almoço

Neste mês em que celebra 30 anos, a Consumidor Moderno pode se orgulhar de ter acompanhado e contado as histórias de centenas de culturas vencedoras. Nas páginas da revista e do portal, a Consumidor Moderno acumulou informações e conhecimentos para compreender o que leva empresas a deixar de funcionar, particularmente no desalinhamento com os desafios das culturas orientadas à experiência do cliente.

E o que pudemos aprender ao longo dessa jornada dedicada a mapear e a valorizar empresas que ousaram ser referência na gestão de clientes? Well, cultura corporativa é um assunto sério que se curva aos resultados do trimestre. Ela é sempre evocada quando uma empresa apresenta dificuldades para transformar planos em ações, mudanças em aprendizados, decisões em resultados. E, após a pandemia, nunca se falou tanto em cultura e engajamento. Isso porque, durante o auge das políticas de lockdown, muitas empresas levaram os escritórios para dentro das casas dos colaboradores, o que destruiu uma série de rituais que compunham a vida no trabalho.

Sim, a maior parte das empresas descobriu que poderia trabalhar em um modelo remoto. Mas a vida após a pandemia trouxe a vida das pessoas de volta. Se antes da vacina e do restabelecimento das relações sociais presenciais as pessoas trabalhavam no modo remoto, com efetividade possível, é porque não havia competidores de atenção. A rotina consistia nas cansativas calls realizadas em sequência, pessoas olhando para as telas com a rua na janela, funcionando como um quadro imaginário.

Mas, após a vacina, com a pandemia sendo controlada, o modelo remoto esbarrou na vida acontecendo. Isso quer dizer que, trabalhar de casa significava incorporar tudo o que era possível fazer antes da inominável, espremido em poucas horas livres, agora devidamente permitidas a qualquer hora, de qualquer dia. Não por acaso, vemos o quanto os mais jovens, de acordo com pesquisas realizadas nos Estados Unidos, “cabulam” o trabalho após assinarem o ponto.

É um fato: muitas empresas continuam ainda praticando atividades em modo remoto. Mas são poucas aquelas que continuam adeptas do modelo com eficiência. A grande maioria daquelas que insiste no modelo “home office” ou se engana ou quer simplesmente esquecer os custos do escritório. A outra parte, seja por querer restabelecer o controle, seja por necessidade de manter a colaboração entre as pessoas de modo mais efetivo, optou pelo retorno parcial ou total para os escritórios.

A desculpa por trás desse retorno é prosaica: preservar a cultura. Manter as pessoas em contato e revigorar a socialização é fator essencial, no entender dos gestores, para manter acesas as energias da inovação e da competitividade.

Bom, esqueceram de combinar com as gerações mais jovens. Sim, os “Zs” (Geração Z) à frente. Esse pessoal não preza lá tanto por socializar, não tem tanto apego assim ao “olho no olho” e muitos consideram mesmo um estorvo “interagir” com semelhantes. Diversidade é muito bom, mas não na mesma sala, talvez na mesma chamada do Teams ou no grupo do Zap.

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As faces da cultura

Peter Drucker falou que a cultura devora a estratégia no café da manhã. Mas as plataformas digitais, com seus grupos informais, criaram as muitas Subculturas que convivem sob o manto da cultura oficial. E é esse conjunto de pequenas culturas que trazem vícios, virtudes, práticas, modos de fazer, atalhos, resistências e fofocas responsáveis por devorar a cultura da corporação na hora do almoço.

Olhe à sua volta, com atenção. Você verá pequenas adaptações e atitudes que representam confrontos suaves à cultura oficial. Por exemplo, se a empresa tem uma cultura de “paixão pelo problema”, é provável que determinadas áreas se empenhem em demonstrar que não estão diante de problemas reais que demandem uma reunião ou mudança. Se a empresa difunde a ideia de que a “zona de conforto” deve ser combatida, é provável que haja uma subcultura que “fagocita” a inquietude com iniciativas demais sem nenhum cuidado estratégico. Se uma empresa defende que sua cultura é “centrada no cliente”, é quase certo que a subcultura reinante irá reclamar pela inação de uma “área responsável” por assumir a estratégia e agir como “evangelizadora”.

As plataformas digitais, com seus grupos informais, criaram as muitas Subculturas que convivem sob o manto da cultura oficial

Mas as subculturas não estão restritas apenas ao que a empresa considere “estratégico”. Elas se manifestam no dia a dia, no maneirismo combinado dos feedbacks, na tortura dos números para abrilhantar resultados opacos e, fundamentalmente, no jogo político.

Há vários rituais que envolvem apresentar e validar projetos com as lideranças, para criar consensos prévios e coalizões que facilitem o trâmite de um investimento. São os marcadores corporativos, que se consumam nos (raros) happy hours e ficam muito mais evidentes nos grupos de WhatsApp. As rodinhas no café, que eram comuns antes da pandemia, hoje viraram pequenas conspiratas entre pessoas com autointeresses diversos à procura de atalhos para bônus ou para simplesmente se desviar das linhas de tiro inevitáveis após trimestres ruins.

Investigar as subculturas pode trazer muito aprendizado para as empresas. Elas trazem uma batelada de insights que demonstram a prontidão de um time para assimilar mudanças, o nível de resiliência e antifragilidade diante das crises, a capacidade de a liderança entregar os resultados esperados, os focos de resistência às mudanças, os entraves da burocracia que travam processos, os conflitos de gerações e hierarquias, os desacordos entre as áreas… Muitas vezes, não se trata de simplesmente mexer no time, trazendo gente de fora, e, sim, de entender por que as subculturas foram criadas. Elas normalmente nascem como mecanismos de defesa e de proteção diante das idiossincrasias da liderança, das dificuldades de aplicar a cultura oficial ao pé da letra ou mesmo de mecanismos de subversão dos funcionários.

A autossabotagem é bastante comum entre times disfuncionais, normalmente aqueles que não têm confiança entre seus membros e, por isso, não gerenciam bem os próprios conflitos, têm baixo nível de comprometimento, evitam a responsabilização direta e entregam resultados aquém do esperado. Esse diagrama é consagrado por Patrick Lencioni no livro clássico Os 5 Desafios das Equipes, um tanto esquecido atualmente, mas incrivelmente assertivo para esses tempos conturbados.

O que acontece na hora do almoço

Por um lado, a investigação das subculturas não pode ser feita de modo invasivo e ameaçador. Também não pode ser conduzida por “coaches” e outros “especialistas” de plantão. Elas devem partir de observações cuidadosas do dia a dia, conversas particulares entre lideranças e os colaboradores e destes também com bons observadores de fora. As conversas podem seguir roteiros predeterminados que procurem apontar processos informais, interpretação das decisões, motivações e missões dos colaboradores, níveis de confiança e conflitos acobertados. O objetivo é claro: entender o que acontece na hora do almoço, ou o que sobra depois da digestão das decisões do primeiro nível pelos times.

Não são poucas as piadas que mostram como a informação sai da reunião do board e chega na linha da frente – como o clássico exemplo do cavalo que, após múltiplas interpretações, chegou ao destino como um camelo… Em tempos digitais, a informação ganha tantos recortes distintos que pode ser deslocada para qualquer contexto ou estar a serviço de qualquer interesse.

Nesses 30 anos da Consumidor Moderno, pudemos conhecer múltiplas culturas corporativas, mas poucas se mantiveram sólidas para assegurar um lugar entre as empresas vencedoras. Várias foram desconstruídas pela inadequação com o panorama de mudança intensa e os desafios do mundo VUCA.

Nos próximos 30 anos, muitas culturas vistas como sólidas e resilientes serão digeridas pelas subculturas internas, criadas e reinventadas por novas gerações e pela combinação de prioridades distintas, derivadas da falta de sintonia com o negócio e com o cliente.

Em tempos digitais, a informação ganha tantos recortes distintos que pode ser deslocada para qualquer contexto ou estar a serviço de qualquer interesse

Quais serão as empresas que irão triunfar nesse mundo digital e empoderado pelas Inteligências Artificiais? Minha aposta: empresas com uma cultura de obsessão pelo cliente têm uma ideia unificadora forte o suficiente para aumentar suas chances de sucesso e de permanência. O tempo vai dizer.

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


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