AI2C ou AI2See?

AI2C ou AI2See?

Futuristas, especialistas e “istas” em geral adoram disparar neologismos como tendências sem nexo

Amy Webb, darling dos antenados e dos caçadores de antenas, musa do SXSW, andou pela Cidade Maravilhosa há alguns dias, em um evento de inovação. Como sempre, segundo relatos confiáveis, exibiu seu charme e carisma com uma apresentação solo feita sob medida para emplacar hashtags nas redes sociais.

Não, não tenho nada contra Amy Webb. Durante as primeiras vezes em que assisti às suas apresentações lá em Austin, compartilhei da sensação de euforia das audiências, como se estivesse diante de uma Superstar dos estudos de futuro. Mas curiosidade intelectual inata associada a um cacoete irreparável começaram a comer minha mente: em determinado momento, comecei a questionar se aquela quantidade de previsões e de tendências realmente fazia sentido.

Amy Webb trabalha muito e tenho certeza de que é profissional correta, mas, como todo “guru” americano, ela se apropria de uma ideia e a explora no limite, assegurando para si uma espécie de monopólio conceitual. No caso dela, falamos de suas “Tech Trends”, um conjunto espantoso de centenas de tendências divulgadas todos os anos, sem pompa, mas com circunstância no SXSW, grande festival de cultura, comportamento e tecnologia sediado em Austin (e que já tem versões em Sidney, (Austrália), Londres (Reino Unido) e, em breve, em São Paulo).

Pois bem, no Rio de Janeiro, Amy Webb disparou previsões e, alinhada a outros gurus, sinalizou o triunfo do SCX: algo como “Synthetic Customer Experience” (Experiência do Cliente Sintética). Não, ela não usou essa expressão em nenhum momento, mas encerrou sua apresentação com o acrônimo que representa o conceito: AI2C.

Segundo a “especialista”, AI2C é o passo evolutivo do CX, superando o padrão de negócios para clientes, a partir de negócios, de empresas e de interlocutores organizacionais. Vem aí, na visão de Amy Webb, a era dos sistemas de IA para vender, engajar e encantar clientes. Em suma: retire as pessoas da equação, retire os vieses, destile os nossos pensamentos e emoções, depure nosso comportamento animal e veja como “Sistemas Multiagentes” – em ambientes simulados – e inteligência física – em sistemas robóticos – vão mudar completamente a forma pela qual consumimos e escolhemos.

A realidade Brasil

Calma. Não sou daqueles que diverge da adoção tecnológica. Toda inovação digital me entusiasma e não foi diferente com a IA generativa. Mas olho para o Brasil. O Brasil que tem frentistas em postos de gasolina, um exército de promotoras de venda direta, corretores de seguros, agentes de viagens, garis pendurados nos caminhões de lixo, ambulantes, “xing lings” institucionalizados e muita ocupação braçal. Fico realmente pensando que “AI2C” é um escárnio, quase uma provocação em um País no qual 50% da população não tem acesso a saneamento básico.

O dilema da digitalização da interação entre empresas e clientes está no desejo que as classes média e de baixa renda têm de serem atendidas por gente

O Brasil sem esgoto é, curiosamente, digitalizado. Mais de 90% dos cidadãos de baixa renda têm acesso à internet pelo celular e 77% acessam o Instagram todos os dias. Isso não significa maturidade, desenvoltura ou preparo para lidar com sistemas de IA. O uso indiscriminado de autosserviço é excelente para a bolha da classe alta, que adota o código do “sem tempo” para justificar o apreço por canais digitais de mínimo contato humano. O dilema dessa digitalização da interação entre empresas e clientes está no desejo que as classes média e de baixa renda têm de serem atendidas por gente. Não é que elas vejam o digital como uma coisa intrinsecamente ruim. É que, lá no fundo, sabem o que significa “pertencimento” e se acalmam com a ideia de serem atendidas por pessoas como eles/elas.

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Em síntese, o brasileiro médio quer sempre uma abertura para falar com alguém capaz de se expressar como ele. Dados de estudos parceirizados da CX Brain mostram que 49% dos consumidores brasileiros sentem-se desconfortáveis em compartilhar dados com sistemas de IA. E a conta não fecha, porque atendimento humano custa. E custa mais justamente com quem paga menos e rende menos. Logo, o extravagante AI2C, por mais que faça brilhar os olhos dos cabeças de planilha que só olham custos, é um objetivo impraticável nessas plagas, ao menos por uma década.

O ecossistema nacional de CX é talentoso e certamente vai oferecer alternativas que tentem emular um atendimento humanizado, exercitando formas de empatia digital. Mas sempre irá se convencer de que, sem escape humano facilitado, os indicadores de satisfação e recomendação irão se manter em níveis medianos, enquanto os indicadores de frustração tendem a disparar.

Essa jornada digital traz mais propensão à adoção de modalidades “AI2See”, literalmente. “Inteligência Artificial para Ver”, descobrir, aprender, processando grandes volumes de dados coletados nas interações, para melhor compreender como validar e ir ao encontro das expectativas dos consumidores dentro de uma equação financeira viável.

Para além dos rótulos

Qual é o fundamento do AI2See? Justamente o que não encontramos na proposição do AI2C de Amy Webb. O estudo do Prêmio CONAREC, conduzido pela CX Brain, por exemplo, mostra que a adoção acelerada de IA, sem outcomes claros, implica em ROI tímido e NPS/CSAT estáveis – muito “tech”, pouca estratégia. Dados próprios bem usados, com estruturação via IA, destravam personalização e ROI, e empresas que decidem em tempo real capturam mais valor. Assim, o “AI2See” faz mais sentido do que um hipotético e “Dataless AI2C”.

Toda a nossa imersão em IA está realmente destinando esforços para aumentar o valor de contribuição de nossos clientes ou simplesmente para fazer mais do mesmo com um rótulo tecnológico charmoso?

Essa expressão tem mais propensão a se tornar um neologismo sem muito sentido e pouco respaldo com a realidade, na medida em que não é aplicável ao Brasil, à Índia, à América Latina e até mesmo à Europa. Ora, são muito reduzidas as chances de que sistemas de IA assumam a gestão do relacionamento e do engajamento dos clientes, em nome das empresas. Pensemos nos vieses, preconceitos, perfis falsos e outras derivações que podem chamuscar imagens corporativas em série. Pensemos nas consequências desagradáveis que venham a impactar a rotina de diferentes perfis de clientes submetidos à seleção induzida, optando sempre pelas mesmas ofertas e produtos sem espaço para descobertas. Como as companhias irão lançar novos produtos em novas categorias se o consumidor estiver acomodado com suas escolhas predefinidas?

Toda a nossa imersão em IA está realmente destinando esforços para aumentar o valor de contribuição de nossos clientes ou simplesmente para fazer mais do mesmo com um rótulo tecnológico charmoso? Amy Webb sabe disso e das vaidades que embalam os executivos à procura de “tendências” que validem suas estratégias. No entanto, é inevitável que os estudos da especialista americana carreguem um viés associado ao seu próprio ambiente. Nunca é demais lembrar: o nível de adoção e imersão em IA que ela considera e explica em seu trabalho é muito mais aplicável à realidade dos EUA, com seu PIB 15 vezes maior que o brasileiro, além do nível de maturidade digital (mais ampla em proporção menor) mais significativa. Estamos falando de investimentos em pesquisa e implementação tecnológica muito superiores aos números daqui. País de renda média é assim mesmo: toda inovação e upgrade tecnológico esbarram no limite do orçamento.

Disso tudo, no meio de muitos clichês, hashtags e neologismos que pipocam nas palestras dos gurus, fica a dica: separe os periquitos de realejo, que disparam pensamentos sem eira nem beira, daqueles que têm algo a dizer, com números que dizem muito.

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


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