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Questão de reputação

Questão de reputação

Como integrar informações financeiras e não-financeiras para gerar valor
Legenda da foto

Por Fabiane Goldstein*

A função de elaboração de relatórios é uma atividade intrínseca ao capitalismo. Os participantes do mercado precisam de informação para suas tomadas de decisão. Mas as críticas à forma como os relatórios financeiros têm desempenhado sua função de informação têm se tornado cada vez mais freqüentes e se intensificaram nos últimos 20 anos.

Com a economia cada vez mais baseada em conhecimento e informação, e menos em máquinas e propriedades físicas, muitos ativos de uma empresa não são capturados no balanço. A crescente base de ativos intangíveis que não são medidos no balanço é citada como uma das falhas dos relatórios financeiros em exercer sua função de informação. Isso pode ser verificado pela análise do valor de mercado das empresas que compõem o Índice S&P 500 nos últimos 35 anos: seu valor de mercado desviou-se muito do seu valor contábil, e isso está diretamente ligado aos valores intangíveis.

Gráfico: VALOR DE MERCADO DAS EMPRESAS QUE COMPÕEM O S&P 500

Mas a questão dos intangíveis começou a ser discutida bem antes disso. Acredita-se que o termo Responsabilidade Social Empresarial (RSE), ou Corporate Social Responsibility (CSR), foi cunhado pela primeira vez em 1953, com a publicação do livro “Social Responsibilities of the Businessman? de Howard R. Bowen , que fez a pergunta “Quais responsabilidades perante a sociedade os empresários devem assumir, de maneira razoável??. Mais de 60 anos depois, será que já temos uma resposta ampla e correta para essa pergunta? Os relatórios não financeiros, ou de dados ESG (Environmental, Social & Governance, ou Ambiental, Social e Governança) podem ser considerados uma dessas respostas.

Atualmente, milhares de empresas ao redor do mundo, sejam elas públicas ou privadas, de todos os tamanhos, publicam relatórios de sustentabilidade. Enquanto os relatórios financeiros são moldados por normas de contabilidade e auditoria, os relatórios de sustentabilidade seguem normas voluntárias, como as criadas pela GRI ? Global Reporting Initiative e, mais recentemente, pelo IIRC – International Integrated Reporting Council.

Existe uma visão de que os relatórios financeiros são voltados para investidores, enquanto os relatórios de sustentabilidade são dirigidos a todos os stakeholders, incluindo funcionários, clientes, fornecedores, mídia, comunidades locais e ONGs. Mas essa parece estar deixando de ser uma verdade absoluta.

Tem se notado recentemente um número crescente de grandes corporações e investidores interessados em informações sobre sustentabilidade na forma de dados ESG. O interesse é impulsionado por alguns investidores por razões éticas ou morais; para outros, por razões econômicas, uma vez que esses dados podem aprimorar o perfil de risco-retorno de uma carteira. As corporações estão incluindo sustentabilidade em sua cadeia de valor e exigindo esse posicionamento de seus fornecedores ? muitas vezes por pressão de seus investidores.

Seja qual for a razão, o investidor está interessado em dados, e o fato é que os balanços, na forma como são divulgados hoje, não fornecem informações sobre o desempenho ambiental, social e de governança.

Embora os relatórios de sustentabilidade visem preencher essa lacuna, os críticos destacam que eles o fazem de forma incompleta. Os dados incluídos em um relatório de sustentabilidade frequentemente não são auditados e, mesmo quando o são, o processo de asseguração ainda não se equipara ao de uma auditoria. Uma das principais razões para isso é que não existem normas de medição e relatórios rigorosos semelhantes aos existentes para relatórios financeiros. Organizações como a GRI já estão trabalhando para mudar isso, assim como as grandes empresas de auditoria, mas ainda há resistência por parte das empresas em contratar esse serviço.

O maior questionamento dos investidores tem sido a respeito do fato de que a informação contida nos relatórios de sustentabilidade raramente é apresentada no contexto do modelo de negócios e da estratégia de uma organização, o que torna difícil a compreensão de como o desempenho ESG relaciona-se com o desempenho financeiro e como as questões de sustentabilidade afetam o valor processo de criação de valor de uma organização.

Felizmente, os investidores já compreendem que esses dados precisam ser monitorados e que existe um relação risco-retorno envolvida. A tendência de maior pressão de investidores para que as empresas divulguem essas informações de maneira clara, transparente e totalmente integrada ao modelo de negócios só tende a crescer. Fundos de pensão de todo o mundo já têm incluído o assunto em seus manuais de Governança Corporativa, e têm incentivado fortemente as empresas em que investem a se posicionar com a publicação de relatórios de sustentabilidade.

Além disso, o Banco Central instituiu no ano passado, por meio da Resolução 4327, a Política de Responsabilidade Socioambiental (PRSA) que deverá ser observada por todos os bancos brasileiros, que responderão solidariamente e judicialmente no caso de um incidente socioambiental nos projetos que financiarem. Isso vai exigir um novo posicionamento a respeito do risco socioambiental por todas as empresas que buscarem um empréstimo em bancos.

Nessa linha, o movimento do Relato Integrado <IR> tem crescido globalmente, e nos parece uma tendência que precisa ser acompanhada com bastante cuidado pelas organizações. A visão de longo prazo das organizações participantes do IIRC é um mundo em que o pensamento integrado (integrated thinking) é incorporado dentro da prática das empresas dos setores público e privado, facilitado pelo Relato Integrado como orientador de relatórios corporativos. O objetivo é alcançar o ciclo de pensar, gerir e relatar de maneira integrada, resultando na alocação de capital eficiente e produtiva e, assim, agindo para a estabilidade financeira e a sustentabilidade do negócio.

O <IR> é necessário para empresas e investidores. As empresas precisam de um ambiente de elaboração de relatórios que seja propício para a compreensão e articulação de sua estratégia, o que ajuda a impulsionar o desempenho internamente e atrair capital financeiro para investimentos. Os investidores precisam entender como a estratégia que está sendo perseguida cria valor ao longo do tempo. Na visão do IIRC, essa é a evolução do processo de elaboração de relatórios corporativos.

Cada vez mais, os líderes empresariais estão compreendendo que o sucesso e a rentabilidade sustentável dos negócios são fortemente dependentes da manutenção de uma boa reputação corporativa, o que inclui a compreensão dos risco de reputação estratégica, incluindo riscos ESG. Para estarem bem posicionadas nessa área, as empresas devem adotar medidas robustas para construir resiliência organizacional, tanto em suas próprias operações como em sua cadeia de negócios.

* Fabiane Goldstein é Sócia da MBS Value Partners Brasil

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