Em mais um capítulo da compra da Warner Bros., a Netflix alterou o acordo para uma transação totalmente em dinheiro. A nova decisão mantém o valor de US$ 27,75 por ação da WBD e busca eliminar incertezas que poderiam atrasar ou inviabilizar a transação.
A operação será financiada por uma combinação de caixa disponível, linhas de crédito já existentes e financiamento previamente comprometido. Além do pagamento em dinheiro, os acionistas da WBD também receberão o valor adicional referente às ações da Discovery Global, que será separada antes da conclusão do negócio.
A expectativa é que a conclusão da transação ocorra entre 12 e 18 meses após a assinatura do acordo de fusão. Até lá, Netflix e Warner Bros. Discovery afirmam que continuarão em diálogo próximo com autoridades regulatórias e demais partes interessadas.
“Ao nos unirmos à Netflix, combinaremos as histórias que a Warner Bros. contou e que cativaram a atenção do mundo por mais de um século, garantindo que o público continue a apreciá-las por muitas gerações”, comenta David Zaslav, presidente e CEO da Warner Bros. Discovery.
Mais previsibilidade
Segundo as empresas, a principal vantagem da nova estrutura é a maior previsibilidade para os acionistas.
Ao optar por uma transação integralmente em dinheiro, a Netflix elimina a exposição à volatilidade do mercado de ações, fator considerado crítico em um cenário de instabilidade econômica global e forte pressão sobre empresas de mídia tradicionais.
Outro ponto central é o cronograma. A estrutura revisada permite acelerar o processo de governança, com expectativa de que os acionistas da WBD votem sobre a proposta até abril de 2026.
Para viabilizar esse calendário, a empresa já protocolou sua declaração de procuração preliminar junto à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos.
Fluxo de caixa
Segundo a Netflix, sua robusta geração de fluxo de caixa foi determinante para a mudança. A companhia afirma que consegue realizar a aquisição e, ao mesmo tempo, preservar um balanço saudável, com flexibilidade financeira para investimentos futuros, especialmente em conteúdo original e expansão internacional.
“O acordo de fusão revisado de hoje nos aproxima ainda mais da união de duas das maiores empresas de narrativa do mundo e, com isso, de ainda mais pessoas desfrutando do entretenimento que mais amam assistir”, afirma David Zaslav.
Visão estratégica
Do lado da Netflix, a leitura é de que o negócio vai além de uma simples aquisição. Ted Sarandos, co-CEO da empresa, afirma que a combinação dos catálogos e das capacidades de produção ampliará a oferta de filmes e séries de alta qualidade, tanto no streaming quanto nos cinemas, além de impulsionar a criação de empregos e o investimento em produção audiovisual, especialmente nos Estados Unidos.
Greg Peters, também co-CEO da Netflix, reforça que a companhia tem crescido em um setor que, na última década, enfrentou retração. Para ele, a aquisição da Warner Bros. Discovery deve acelerar ainda mais esse movimento, fortalecendo a posição da Netflix como principal motor de crescimento da indústria global de entretenimento.
“Ao alterarmos nosso acordo hoje, estamos reforçando o que sempre acreditamos: nossa transação não apenas proporciona um valor superior aos acionistas, como também é fundamentalmente pró-consumidor, pró-inovação, pró-criador e pró-crescimento”, frisa.
Reorganização societária
Antes da conclusão da venda, a Warner Bros. Discovery passará por uma reorganização relevante.
Conforme anunciado anteriormente, a empresa será desmembrada em duas companhias de capital aberto: Warner Bros. e Discovery Global. A expectativa é que essa separação ocorra entre seis e nove meses, antecedendo o fechamento da transação com a Netflix.
A aprovação do acordo já foi concedida, por unanimidade, pelos conselhos de administração das duas companhias. Ainda assim, a operação segue condicionada à aprovação dos acionistas da WBD, à conclusão da divisão da Discovery Global e às autorizações regulatórias necessárias nos Estados Unidos e na Europa.
“Ao optar por uma transação totalmente em dinheiro, podemos agora entregar o incrível valor da nossa combinação com a Netflix com ainda mais certeza, ao mesmo tempo em que oferecemos aos nossos acionistas a oportunidade de participar dos planos estratégicos da administração para concretizar o valor das marcas icônicas e do alcance global da Discovery Global”, explica Samuel A. Di Piazza Jr., presidente do Conselho de Administração da Warner Bros. Discovery.
“Tudum” x Paramount
A reformulação do acordo ocorre em um contexto de disputa aberta. A Paramount Skydance, rival direta da Netflix, intensificou suas investidas e apresentou uma proposta de US$ 30 por ação pela totalidade da Warner Bros. Discovery.
A oferta conta com uma garantia de US$ 40 bilhões do empresário Larry Ellison, cofundador da Oracle e pai de David Ellison, CEO da Skydance.
A Paramount chegou a processar a WBD para obter mais informações sobre a proposta da Netflix e tentou acelerar judicialmente o processo de venda, mas teve seu pedido negado. Também sinalizou a intenção de indicar novos membros para o conselho da Warner Bros., após ter sua proposta rejeitada.
A Warner Bros. Discovery, no entanto, foi enfática ao descartar a oferta concorrente. Segundo a empresa, a proposta da Paramount representaria um risco financeiro substancialmente maior.
O principal argumento é que a operação deixaria a companhia combinada com uma dívida estimada em US$ 87 bilhões, o que poderia comprometer sua capacidade operacional e agravar ainda mais a classificação de crédito da Paramount, atualmente considerada de alto risco.
A WBD também questionou o fluxo de caixa livre negativo da Paramount e avaliou que a aquisição poderia ampliar fragilidades financeiras em um momento de profundas transformações no setor de mídia.





