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Mesmo com a crise, Sabesp tem contrato que premia o consumo

Mesmo com a crise, Sabesp tem contrato que premia o consumo

'Por que alguns poucos privilegiados ainda podem desperdiçar o que a maioria economiza? Lista de clientes que ainda ganha incentivos com o consumo intenso leva à seguinte questão: crise hídrica para quem?
Legenda da foto

São Paulo atravessa a pior crise hídrica em 84 anos e ainda existe uma parcela de consumidores sendo beneficiados com o aumento de consumo de água. São 500 grandes consumidores de água da Sabesp tem um contrato que premia o consumo, quanto maior, menor o preço pago por litro de água.

A informação vem do jornal espanhol El País. Sua equipe teve acesso a uma lista, com data de dezembro de 2014, onde há condomínios de luxo, bancos, hospitais, shoppings, igrejas, indústrias, supermercados, colégios, clubes de futebol, hotéis e entidades como a Bolsa de Valores de São Paulo, a concessionária da linha 4 do Metrô, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos ou a SPTrans.

De acordo com a reportagem, alguns desses clientes da Sabesp [consultar lista], como o shopping Eldorado, consomem por mês cerca de 20.000 m3, o mesmo que mais de 1.200 famílias de quatro membros juntas, considerando que cada indivíduo gasta 130 litros por dia. E há quem gasta até três vezes mais, como a fábrica de celulose Viscofan no Morumbi, a campeã de consumo na lista à qual teve acesso o El País.

Segundo a reportagem, o atrativo dos contratos é que todos estes clientes pagam menos do que o valor de tabela aplicado para as atividades comerciais e industriais que desempenham. Para o shopping Eldorado, por exemplo, cada mil litros de água custam 6,27 reais, enquanto os clientes do setor comercial que não assinaram esse contrato pagam 13,97 reais. Um desconto de mais de 55%. Já a Viscofan se beneficia de um desconto de 75%, pois a tarifa aplicada é de 3,41 reais para cada mil litros, quando, caso não tivesse o contrato, deveria pagar 13,97 reais.

Entre os exemplos há o caso do famoso Hotel Hilton, na avenida Nações Unidas, no distrito financeiro de São Paulo. O hotel, que mantém aberto um spa e um centro fitness 24 horas por dia, além de uma piscina com vista panorâmica, consome por mês o mesmo que 751 famílias de classe média com quatro membros (11.722 m3/mês). O hotel paga 6,76 reais por cada metro cúbico, quando a tarifa comercial é de 13,97. Neste caso, o valor é menor, inclusive, do que o pago por uma família de quatro membros que paga a tarifa comum (7 reais/m3).

Dos três exemplos citados apenas o shopping respondeu aos questionamentos da reportagem do El País. O empreendimento informou que toma medidas compensatórias diante de seu alto consumo com o objetivo de reduzi-lo em 15%.
 
Sobre a lista e as novas medidas da Sabesp
Esta lista de clientes era secreta até agora, pois a Sabesp se negou a divulgá-la com o argumento de proteger suas relações comerciais e a privacidade de seus clientes, segundo o jornal espanhol.  A reportagem também informou que a companhia não esclareceu as questões enviadas pela sua equipe de jornalismo.

De acordo com o jornal, até março de 2014, o modelo dos contratos incentivava ainda mais o consumo. Até a data, ele poderia ser comparado ao de um pacote de telefonia e internet, em que o cliente paga um valor cheio por um volume (de dados ou de água) acordado previamente. Se usava menos água, portanto, pagava o mesmo valor, mas se ultrapassava a quantidade contratada pagava uma diferença. Porém, com o agravamento da crise hídrica, a Sabesp modificou essa obrigatoriedade de consumo mínimo, liberou os clientes para usarem fontes alternativas de água e os incluiu no programa de multas pelo aumento de consumo até os mananciais se recuperarem, informa o jornal.

Com essa liberação, 70% dos clientes adotaram fontes alternativas e reduziram seu consumo com a companhia (segundo documento enviado à Câmara de São Paulo relatado também pelo jornal). É por isso que na lista aparecem vários exemplos de empresas cujo consumo caiu abaixo dos 500m3 exigidos para assinar este tipo de contrato. A Sabesp, porém, não inclui seus clientes fidelizados no Programa de Redução de Consumo ? que premia com 30% de desconto quem economizar 20%. Assim, uma grande redução do consumo não significaria necessariamente um grande alívio na conta desses clientes, conclui a reportagem.

Em resumo: em plena crise, medidas de contenção deveriam valer para todos. Qualquer governo sério e preocupado com a longevidade de suas relações sociais e econômicas tornaria inquestionável tal medida. No entanto, como demonstra a reportagem, o que se vê são fórmulas mercantis que privilegiam aqueles que têm dinheiro ou um tipo de contrato específico. Recursos hídricos não têm sinônimo de apropriação do bem, mas sim de gerenciamento e isso vem acontecendo dentro de critérios que privilegiam alguns e privam outros e tudo bem debaixo do nariz daqueles que deveriam lutar pelo bem público.

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