A discussão sobre o fim da escala 6×1 deixou de ser apenas uma pauta trabalhista. À medida que a proposta avança no Congresso Nacional, empresas de diferentes segmentos começam a avaliar como uma eventual redução da jornada poderá afetar operações que funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana.
Enquanto setores administrativos já discutem modelos mais flexíveis e maior uso da Inteligência Artificial, atividades como saúde, alimentação e atendimento ao consumidor enfrentam uma realidade diferente. Hospitais, restaurantes e Contact Centers não podem interromper serviços nem reduzir equipes sem impacto direto sobre pacientes e consumidores.
Nesse cenário, a principal pergunta não é quantos dias as pessoas trabalharão, mas sim “Como manter a qualidade do atendimento, reorganizar escalas, absorver custos adicionais e preservar a produtividade em operações contínuas?“.
A discussão ocorre em um momento em que especialistas também questionam a relação entre horas trabalhadas e desempenho. Nesse cenário, ao mesmo tempo em que cresce a defesa de jornadas mais equilibradas, empresas aceleram investimentos em Inteligência Artificial, automação e revisão de processos para produzir mais valor sem a necessidade de ampliar estruturas.
Nesse contexto, a Consumidor Moderno ouviu representantes do setor de saúde e reuniu posicionamentos de entidades e estudos recentes para entender como segmentos essenciais se preparam para um cenário de transformação das relações de trabalho.
Hospitais não podem simplesmente reduzir jornadas
Se há um setor em que a discussão sobre o fim da escala 6×1 exige cautela é o da saúde. Diferentemente de atividades que conseguem reorganizar horários ou ampliar o trabalho remoto, hospitais funcionam de forma ininterrupta. Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos, equipes de apoio e profissionais administrativos mantêm serviços essenciais 24 horas por dia, todos os dias do ano.
Por isso, qualquer alteração relevante na jornada de trabalho vai muito além de uma mudança de escala. “A adaptação exigiria planejamento cuidadoso e uma transição gradual. Diferentemente de outros setores, hospitais e serviços de saúde funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, e não podem interromper ou reduzir suas atividades”, afirma a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp).
Assim, qualquer mudança relevante dependeria da reorganização das escalas de trabalho, da renegociação de acordos coletivos, da revisão de processos assistenciais e, em diversas situações, da ampliação das equipes.
“O principal objetivo deve ser garantir a sustentabilidade das operações e que a assistência aos pacientes permaneça segura, contínua e com a mesma qualidade, evitando impactos sobre o atendimento e a operação hospitalar”, diz a associação.

Falta de profissionais já preocupa o setor
O desafio, porém, não se resume ao redesenho das escalas.
A associação alerta que parte do sistema de saúde já enfrenta dificuldades para contratar profissionais, especialmente em determinadas especialidades e regiões do País. Esse cenário pode se tornar ainda mais complexo caso uma eventual redução da jornada aumente a necessidade de novas contratações para manter plantões e equipes completas.
“Algumas categorias da saúde já enfrentam dificuldades de contratação em determinadas regiões e especialidades, especialmente em áreas assistenciais e de apoio. E essa é uma das principais preocupações do setor.”
A entidade acrescenta que a transição não depende apenas da disponibilidade de trabalhadores. A formação de equipes hospitalares envolve treinamento técnico, integração entre profissionais e adaptação às rotinas assistenciais, fatores que exigem tempo e planejamento para não comprometer a qualidade do atendimento.
Pressão sobre hospitais privados, filantrópicos e SUS
Ainda na avaliação da Anahp, outro ponto sensível diz respeito ao impacto financeiro. Como hospitais não podem reduzir horários de funcionamento nem interromper serviços, uma eventual diminuição da jornada tende a elevar custos operacionais.
Entre os fatores apontados pela entidade estão novas contratações, treinamento de profissionais e readequação das escalas.
“A redução da jornada tende a elevar significativamente os custos operacionais dos serviços de saúde.”
Segundo a associação, portanto, o cenário preocupa principalmente hospitais filantrópicos e instituições que já trabalham com margens reduzidas e limitações de financiamento. Os reflexos, entretanto, não ficariam restritos à rede privada. Nesse sentido, a Anahp chama atenção para possíveis efeitos também sobre o Sistema Único de Saúde (SUS).
“A rede pública também precisaria absorver os custos decorrentes da adaptação ao novo modelo de jornada, o que representaria uma pressão adicional sobre orçamentos já limitados.”
Além disso, caso parte dos hospitais privados ou filantrópicos encontre dificuldades para sustentar economicamente as mudanças, a entidade avalia que poderá haver redução da oferta de serviços. Como consequência, a demanda sobre o sistema público tende a aumentar.
Não existe um modelo único
Ao analisar experiências internacionais, a Anahp adota uma posição cautelosa. Para a entidade, modelos implementados em outros países não podem ser reproduzidos automaticamente no Brasil.
Aspectos como disponibilidade de profissionais, convenções coletivas, legislação trabalhista, financiamento da saúde e diferenças regionais precisam ser considerados antes de qualquer alteração estrutural.
Mais do que defender um formato específico de jornada, a associação afirma que o setor precisa preservar espaço para negociação coletiva e flexibilidade suficiente para acomodar diferentes realidades operacionais.
“Mais do que a adoção de um modelo específico, o setor da saúde entende que é importante preservar a possibilidade de negociação coletiva, permitir diferentes formatos de organização do trabalho e assegurar flexibilidade suficiente para acomodar as necessidades assistenciais, operacionais e regionais do sistema de saúde brasileiro.”
Restaurantes defendem flexibilidade
Se hospitais chamam atenção para a continuidade da assistência, o setor de alimentação fora do lar concentra sua preocupação na diversidade dos modelos de negócio.
Bares, restaurantes, padarias, cafeterias e estabelecimentos de conveniência operam com horários bastante distintos. Alguns funcionam apenas durante o almoço. Outros permanecem abertos até a madrugada ou operam 24 horas por dia. Para representantes do segmento, essa heterogeneidade dificulta a adoção de uma regra única para todas as atividades econômicas.
Em nota divulgada à imprensa antes da sessão de debates temáticos promovida pelo Senado Federal sobre a proposta de fim da escala 6×1, a Abrasel afirma que o debate precisa considerar as particularidades das mais de 2.700 ocupações existentes no País.
Por isso, a entidade defende que eventuais mudanças sejam acompanhadas de maior liberdade para negociação e da adoção de formatos mais flexíveis de organização do trabalho.

“Uma mudança dessa magnitude precisa ser analisada com responsabilidade, considerando seus efeitos sobre trabalhadores, empresas e a economia”, afirma o presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci.
Para a entidade, o debate não deve se limitar aos benefícios esperados para os trabalhadores, mas também avaliar custos de implementação, capacidade de adaptação das empresas e impactos sobre setores intensivos em mão de obra.
A Abrasel também defende que diferentes formatos de jornada continuem disponíveis, preservando espaço para negociação entre empresas e trabalhadores conforme as características de cada atividade.
O desafio vai além da jornada
A posição da Abrasel dialoga com uma preocupação recorrente entre especialistas ouvidos ao longo da discussão sobre a redução da jornada: nem todos os setores enfrentam os mesmos desafios operacionais.
Enquanto empresas com atividades predominantemente administrativas conseguem reorganizar horários, ampliar o trabalho híbrido ou acelerar projetos de automação, negócios baseados em atendimento presencial dependem diretamente da disponibilidade de pessoas para manter o funcionamento.
Essa diferença explica por que hospitais, restaurantes, hotéis, supermercados, farmácias e empresas de atendimento ao consumidor acompanham a tramitação da proposta com atenção. Nesses segmentos, reduzir a jornada significa redesenhar escalas, revisar processos, contratar profissionais ou investir em tecnologia para preservar níveis de atendimento.
Em outras palavras, o debate deixa de tratar apenas da quantidade de horas trabalhadas e passa a envolver produtividade, disponibilidade de mão de obra, sustentabilidade financeira e continuidade dos serviços.
Atendimento ao consumidor
Se hospitais e restaurantes discutem como reorganizar equipes, empresas de relacionamento com clientes enfrentam outro desafio: acelerar a transformação digital sem comprometer a experiência do consumidor.
O setor de Contact Center está entre os que mais investem em IA para automatizar tarefas repetitivas, apoiar atendentes e ampliar a produtividade. Ainda assim, a tecnologia está longe de resolver, sozinha, os desafios operacionais de uma eventual redução da jornada.
Levantamento global realizado pelo Everest Group para a Concentrix, com mais de 450 líderes empresariais envolvidos em projetos de Inteligência Artificial generativa, mostra que a maior parte das organizações ainda está distante de transformar projetos-piloto em operações de larga escala.
Segundo o estudo, 41% das empresas permanecem na fase de testes e pilotos, enquanto apenas 27% conseguiram escalar implementações de IA generativa para produção.
O levantamento também mostra que 56% apontam a falta de competências internas em IA como o principal obstáculo para adoção da tecnologia, seguida por preocupações com segurança cibernética (51%) e integridade dos dados (47%).
“O mercado entrou em uma nova fase da Inteligência Artificial. O desafio agora não é mais experimentar IA, mas transformá-la em capacidade operacional escalável, segura e integrada ao negócio”, avalia Cleber Santos, country manager da Concentrix Brasil.
Segundo o executivo, vantagem competitiva dependerá menos da adoção isolada da tecnologia. “Empresas que conseguirem unir governança, dados, pessoas e execução terão vantagem competitiva significativa nos próximos anos.”

IA reduz custos, mas não elimina o fator humano
Mesmo entre organizações que aceleram investimentos em IA, o maior desafio não é tecnológico. Na América Latina, o principal obstáculo para ampliar o uso da Inteligência Artificial é justamente equilibrar automação com mudanças na força de trabalho, seguido pela padronização da governança da IA e pela gestão dos custos de implementação.
Ou seja, antes mesmo da discussão sobre uma eventual redução da jornada, empresas já precisavam encontrar formas de reorganizar equipes, redefinir funções e preparar profissionais para trabalhar em conjunto com sistemas inteligentes.
O levantamento mostra ainda que 63% das organizações adotam modelos híbridos, combinando competências internas com parceiros especializados para acelerar a implementação da Inteligência Artificial.
A experiência do cliente continua no centro
Outro dado chama atenção: embora a automação seja frequentemente associada à redução de custos, 54% das empresas afirmam que melhorar a experiência do cliente continua sendo um dos principais objetivos das iniciativas de IA, ao lado da modernização tecnológica e do crescimento da receita.
Essa conclusão aproxima o estudo de uma preocupação recorrente nas discussões sobre o fim da escala 6×1. Se parte das empresas precisar reorganizar jornadas e equipes, a pressão por produtividade tende a aumentar. Nesse cenário, tecnologias capazes de automatizar tarefas administrativas podem ganhar espaço.
Por outro lado, especialistas alertam que atividades complexas, negociações sensíveis e situações que exigem empatia continuam dependendo da atuação humana. Em outras palavras, a Inteligência Artificial pode ajudar a ampliar eficiência operacional. No entanto, ainda não substitui integralmente profissionais responsáveis pela construção da experiência do cliente.





