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Quando a pesquisa deixa de ser pesquisa

Quando a pesquisa deixa de ser pesquisa

"Mais do que pesquisa, precisamos de conexão, abraços suados, beijos calorosos e uma vontade de deitar no sofá dessa gente toda e ver um seriado no Netflix"
Legenda da foto

Oi, tudo bem? Fique à vontade, quer uma água, um suco? Eu nem sei direito o que eu vou falar, mas parece que eu estou no perfil que você precisa né? Mas vou te falar, eu estou tão feliz que você veio. Aonde fica melhor pra você? Pode ser aqui na sala mesmo? Eu tenho café, água com gelo, podia ter feito um bolinho mas não deu tempo… tem bolacha, mas no Rio e biscoito né? (Risos), quer que ligue o ventilador? Mas você vai almoçar com a gente né? Fizemos espaguete, cês gostam?

Estas são algumas das perguntas que ouço durante as imersões que realizo nas minhas pesquisas de imersão social quando realizo entrevistas em profundidade. Falamos sobre muitos assuntos que fogem ao roteiro, porque para a gente se conectar de verdade não há lista de pergunta ou questionário que dê conta disso.

A gente fala da decoração, do bicho de estimação, mostro fotos dos meus gatos, falo de mim, eles falam deles. Sentamos, bebemos suco, água e comemos bolo quando tem, ou até bolacha murcha quando nos é ofertada. No final, saímos íntimas, me adicionam nas redes sociais, eu aceito os convites e mais interlocutores acabam entrando no seleto hall da minha vida cigana.

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Há aquelas ocasiões em que fazemos pesquisa em dias sagrados para a família e, por vezes, temos sorte de sermos convidados para o banquete doméstico: almoçamos com uma família, pai, mãe, avó e três filhos (idades entre 7 e 16 anos). Macarronada com filé de frango à parmigiana. Comida de casa. Comida de domingo em família. O sabor me levou a casa de minha tia na região metropolitana em São Gonçalo. Comida é nostalgia e eu me senti em casa na casa de um completo estranho.

Estar no campo nos surpreende. Cansa. Desgasta. Há um mistério a cada casa visitada, mas há surpresas que não podemos descrever. Essa entrega é só pra quem tem muita disposição e poucas exigências quando o trabalho e prazer se misturam. Sinto calor, sinto falta do meu travesseiro, minha energia vai sendo gasta e ao mesmo tempo reposta. Conheci violência doméstica, traições, preocupações com filhos, futuro, será que vai dar para pagar as contas esse mês? No entanto, também vi arranjos de flores artificiais nas estantes, a TV de LED recém comprada e colocada em local de destaque na sala da família.

Numa dessas idas e vindas minha aventura por São Paulo me fez conhecer mais esse lugar, fomos a Poá, Zona Leste da cidade na Grande São Paulo e nos levou também a casa de uma passista de escola de samba, mãe zelosa moradora do centrão com discurso de empoderamento feminino e representação orgulhosa da sua negritude, ou preticidade?

Somos pretos, somos nordestinos, somos filhos de italianos, somos gays, nutrimos valores familiares, somos receptivos. “Tem certeza que vocês não querem uma água?”. Entrar na vida dessas pessoas por um período, me conectar a elas, ouvir seus pontos de vista me enriquecem. Rio junto, choro junto, observo, me encanto e lá estamos nós no final da entrevista fazendo selfies e trocando impressões sobre a vida.

Recebemos convite para voltar
Recebemos convite para ficar
Nos conectamos com gente, seus gostos, seus cheiros, suas alegrias e tristezas.

Certa vez saí de uma casa com uma quentinha de coxinha de frango e bolinha de queijo feito na hora pela mãe de uma entrevistada. “Olha eu fiz de frango e também de queijo porque eu não sabia se você não come carne”.

Foi um carinho que transcendeu a pesquisa.

Que se dane a pesquisa.
Precisamos de conexão!

Abraços suados, beijos calorosos e uma vontade enorme de deitar no sofá dessa gente toda e ver um seriado no Netflix. Valeu pela coxinha, valeu pela água, valeu pelas selfies.

Não se estuda antropologia, se vive antropologia: a cores, com cheiros, com sabor e com desgaste.

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