O Mercado Pago começou como uma solução simplificada de pagamentos. Hoje, reúne conta digital, crédito, investimentos e seguros. O Banco Carrefour, criado para apoiar as compras nas redes do grupo, também ampliou seu portfólio e passou a oferecer crédito pessoal, seguros e soluções para pagamento de contas. Nos dois casos, os serviços financeiros deixaram de ser apenas um complemento à compra e passaram a fazer parte da estratégia das empresas.
No Banco Carrefour, os produtos que não são cartões já representam mais de 50% do lucro operacional da instituição, segundo Luiz Souto, diretor-executivo (CSO/COO) do banco e head de Customer Service do Grupo Carrefour Brasil. A instituição também utiliza sua operação financeira para integrar as marcas Carrefour, Atacadão e Sam’s Club.
“Hoje somos uma das principais ferramentas de relacionamento e fidelização dentro do ecossistema do Grupo Carrefour Brasil. A transversalidade da nossa atuação, que integra soluções que permitem ao cliente utilizar seus benefícios e realizar transações financeiras de forma unificada entre as diferentes bandeiras e canais do ecossistema do Grupo, gera alta recorrência”, explica Souto.
“Mais do que disponibilizar produtos isolados, conectamos conta digital, pagamentos, crédito, investimentos, seguros e soluções para negócios em uma experiência simples e integrada”, reforça.
Estratégia de relacionamento
A expansão ocorre em um cenário de maior pressão sobre o orçamento das famílias. A pesquisa Do PIX ao planejamento financeiro: como a tecnologia está mudando nossa relação com o dinheiro, da Lina Open X em parceria com a MindMiners, mostra que apenas 26% dos brasileiros conseguem poupar mensalmente. Outros 74% apresentam algum grau de fragilidade financeira.
É justamente aí que o varejo encontra no crédito uma forma de ampliar o relacionamento com um consumidor que já frequenta suas lojas e plataformas. Para as empresas, a operação financeira pode gerar novas receitas e aumentar a frequência de compras. Para o consumidor, pode facilitar o acesso ao crédito, mas também exige atenção para que a facilidade de contratação não resulte em endividamento.
Por que o varejo quer oferecer crédito
A combinação entre tecnologia financeira e dados de consumo reduziu as barreiras para que empresas de varejo incorporassem serviços financeiros às próprias plataformas.
Para Gustavo Siuves, especialista em tecnologia financeira e CRO da infratech Azify, a evolução das fintechs e do Banking as a Service permitiu que o varejo incorporasse produtos financeiros à jornada de compra com mais rapidez e menor custo operacional.
“Os produtos financeiros, como crédito, seguros e contas digitais, oferecem a margem e a rentabilidade recorrente que compensam a compressão de margem do produto físico”, afirma.
Outro fator é a quantidade de informações geradas pelas compras. O varejista sabe quais produtos o consumidor procura, com que frequência compra e como se relaciona com determinada categoria.
“Enquanto o banco tradicional olha prioritariamente para histórico financeiro e score, o varejo consegue analisar capacidade de recorrência e comportamento de consumo”, explica Siuves.
Com isso, essa diferença permite que as empresas utilizem dados de consumo para definir ofertas de crédito, limites, descontos e programas de fidelidade.
Crédito para aumentar frequência de compra

No Grupo Carrefour Brasil, a operação financeira está diretamente ligada à estratégia de relacionamento com o consumidor. Segundo Souto, clientes que utilizam as três principais bandeiras do grupo aumentaram suas compras em mais de 200%. As transações entre bandeiras cresceram 36%.
O programa de fidelidade Nosso Clube, lançado em julho de 2026 e em fase piloto na Paraíba, também apresentou resultados. De acordo com Souto, os clientes mais que dobraram a frequência de compras e aumentaram em mais de 50% o gasto médio no ecossistema.
O executivo afirma ter uma base mensal de cerca de 60 milhões de clientes atendidos pelo ecossistema. A partir dos dados gerados pelas compras, utiliza inteligência de dados e modelagem preditiva para oferecer produtos como cashback e descontos de acordo com o perfil do consumidor.
“Essa enorme frequência de compras no varejo gera um vasto volume de dados e recorrência que servem como uma vantagem competitiva analítica e um termômetro do comportamento das famílias.”
IA e Open Finance para personalizar crédito
No Mercado Pago, a estratégia também envolve reunir diferentes serviços em uma única plataforma. A empresa oferece pagamentos, conta digital, crédito, investimentos, seguros e soluções para empreendedores. Segundo Ignacio Estivariz, Vice-Presidente do Mercado Pago, a integração permite acompanhar diferentes etapas da jornada financeira de consumidores e empresas.
Na empresa, a personalização das ofertas também depende da análise de dados. Com o consentimento do usuário e em conformidade com a legislação, o Mercado Pago considera informações como histórico de pagamentos, movimentação financeira, relacionamento com o ecossistema e evolução do perfil de crédito.

Foto: Reprodução/LinkedIn.
Essas informações ajudam a definir produtos, limites e condições para cada cliente. A empresa também lançou um score de crédito acompanhado de recomendações para ajudar o usuário a melhorar seu perfil financeiro.
“A inclusão financeira só é sustentável quando vem acompanhada de responsabilidade“, aponta Ignacio. “Por isso, combinamos tecnologia, análise de risco e educação financeira para oferecer produtos compatíveis com o perfil de cada usuário. Nosso objetivo é ampliar o acesso ao sistema financeiro de forma consciente, promovendo uma relação saudável com o crédito e os demais serviços”, complementa.
A Inteligência Artificial também participa da análise de crédito. Segundo o Mercado Pago, a tecnologia permite identificar padrões na jornada dos empreendedores que vão além das variáveis financeiras tradicionais. O Open Finance, por sua vez, amplia a quantidade de informações disponíveis, sempre mediante consentimento do cliente.
“Com isso, conseguimos oferecer limites, condições e experiências mais alinhados ao momento e ao perfil de cada negócio, tornando o acesso aos serviços financeiros mais preciso, eficiente e personalizado. O resultado é um ecossistema em que o cliente permanece no centro das decisões e acessa soluções que geram valor real para sua rotina financeira”, pontua.
Oferecer crédito sem aumentar o endividamento

A expansão dos serviços financeiros coloca o varejo diante de uma questão delicada: como oferecer crédito a consumidores que, em muitos casos, já enfrentam dificuldades para equilibrar o orçamento? Para Siuves, a responsabilidade também é uma questão de negócio. Um cliente superendividado pode reduzir o consumo e aumentar a inadimplência.
“Devemos utilizar modelos comportamentais com travas automáticas de limite para conter o comprometimento excessivo da renda”, afirma. O especialista também defende a apresentação clara do Custo Efetivo Total (CET) antes da contratação e o uso de mecanismos que estimulem decisões financeiras mais conscientes.
O Banco Carrefour afirma adotar estratégia semelhante. A instituição utiliza dados, Open Finance, Inteligência Artificial e machine learning para definir limites e condições de crédito. Quando o consumidor já possui uma dívida, também utiliza Inteligência Artificial na renegociação.
Em julho de 2026, o banco aderiu ao Novo Desenrola Brasil e disponibilizou alternativas de regularização para cerca de 1 milhão de clientes elegíveis, com descontos de até 90% e parcelamento em até 48 vezes, segundo a instituição.
Parcelamento continua relevante
A expansão das operações financeiras acontece mesmo com o crescimento do Pix. Segundo o Global Payments Report 2026, o sistema representa 42% do e-commerce brasileiro e 34% das compras em lojas físicas.
O parcelamento, porém, continua relevante para o consumo. Dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) mostram que compras parceladas entre sete e 12 vezes movimentaram R$ 138,3 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 16,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Para Siuves, a combinação entre novas modalidades de pagamento, crédito e programas de fidelidade tende a aproximar ainda mais varejo e serviços financeiros. Segundo ele, estruturas que combinam cashback e limite pré-aprovado podem elevar a frequência de compra entre 25% e 40%, de acordo com dados de redes que operam cartões private label.
A estratégia do Mercado Pago e do Banco Carrefour aponta para uma mudança na relação entre varejo e consumidor. A empresa que conhece os hábitos de compra também passa a participar do pagamento, do financiamento, da fidelização e, em alguns casos, da renegociação de dívidas.





