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Coletor menstrual e a pobreza do Brasil

Coletor menstrual e a pobreza do Brasil

Desde o veto do presidente Bolsonaro da distribuição de absorventes, o debate sobre pobreza menstrual entrou em voga: e tem tudo a ver com sustentabilidade
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O termo pobreza menstrual ficou em voga no mês de setembro, quando o presidente Jair Bolsonaro vetou a distribuição gratuita de absorvente menstrual para estudantes de baixa renda de escolas públicas e pessoas em situação de rua ou de vulnerabilidade extrema.

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Segundo dados levantados em 2020, 26% das meninas brasileiras são afetadas diariamente pela pobreza menstrual, definição dada para a falta de acesso a absorventes higiênicos. Em pesquisa realizada pela Always, marca de cuidado íntimo, foi observado que mais de uma em cada quatro jovens no Brasil (29%) revelou não ter tido dinheiro para comprar produtos higiênicos para o período menstrual em algum momento de suas vidas (Estadão, 2021).

O livro “Presos que menstruam”, da Nana Queiroz, relata que algumas mulheres que estão detidas utilizam miolo de pão na falta de absorvente. Nesse contexto, levantar a bandeira do coletor menstrual me soa como a então jovem Bettina, jogando aos sete ventos da internet que já estava milionária aos 22 anos. Entre a dicotomia da pobreza menstrual, e da riqueza da Bettina, está a jovem senhora que vos escreve, e que pôde comprar o coletor menstrual (que custa em média R$ 90) sem danos em meu orçamento. Para as mulheres que se encaixam nessa classe, espero que meu relato possa tocá-las.

Trabalho com educação ambiental e redução de lixo. E usar os absorventes descartáveis não estava mais cabendo dentro do “meu mundo”. Aos meus 34 anos, já havia descartado mais de 2600 absorventes, e considerando que minha última menstruação será aos 50 anos, eu ainda teria mais 2000 absorventes para descartar. Decidi, então mudar para os reutilizáveis.

Comprei dois absorventes de pano, e ia alternando a cada ciclo. Usava um por dia, e sempre tinha a preocupação em lavar e secar para o dia seguinte. Só utilizava o descartável quando o que estava lavando ainda não estava seco, e cada vez que eu conseguia ficar um ciclo todo menstrual sem recorrer aos descartáveis, era uma pequena conquista.

Um pouco depois de um ano recorri ao coletor menstrual. Nos primeiros usos me deu um pouco de desconforto porque eu não sabia se estava encaixadinho. Mas logo peguei o jeito e, muitas vezes, eu nem sinto que estou com eles. Já uso o coletor há mais de um ano, nunca mais utilizei nem os absorventes de pano, nem os descartáveis. Pequenas grandes vitórias!

A título de curiosidade, fiz uma pequena pesquisa entre dez amigas mais próximas, para a minha surpresa, metade delas usam o coletor ou a calcinha menstrual. No entanto, ainda existem muitas mulheres que podem comprar o coletor, mas não o fazem por tabus ou por medo de incômodo.

“Ah, vai me incomodar!”

Incômodo é estimular uma indústria de descartáveis que não tem opção de reciclagem. Incômodo é seu absorvente descartável ficar mais de 100 anos para se decompor. Incômodo é você colocar um monte de substâncias químicas na sua vagina, e deixá-la sem ventilação. Parafraseando a maravilhosa Bela Gil: No Brasil, ser sustentável é para poucos, então, se você tem essa condição, faça sua parte e deixe os descartáveis para quem não tem opção.

*Maria Fernanda Bastos é engenheira civil e do meio ambiente, Mestre em Gestão de Recursos Hídricos e educadora ambiental sobre economia circular e redução do lixo. É idealizadora e fundadora da @minharedinha, negócio de impacto socioambiental.


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