A comunicação entre os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil trouxe à tona uma questão que poderá impactar significativamente as relações comerciais entre os dois países. Em uma carta datada de 9 de julho, o presidente americano Donald Trump informou ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva que, a partir de 1º de agosto, as exportações brasileiras sofrerão uma taxação adicional de 50%.
Os Estados Unidos ocupam a posição de segundo maior parceiro comercial do Brasil. Eles estão atrás apenas da China. O Brasil se beneficia dessa parceria ao exportar uma ampla gama de commodities. Entre eles, estão a carne bovina e o café, por exemplo. Em contrapartida, os Estados Unidos fornecem ao Brasil produtos de alta tecnologia, como maquinário, produtos químicos e veículos. E essa relação cria uma interdependência econômica que fomenta investimentos bilaterais substanciais.
A sobretaxa do Trump no consumo

Fato é: a decisão de aumentar a taxação sobre as exportações brasileiras levanta preocupações sobre a defesa do consumidor. O governo americano alega que o Brasil impõe barreiras comerciais elevadas, tanto tarifárias quanto não tarifárias, que estariam prejudicando o equilíbrio do comércio. Essa situação pode resultar em aumento de preços aqui? O aumento das tarifas pode ser interpretado como uma medida protecionista? A qual, embora busque equilibrar a balança comercial, pode ter efeitos adversos para os consumidores em ambos os países?
Na visão do professor associado da Fundação Dom Cabral, Bruno Carazza, autor dos livros “O País dos Privilégios (vol 1): os novos e velhos donos do poder” e “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político brasileiro“, do ponto de vista do consumo, a situação exige uma análise cuidadosa. Isso porque, em primeiro lugar, o governo brasileiro tem duas trilhas as percorrer: negociar ou aplicar a recém-aprovada Lei de Reciprocidade, a qual, como o próprio nome diz, abrange a possibilidade de equalização de condições entre mercado nacional e internacional.
De acordo com Bruno, a situação também gera desconfiança empresarial. Essa, por sua vez, gera incerteza que, em efeito cascata, afetam investimentos e, por consequência, a geração de empregos. Em entrevista à Consumidor Moderno, ele salienta que todos esses fatores afetam diretamente o poder de compra do consumidor.
Confira a entrevista na íntegra.
Os impactos da sobretaxa
Consumidor Moderno: Quais são os principais impactos da sobretaxa de 50% nas exportações brasileiras para o consumidor brasileiro?
Bruno Carazza: A sobretaxa de 50% que o Donald Trump anunciou ontem sobre os produtos brasileiros se soma às tarifas normais que já eram pagas para entrar no mercado americano antes da sua posse. Ademais, existem tarifas adicionais que foram implementadas pelo Trump sobre produtos específicos desde o tarifário de abril. O que mais impacta a economia brasileira e a pauta de exportação é essa sobretaxa de 50% sobre aço e alumínio, além de 25% sobre veículos e peças.
Dessa forma, teremos a nova sobretaxa de 50% sobre todos os produtos que exportamos, o que pode ter um efeito bastante significativo na economia brasileira, visto que os Estados Unidos são o maior mercado consumidor do mundo. Apesar de não serem o principal parceiro comercial do Brasil (esse papel é da China), os Estados Unidos permanecem como o maior mercado consumidor. Muitas empresas brasileiras realizam vendas consideráveis para os EUA, e isso impactará esses setores, sem dúvida.

Aumento da oferta
CM: Como a decisão do presidente dos Estados Unidos afeta o mercado interno brasileiro?
É provável que haja um aumento da oferta desses produtos no mercado consumidor brasileiro. Por exemplo, se os produtores de carne costumavam vender para os Estados Unidos, devido à alta tarifa de 50%, é provável que eles busquem outros mercados, incluindo o mercado interno. Dessa forma, a disponibilidade desses produtos que normalmente eram vendidos externamente tende a aumentar.
As empresas brasileiras precisarão explorar outros mercados, incluindo vendas internas no Brasil, o que poderá resultar em maior oferta e, possivelmente, queda de preços. Contudo, é importante ressaltar que muitas empresas que dependem do mercado externo enfrentarão dificuldades. Isso pode ocasionar problemas, como demissões e redução na produção em algumas regiões do Brasil, representando um efeito negativo dessas medidas.
Consumidor no centro
CM: Quais produtos brasileiros podem ser mais afetados pela nova taxação de exportação? E como isso repercute no dia a dia do consumidor?
Aqui é importante destacar que a pauta de exportação do Brasil é bastante diversificada. As principais vendas para os Estados Unidos incluem combustíveis e derivados de petróleo, produtos siderúrgicos, motores elétricos, aeronaves (principalmente da Embraer), café, celulose, madeira, e outros como máquinas elétricas, carnes e produtos agrícolas, especialmente suco de laranja. Portanto, esses setores serão os mais impactados pela sobretaxa de 50%.
Inicialmente, as sobretaxas impostas por Trump não devem levar a um aumento de preços no mercado consumidor brasileiro. O que provavelmente ocorrerá é que o consumidor americano terá que arcar com os custos de produtos que o Brasil exporta para os EUA, que se tornariam mais caros devido a essa sobretaxa. Isso afetará principalmente o setor de alimentos, já que os Estados Unidos importam grandes quantidades de café, suco de laranja, açúcar e carnes brasileiras. Por outro lado, é pouco provável que essa sobretaxa cause um aumento nos preços para os consumidores brasileiros.

Em relação à previsão da reação do mercado brasileiro frente a essa taxação, é evidente que todos os setores empresariais ligados ao agronegócio e à indústria – como a siderúrgica, a Petrobras, a Embraer e outras grandes empresas brasileiras que exportam para o mercado americano – estarão buscando se mobilizar. Eles já estão em contato com o governo para entender como será a resposta do Brasil e o que pode ser feito em termos de acordos para evitar que essa sobretaxa seja implementada. Vale lembrar que, conforme aviso enviado por Trump, essa sobretaxa deve entrar em vigor em 1º de agosto. Portanto, até lá, o governo brasileiro, em parceria com as empresas mais afetadas, precisa agir rapidamente para tentar impedir essa medida.
Guerra comercial
CM: Quem tem mais vantagem nessa guerra?
É relevante lembrar que o comércio internacional entre esses dois países tende a ser mais vantajoso para a economia americana, já que os Estados Unidos vendem mais produtos ao Brasil do que o Brasil exporta para lá. O risco para o mercado interno, em termos de preços dos produtos consumidos no Brasil, pode ocorrer se houver uma retaliação por parte do Brasil, adotando sobretaxas sobre produtos americanos, o que, de fato, poderia impactar os preços no País.
CM: Que medidas o governo brasileiro pode tomar para mitigar o impacto da nova taxa sobre o consumidor brasileiro?
O governo brasileiro possui duas opções. A primeira delas é tentar negociar com o governo Trump para reverter, ao menos em parte, essa sobretaxa. A segunda opção é retaliar e impor uma taxa sobre alguns produtos americanos, que é um caminho que deve ser considerado com muita cautela. Isso porque uma retaliação do Brasil poderia resultar em uma guerra comercial com os Estados Unidos. Isso teria impactos internos, fazendo com que os produtos importados dos Estados Unidos se tornassem mais caros e podendo levar Trump a adotar novas sanções contra o Brasil. Assim, é um risco que deve ser avaliado minuciosamente.
Ademais, o governo brasileiro pode também buscar alternativas para mitigar essa situação no longo prazo, tentando abrir novos mercados que compensem possíveis perdas nas vendas para os Estados Unidos devido a essa sobretaxa. É fundamental que o governo se conecte com outros países para expandir mercados, como na China, na Índia, em nações asiáticas, europeias e africanas. Esse poderia ser um caminho viável.
Confiança consumerista
CM: Essas sobretaxas impactam a confiança do mercado?
Sim, elas não só impactam a confiança, mas também geram uma sensação de incerteza tanto para empresários quanto para consumidores. A postura de Trump é agressiva e errática, com anúncios de sobretaxas seguidos de suspensões e reavaliações, o que contribui para uma grande insegurança. Essa situação torna o planejamento de empresas e consumidores mais complicado.
CM: A Lei da Reciprocidade, sancionada no Brasil em abril, visa proteger a economia nacional contra medidas comerciais unilaterais de outros países ou blocos econômicos que prejudiquem a competitividade brasileira. Do ponto de vista econômico e consumerista, essa legislação é positiva para o País?
A Lei da Reciprocidade foi aprovada recentemente no Brasil, após o primeiro aumento de tarifas promovido por Trump. Essa legislação fornece ao governo brasileiro um mecanismo para reagir a eventuais práticas protecionistas de outros países, configurando-se como uma ferramenta de guerra comercial. Pessoalmente, tenho reservas quanto a esse instrumento. Acredito que utilizar táticas de retaliação nos coloca em uma guerra comercial com nossos parceiros e gera incertezas nas relações comerciais, o que nunca é positivo. Em síntese, o mercado busca estabilidade e não incertezas. Portanto, embora essa opção esteja disponível para o governo, considero que deveria ser adotada com cautela para evitar um cenário ainda mais incerto e caótico.





