A proteção de dados dos pacientes é um tema cada vez mais relevante no setor de saúde, especialmente em um cenário de crescente digitalização. De um lado, as instituições de saúde têm enfrentado desafios significativos para garantir a confidencialidade e a integridade das informações pessoais dos pacientes. Do outro, a implementação de sistemas eletrônicos de registro médico, embora traga eficiência, também aumenta a vulnerabilidade a ataques cibernéticos e vazamentos de dados. E quem acaba “pagando o pato”, como diz o ditado, é o consumidor, que fica em uma situação desconfortável – e insegura, lógico.

Para esclarecer questões fundamentais sobre esse assunto, a Consumidor Moderno entrevistou Carla Soares, diretora de Gestão Interina da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Na conversa, ela compartilha insights sobre os desafios que as operadoras enfrentam. Mas não só. Ela fala também sobre a relação entre digitalização e fraudes, além de oferecer dicas práticas para fortalecer a segurança das informações dos consumidores.
A entrevista aborda como a transformação digital no setor de saúde traz tanto riscos quanto oportunidades. E como a legislação, como a Lei Geral de Proteção de Dados, impacta a forma como as instituições lidam com as informações sensíveis. Nesse contexto, Carla Soares ressalta a importância de uma cultura de segurança da informação. Afinal, através dela, todos os colaboradores se sentem responsáveis pela proteção dos dados.
Neste bate-papo, vamos explorar as melhores práticas que as operadoras podem adotar e os sinais de alerta que os consumidores devem observar para se defender contra possíveis fraudes.
Dados na saúde
CM: Quais são os principais obstáculos que o setor de saúde enfrenta na proteção dos dados dos pacientes em um contexto de crescente digitalização?
Carla Soares: Atualmente, o maior desafio reside na proteção de vidas e narrativas que se traduzem em dados. O setor de saúde lida com informações extremamente sensíveis, e garantir sua segurança exige investimentos contínuos, não apenas em tecnologia, mas também em pessoas, processos e cultura organizacional. Com o aumento dos ataques cibernéticos, o planejamento e a priorização de recursos tornaram-se essenciais. Proteger dados e a privacidade dos beneficiários de planos de saúde não é apenas um custo: é um investimento em confiança, transparência e credibilidade institucional.
CM: Você poderia discutir a relação entre a digitalização dos serviços de saúde e o aumento das fraudes e ataques cibernéticos?
Estamos em uma era onde a informação é um ativo de grande valor econômico e estratégico. No setor de saúde, esse valor é ainda mais significativo, pois cada dado representa uma vida e uma trajetória de cuidado. Com o avanço da digitalização, cresce também o interesse de grupos criminosos em explorar essas informações, exigindo uma resposta institucional forte e coordenada. Por isso, é fundamental que todos os atores do sistema – tanto públicos quanto privados – implementem políticas consistentes de segurança da informação, reforçando suas estruturas tecnológicas, seus processos e sua cultura de governança.
Proteção é a chave
CM: Quais ações práticas as operadoras de saúde podem adotar para proteger melhor os dados sensíveis dos consumidores?
O primeiro passo é cultivar uma cultura de segurança da informação. Proteger dados e a privacidade dos consumidores não é responsabilidade exclusiva da área de tecnologia, mas um compromisso coletivo que envolve todos os colaboradores e gestores. As instituições devem contar com profissionais dedicados ao tema, capazes de liderar iniciativas de capacitação, gestão de riscos e adoção de boas práticas. Com o tempo, isso se traduz em uma organização mais madura, com processos seguros e decisões mais conscientes. O arcabouço atualmente existente, com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), é um grande incentivador. Através delas, é possível que as operadoras fortaleçam sua governança e adotem boas práticas de proteção de dados, promovendo a sustentabilidade do sistema e a confiança dos beneficiários.
CM: Qual é, na prática, a importância da LGPD no setor de saúde?
Em suma, a LGPD trouxe um marco transformador. Ela estabeleceu uma base jurídica, clara e acessível para todos os setores, tornando a proteção de dados e a privacidade dos cidadãos um tema estratégico de gestão. Mais do que um conjunto de regras, a LGPD funciona como um guia de boas práticas, incentivando a criação de políticas internas de segurança, controle e compliance. Com isso, o tema deixou de ser restrito a áreas técnicas e passou a fazer parte da agenda institucional, reforçando o compromisso com a ética, a transparência e o respeito ao cidadão.
Conscientização consumerista
CM: Você acredita que a conscientização dos consumidores sobre a segurança digital é suficiente? O que mais poderia ser feito para educá-los?
Acredito que ainda há um longo caminho a percorrer. A segurança digital deve ser considerada parte da formação cidadã. Assim como aprendemos a cuidar da saúde física, é necessário aprender a proteger nossa identidade digital. Campanhas educativas, programas escolares e ações conjuntas entre governo, instituições e sociedade podem transformar esse conhecimento em uma prática cotidiana. Quanto mais informadas as pessoas estiverem, mais forte será a cultura de proteção de dados no País.
CM: Quais sinais de alerta os consumidores devem observar para identificar possíveis fraudes relacionadas a seus dados médicos?
Cada cidadão que utiliza dispositivos digitais deve adotar hábitos simples, mas eficazes, como manter antivírus e sistemas sempre atualizados, evitar programas piratas e desconfiar de links suspeitos. Essas atitudes básicas reduzem significativamente o risco de golpes. Buscar informações sobre práticas de segurança, como reconhecer tentativas de phishing (ataques cibernéticos que se disfarçam como entidades confiáveis, como bancos ou grandes empresas) ou engenharia social (manipulação de pessoas para que divulguem informações confidenciais), é igualmente essencial. Cuidar dos próprios dados é um gesto de autocuidado e responsabilidade coletiva no ambiente digital.
O futuro da saúde suplementar
CM: Como você enxerga o futuro da digitalização no setor de saúde, considerando os riscos e as oportunidades que ela apresenta?
A transformação digital é um caminho irreversível, mas também uma grande oportunidade. Ela permite integrar informações, ampliar o acesso e oferecer um cuidado mais contínuo e personalizado. Contudo, esse avanço deve caminhar lado a lado com segurança, ética e responsabilidade. Os incidentes cibernéticos e os aprendizados recentes têm impulsionado o amadurecimento das instituições e o fortalecimento da governança de dados.
O futuro da saúde digital será mais seguro, transparente e humano se continuarmos a unir tecnologia, governança e propósito. Nesse sentido, entendemos que a ética é o coração da transformação digital na saúde, garantindo que a inovação ande de mãos dadas com responsabilidade, transparência e confiança social. A ANS acredita em um futuro no qual a tecnologia amplia direitos, protege vidas e fortalece a relação entre o Estado, o cidadão e o sistema de saúde.





