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Qual é a cidade do futuro que o Brasil precisa?

Qual é a cidade do futuro que o Brasil precisa?

Se você pudesse elencar as necessidades básicas da cidade do futuro brasileira, quais seriam? Confira a visão de grandes especialistas de tecnologia
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Pensar em cidades do futuro, no Brasil, pressupõe que pensemos no básico. Precisamos refletir se é possível visualizar carros autônomos, onde é possível ter cidade inteligente ou mesmo coleta de lixo com apelo forte de sustentabilidade, reaproveitando o que é coletado, por exemplo. “Como fazer isso num país tão grande quanto o Brasil, que tem um país dentro do outro?”, questiona Fernando Bettine, coordenador do MBA em Gestão Estratégica de Inovação do Instituo Mauá de Tecnologia, durante o Whow! Festival de Inovação 2018.

Em sua visão, é necessário refletir o que podemos fazer hoje para ter algo melhor no futuro. Eduardo Peixoto, chief business officer do C.E.S.A.R. (Instituto de Inovação), compartilhou sua experiência do tempo vivido na Holanda. O país tem uma mobilidade preparada há muitos anos. “Quando morei lá, praticamente só andava de bicicleta, a cidade é preparada para a mobilidade de bike”, conta. O rolamento das ruas tem três níveis – o mais baixo para carros, o intermediário para bicicletas e o mais alto para os pedestres. A regra é simples, quem está a direita tem prioridade para andar. Ou seja, a bike tem prioridade sobre o carro e as pessoas têm prioridade sobre todos. As comparações, lembra, são complicadas, existem muita diferença entre os dois países, geográficas, sociais e políticas. No entanto, é uma inspiração.

Mesmo assim, existem coisas que podem ser feitas aqui, independente do cenário. O que é importante nesse processo é a diferença que existe com relação ao mercado global. “O Brasil, embora seja continental, é quase uma ilha, se fecha demais para o que vem de fora, faz barreiras”, analisa. “E a inovação é algo feito em rede, é conectada. A forma como a gente lida com o mercado exterior acaba inviabilizando a produção de inovação aqui de forma mais rápida e mais barata”. Nosso país continua insistindo num modelo de benefícios setoriais – que talvez seja a maior barreira atual para a inovação.

Mobilização

Pensando em dar movimento para o mercado, o C.E.S.A.R. tem um movimento chamado POETAS.IT (Políticas e Estratégias para Tecnologias, Aplicações e Serviços para a Internet de Tudo). O consórcio é uma iniciativa articulada com diferentes instituições de todos os lugares do Brasil para lançar uma estratégia desenhada e escrita de forma aberta, que recebe contribuições, focada em estratégias para desenvolver o país.

“Quando olhamos para a economia, mais ou menos 70% do PIB está baseado em serviços. No entanto, o setor de software é fundamental para novos serviços. Com a Internet das Coisas, por exemplo, temos oportunidade de construir novos serviços em cima das plataformas de hardware”, lembra. Para isso, precisamos ter a economia mais aberta.

O especialista acredita que, muitas vezes, perdemos muito tempo tentando resolver problemas do passado. Isso faz o país perder oportunidades de construir coisas que serão diferencial mais para frente.

Cenário

Bettine comenta sobre um recente indicador que mostra a posição dos países perante a inovação. Estamos no número 64. Decepções à parte, se olharmos para o copo meio cheio, subimos cinco pontos. “É positivo, mas estamos atrás de países como México, Costa Rica, Chile. Ainda podemos melhorar muito”, lembra. Um dos pontos analisados no estudo observa os aspectos de educação dos países.

É fato que a construção do Brasil começa pela básico – e nosso sistema educacional faz parte disso. Estamos em uma nação com cenários complexos. Um estudo da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em setembro do ano passado, aponta que metade dos brasileiros adultos (entre 25 e 64 anos) não concluiu o ensino médio. Muitos, nem chegam a ter essa oportunidade, visto que 17% da população não termina o ensino fundamental. Outro levantamento, do movimento Todos pela Educação, mostra que, ao deixar a escola, uma parcela de 7,3% dos estudantes atingem um nível satisfatório de aprendizado em matemática.

Algo precisa ser feito, principalmente questionando o próprio sistema de ensino. “Precisamos lembrar que as pessoas acham muito chato estudar. Eu mesmo, quando pequeno, tinha essa visão”, conta Samir Iásbeck, founder e CEO da Qranio, plataforma educacional que combina aprendizagem e gamificação. Não à toa, o mote de sua empresa é “estudar é chato, mas aprender pode ser divertido”. São coisas diferentes. “Cada pessoa aprende de um jeito diferente”, lembra. Por isso, a gamificação, um conceito tão próximo dos jovens, é uma saída interessante: traz uma nova roupagem para o aprendizado, torna divertido, mostra recompensas claras. É um novo olhar.

A tecnologia, nesse sentido, funciona como um agente de mudança de toda uma cultura que, fortificando o desenvolvimento do que é básico, traz grandes resultados a  longo prazo (inclusive no desenvolvimento de uma cidade inteligente). “Existiu a geração mouse, a geração touch e a próxima vai ser a geração voz. A competição com o professor hoje é global”, argumenta o empreendedor. “É mais interessante que o professor se posicione num lugar de facilitador”. Nós temos sim uma deficiência na educação, ao levar a ideia de empreendedorismo para os indivíduos, porém, a educação e o aprendizado são transcendentais, não existem mais fronteiras por causa da tecnologia. Cada vez mais o aprendizado vai ficar na mão de cada um.

Desafios

Outro ponto delicado quando pensamos em uma cidade do futuro é a questão da segurança, também um fundamento básico. “Se as pessoas não se sentem seguras, pouca coisa se faz. Isso está na base das necessidades humanas do mesmo jeito que educação ou alimentação”, garante Alfredo Deak Jr., diretor de defesa e inteligência LATAM da Microsoft. O executivo, que já foi coronel da Polícia Militar de São Paulo, recorda que cidades emblemáticas do mundo têm cerca de oito homicídios a cada 100 mil habitantes.

Antes de o estado de São Paulo passar por um processo de melhorias de segurança, novos treinamentos para os policiais, bem como a adesão de tecnologias, a média de homicídios era de 48 a cada 100 mil habitantes. Nas piores cidades chegava a mais de 120 para 100 mil habitantes. “A tecnologia ajuda muito nisso. A disponibilidade de dados para o policial faz toda a diferença. É uma questão de conseguir ter consciência da situação do entorno”, detalha.

Com os novos equipamentos disponibilizados, hoje praticamente todas as viaturas contam com um tablet no carro, com um GPS específico. Nele, é possível visualizar as ruas do entorno que mais receberam chamados nas últimas horas, levando a patrulha para um nível muito mais assertivo. “Isso é o tipo de consciência da situação que é vital. Não adianta o coronel, dentro do distrito, saber todos os dados. O policial que está na rua é quem precisa saber”, destaca. Isso é a mais pura Internet das Coisas, que atua disponibilizando informações precisas para que a polícia consiga proteger o cidadão com o devido suporte.

Esse desenvolvimento também está atrelado à educação, ao tipo de treinamento das tropas. “Temos um problema sério não só com a forma que tratamos a nossa educação, mas como tratamos o país como um todo. Esse exemplo do GPS mesmo, é uma ferramenta que precisa ser intuitiva tanto para policiais jovens como para os mais velhos”, garante. Informação é algo que precisa ser aberto, todos precisam ter acesso, não apenas governos ou empresas. Não podem mais existir barreiras.

“É importante percebermos que estamos fazendo as coisas acontecerem. Talvez não na velocidade esperada, mas estamos”, reflete Bettine. “Precisamos construir cidades que chamem a atenção das pessoas para que gostem efetivamente das cidades. Com educação, tecnologia, segurança e diversidade”, conclui Peixoto.

 

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