No CONAREC 2025, o painel Dados x Intuição: Estratégias dos CEOs na tomada de decisão reuniu líderes de diferentes setores para discutir um dilema cada vez mais presente na gestão contemporânea. Se, por um lado, a análise de dados ganhou força exponencial nos últimos anos, oferecendo previsibilidade e embasamento técnico, por outro, a intuição é construída a partir de experiências, repertório e sensibilidade humana. Além disso, é vista como um fator decisivo nas escolhas estratégicas.
“A intuição é uma resposta subconsciente de experiências que você teve e que às vezes não consegue explicar o por quê. Mas, quando olhamos para o horizonte temporal, a evolução do processamento de dados e sua tangibilidade mudou bastante”, destaca João Cox, sócio-fundador da Cox Investments & Advisory.
Porém, ela não surge do nada, reforça Ana Karina Bortoni, CEO da Holding Grupo Silvio Santos. “Ela vem de um conjunto de experiências. Principalmente se você passou por diferentes setores, consegue usar aprendizados de um setor para outro. Isso é importantíssimo”, afirma.
A executiva ressalta também que a definição de dados precisa ser ampliada. Não basta ter um data lake. Segundo Ana, dados são fontes diversas de informação que ajudam a melhorar a tomada de decisão. Um exemplo concreto é ouvir os colaboradores.
“Lançamos uma ferramenta de inovação interna e recebemos ideias que, como executivos, não conseguimos ter com a mesma granularidade. Esse também é um tipo de dado”, explica. Além disso, a combinação de números e percepções qualitativas é essencial. “Intuição anda junto com dados, e nada mais é que um conjunto de experiências.”
Dados como base de eficiência operacional
Na indústria de mobilidade, os números têm papel central. Carlos Augusto Moreira, CEO da Unidas, destaca que os dados são hoje responsáveis por mais de 95% das informações que vão resultar em decisões na empresa. E isso tem se aprimorado cada vez mais.
“O nosso negócio depende disso. No dia a dia, meu time é mergulhado nos números, porque os dados nos trazem possibilidade de tomar uma decisão. Conseguimos entender se é necessário recuar. Mas, um negócio como operação, onde você mantém, no ponto de informação, os dados, eles são a base para a grande eficiência”, frisa.
Mudança cultural e hiperdigitalização
A Holding Grupo Silvio Santos passou por transformações intensas nos últimos anos. A Tele Sena, que até dois anos era vendida apenas em lotéricas e correios, hoje já tem mais de 60% das vendas no digital. Com essa mudança, houve alteração também no público. Com isso, segundo Ana, foi possível ter muito mais dados e informações das preferências dos clientes.
“O SBT lançou seu app, com mais de 20 milhões de downloads, o que nos permite entender em tempo real o que as pessoas gostam de assistir. E até os consultores de vendas, antes presenciais, estão cada vez mais digitalizados”, relata Ana.
Para ela, o grande desafio não é só tecnológico, mas cultural. “Não adianta mudar o modelo de negócio sem preparar as pessoas para lidar com o volume de dados. A pandemia acelerou tudo e trouxe uma hiperdigitalização. O papel da liderança é guiar essa adaptação sem perder o lado humano, a intuição”, defende.
O impacto da Inteligência Artificial
Durante o painel, os executivos também refletiram sobre o impacto da Inteligência Artificial na formação de opinião e até na própria intuição humana. Renata Bokel, CEO da WMcCANN, traz uma visão otimista.
“A IA fará parte do nosso marketing. Ela vai quebrar uma série de paradigmas e teremos que aprender a lidar com isso. Eu sou sempre otimista em relação a tecnologias. Ela será capaz de moldar opiniões, e as marcas devem se preparar para isso”, aconselha. Ela comparou o avanço da IA a algo inevitável, como infraestrutura básica. “Vai ser como água encanada. Estará em tudo: na geladeira, no despertador, até no creme dental. A sociedade vai se reorganizar em torno disso.”
Simbiose entre humanos e máquinas
Provocados pelo mediador sobre a possibilidade de uma simbiose entre humanos e tecnologia, bem como conseguir fazer distinção entre intuição e dados, os líderes concordaram que isso já é realidade. Para Ana, trata-se de uma futurologia, mas que há alguns pontos de atenção.
“Nesses últimos cinco anos, com tantas mudanças, ser humano precisa ser mais centrado. Percebemos a nova geração com mais ansiedade. Acho que já vivemos uma simbiose. O que me preocupa é como ajudar essa nova geração. Nós, como líderes, temos o papel de passar isso para a organização”, opina.
Para Renata, as decisões já acontecem de forma simbiótica. “Já estamos nos moldando nesse ser humano que busca uma simbiose com a tecnologia, e acredito que isso seja quase inevitável”, diz. Ela cita como exemplo a dependência que temos hoje, seja do celular estar sempre ativo ou das praticidades que temos na era digital, como depender da tecnologia para regular seus horários ou para facilitar a rotina.
Carlos reforça esse ponto. Porém, acredita ser necessário dar espaço para o lado humano e para intuição. Assim, é possível evitar que tudo aconteça de forma automática. “Antes, tomávamos decisões baseados 55% de dados e 45% baseadas em intuição. Hoje tomamos decisões 95% baseadas em dados. Mas precisamos reservar espaço para conversas, sentimentos e intuição. Senão, tudo vira automático”, aconselha.





