O que até pouco tempo parecia uma tendência restrita a celebridades e nichos de alta renda agora se consolida como um fenômeno de massa. Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva, 1 em cada 3 domicílios brasileiros já tem ou teve um morador que utilizou canetas emagrecedoras. Trata-se de um salto relevante frente aos 26% registrados no final de 2025.
Mais do que números, o dado revela uma mudança cultural. Esses medicamentos deixaram de ser tema distante para ocupar conversas cotidianas, decisões familiares e rotinas de consumo. Hoje, apenas 6% dos brasileiros afirmam nunca ter ouvido falar de nomes como Ozempic, Wegovy ou Mounjaro.
Essa popularização também se reflete nas relações sociais: seis em cada dez brasileiros conhecem alguém que já utilizou esses medicamentos. O efeito é claro: a recomendação boca a boca se torna um dos principais motores de expansão.
Experiência positiva impulsiona recomendação
A lógica da experiência do consumidor ajuda a explicar a velocidade dessa disseminação. Entre os que já utilizaram as canetas, 78% recomendariam o uso, segundo o estudo, e mesmo entre aqueles que interromperam o tratamento, o interesse permanece alto: 9 em cada 10 gostariam de retomar.
Na prática, isso cria um ciclo de confiança social. A experiência positiva não apenas fideliza, mas amplia o alcance do produto por meio de redes pessoais – um comportamento típico de produtos que transcendem a funcionalidade e passam a representar transformação de estilo de vida.
O preço ainda define quem entra
Apesar da alta adesão, o custo segue como principal barreira. Ainda assim, o cenário já dá sinais de mudança: 76% dos brasileiros acreditam que as canetas estão se tornando mais acessíveis, e 68% afirmam que preços mais baixos aumentariam a probabilidade de uso.
Esse ponto é central para entender o próximo capítulo desse mercado.
A quebra da patente da semaglutida, oficializada em março de 2026, marca o início de uma nova fase para o mercado. Mas ainda não mudou, na prática, o bolso do consumidor. Isso porque, embora a exclusividade tenha terminado, os genéricos ainda passam por aprovação da Anvisa e devem chegar às farmácias apenas ao longo dos próximos meses. Até lá, os preços seguem elevados, refletindo um mercado que, apesar de aberto, ainda não é competitivo.
Após esse período, com a entrada de genéricos e biossimilares, a tendência histórica é de redução de preços entre 30% e 60%, ampliando o acesso a diferentes camadas da população .
Na prática, isso significa uma possível democratização do consumo e uma aceleração ainda maior da adoção.
Quebra de patente: o gatilho para uma nova fase
Em geral, a quebra da patente tende a redesenhar o mercado em três frentes: preço, disponibilidade e diversidade de opções.
Além da redução de custos, a entrada de novos players deve aumentar a oferta e diminuir riscos de desabastecimento – um problema recorrente nos últimos anos. Também abre espaço para inovação em formatos, dosagens e até novas combinações terapêuticas.
Mais do que isso, há um efeito sistêmico: com maior acessibilidade, cresce a possibilidade de inclusão desses medicamentos em planos de saúde e até no SUS, ampliando o impacto social do tratamento.
Mas essa expansão vem acompanhada de desafios. A popularização pode intensificar o uso para fins estéticos e ampliar riscos de automedicação – um cenário que já preocupa entidades médicas no Brasil, diante do crescimento de produtos clandestinos e compras sem controle .
Consumidor já dribla barreiras
Mesmo antes dessa transformação estrutural, os consumidores já buscam caminhos para contornar o custo elevado. A pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que 4 em cada 10 usuários adquiriram o medicamento sem receita, pela internet ou no exterior.
Esse comportamento revela uma tensão clássica: quando a demanda é alta e o acesso é limitado, o usuário encontra alternativas nem sempre seguras.
Aqui, o desafio não é apenas de mercado, mas de regulação e educação. A jornada do consumidor, nesse caso, passa a incluir riscos que extrapolam a experiência e entram no campo da saúde pública.
Um mercado em expansão
O crescimento acelerado desse segmento não é um fenômeno isolado. Globalmente, a expectativa é que o mercado de incretinas, que inclui medicamentos baseados em GLP-1 ultrapasse US$ 200 bilhões até 2030, segundo a J.P. Morgan Global Research.
No Brasil, esse avanço já atravessa classes sociais: 39% dos domicílios da classe AB registram uso, mas o percentual nas classes CDE (30%) mostra que a expansão já é transversal – e tende a se intensificar com a redução de preços.
O que vem pela frente
A combinação entre alta aceitação, forte recomendação social e perspectiva de maior acesso cria um cenário claro: as canetas emagrecedoras devem deixar de ser tendência para se consolidar como um novo padrão de consumo em saúde.
A quebra da patente do Ozempic não é apenas um evento regulatório, é um ponto de inflexão. Ela pode redefinir quem tem acesso, como esses medicamentos são consumidos e qual será o tamanho desse mercado nos próximos anos.
No centro dessa transformação está o consumidor: mais informado, mais disposto a experimentar e, muitas vezes, disposto a contornar barreiras para acessar soluções que entreguem resultado.
O desafio, agora, será equilibrar expansão, segurança e responsabilidade em um mercado que cresce na mesma velocidade em que redefine hábitos, expectativas e a própria experiência com a saúde.





