/
/
Até onde a IA pode decidir sozinha?

Até onde a IA pode decidir sozinha?

No CONAREC 2026, executivos de Weduka, Santander, Alpargatas e B3 discutem como combinar dados, Inteligência Artificial e julgamento humano à medida que máquinas assumem mais decisões
Foto: Keko Pascuzzi
No CONAREC 2026, executivos do Santander, B3, Alpargatas e Weduka discutiram o equilíbrio entre a automação por Inteligência Artificial e a necessidade do julgamento humano nas empresas. O painel destacou ainda que a tecnologia deve responder a objetivos claros de negócio, apoiada por bases de dados íntegras e novos modelos de governança e interoperabilidade para gerenciar a futura interação direta entre agentes virtuais de consumidores e empresas.

O sucesso da implantação da IA depende de dados confiáveis e objetivos claros, com curadoria humana para validar, contextualizar e garantir a assertividade na tomada de decisões. A integração de dados, IA e avaliação humana se tornou essencial no atendimento ao consumidor, e isso passa por interoperabilidade com novos modelos de governança.   

“O próximo passo é sair da economia da atenção para entrar na economia da decisão”, disse Eduardo Sasaki, diretor de Dados e IA do Banco Santander Brasil, acrescentando que as empresas precisarão aprender a se relacionar com consumidores que transferem parte de suas escolhas para agentes conversacionais. “Se eles estão delegando a decisão, como é que nós, vamos nos relacionar com essas pessoas que estão delegando a um agente conversacional uma decisão?”.

Essa mudança amplia uma discussão que já acontece dentro das corporações. Até onde podemos entregar uma decisão à IA e quando entra um humano? Esse foi um dos temas abordados no painel “IA, dados e humanos na nova arquitetura da decisão”, no CONAREC 2026. Além de Sasaki, participaram Charles Lorenzi, CEO da Weduka; Diogenes Justo, Global Data & AI Director da Alpargatas; e Natália Heimann, superintendente de Dados & Analytics para Crédito e Cobrança da B3. O debate foi mediado por Alessandra Montini, diretora do Labdata-FIA.

Quando a IA pode avançar sozinha 

No Santander, a IA já atua de forma autônoma em processos específicos. Sasaki citou as reclamações de fraude em cartões, onde um agente de IA reduziu em 90% o tempo de atendimento e toma aproximadamente 95% das decisões sem intervenção humana. A autonomia é possível porque o problema é delimitado e controlado.

O objetivo muda quando uma decisão pode produzir consequências maiores para o cliente. Nesses casos, a IA funciona como uma espécie de “segundo cérebro” para o atendente ou gerente, mas a pessoa permanece na ponta do processo.

A B3 tem a mesma preocupação. De acordo com Natália, repetição, grande volume de dados e uma métrica de sucesso clara ajudam a determinar quando a tecnologia pode avançar sozinha. “Quando você tem esse cenário, a IA navega bem. Mais uma vez, você confia muito. O risco é baixo, automatiza sem peso na consciência.”

Mas, a qualidade da informação é a condição básica para essa lógica. Natália destacou que um modelo sofisticado não corrige uma base ruim. “Se o dado não estiver íntegro, você só vai escalar erro no seu modelo.” Na sua opinião, o julgamento humano ganha importância nos cenários de maior risco, incluindo impactos de reputação e imagem.

IA não substitui o problema de negócio

Sasaki acredita que a capacidade de automatizar, portanto, não deveria definir o que será automatizado. Ele explicou que, no Santander, a arquitetura começa pelo negócio e primeiro é preciso determinar o problema, a ambição e como o resultado será mensurado. Dados, tecnologia e IA entram depois como ferramentas, acompanhadas de uma camada de controle, risco, compliance e governança.

“Não existe estratégia de IA e de dados se você não tiver isso na essência”, completou. O banco estabeleceu um compromisso global de capturar 1 bilhão de euros por meio de dados e IA até 2028, sendo cerca de 70% ligados à eficiência e 30% à geração de novos negócios ou receitas.

Lorenzi também questionou o uso da IA quando não há um problema claro a ser resolvido. Segundo o CEO da Weduka, velocidade não deve significar aplicar IA indiscriminadamente. “Olha para a cultura e para o objetivo específico do negócio, tenha certeza de que você está criando solução para um problema e não problema para uma solução.”

Na Weduka, uma das aplicações combina IA e curadoria humana para monitorar e atualizar grandes bases de conhecimento usadas no atendimento. O sistema acompanha, entre outros pontos, quais informações foram utilizadas, se a resposta foi adequada e se o problema está na pergunta, no documento ou no próprio modelo, reduzindo o esforço necessário para manter a base atualizada.

Curadoria e presença humana

Muita tecnologia também pode dificultar as decisões. Quanto mais alternativas disponíveis, maior pode ser o esforço necessário para escolher entre elas. Justo observou esse efeito na Alpargatas.

“Hoje temos muito mais alternativas para decisões de tomar e isso torna mais moroso o processo de tomar decisão e não mais rápido”, disse. A resposta, segundo ele, passa pela curadoria e pela presença humana no processo.

Um exemplo está na escolha de nomes de novos produtos da Alpargatas. Com cerca de 2 mil produtos e variações no portfólio, a empresa aplicou um agente de IA a um processo bem delimitado. A solução não assumiu toda a atividade, mas ajudou a automatizar mais de 80% dela.

Justo acrescentou a essa equação a autenticidade. Com muitas ferramentas usadas para produzir conteúdo e apoiar decisões, o que carrega uma contribuição humana, de verdade, pode ganhar valor. “A autenticidade pode ser cada vez mais um grande diferencial.”

Interação entre máquinas

A próxima etapa deve tornar essa arquitetura ainda mais complexa. Se consumidores começarem a delegar tarefas a agentes e as empresas também tiverem seus próprios agentes, será preciso estabelecer limites para a interação entre essas máquinas.

Sasaki defendeu que experiências como Pix e Open Finance mostram um caminho possível porque funcionam com padrões comuns de interoperabilidade, segurança, consentimento, finalidade e escopo. “O que vai permitir uma comunicação agente com agente no futuro é se a gente conseguir fazer um ecossistema, uma arquitetura que seja interoperável.”

Já Natália disse que a IA tende a dominar decisões repetitivas e de baixo risco, liberando as pessoas para atividades mais estratégicas. Na leitura de Justo, a evolução também dependerá de organizações abertas a aprender com seus próprios colaboradores e com usos da tecnologia que surgem de diferentes áreas.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Conheça a estratégia do Mercado Livre ao adotar IA de voz
Desenvolvida em parceria com a Decagon, IA de voz do Mercado Pago atende a 75% das ligações do canal de saque, sem intervenção humana
Com IA na cobrança, Casas Bahia adapta a jornada ao perfil de cliente 
Com a Trabbe, varejista usa IA na cobrança do Carnê e registra saldo pago 30% maior que o de um agente virtual tradicional
Automação ou conexão? A escolha certa em cada momento do CX
Vibra, Rede D’Or e ColmeIA explicam por que tarefas repetitivas podem ficar com a tecnologia, enquanto decisões sensíveis ainda exigem pessoas
Como o TikTok Shop quer transformar entretenimento em vendas na Black Friday
Estudo da NielsenIQ mostra que 91% dos compradores descobrem marcas durante a navegação e justificam a aposta da plataforma

Webstories

SUMÁRIO – Edição 298

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Vice-Presidente Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

Rodrigo Santinelo
rodrigo.santinelo@gpadrao.com.br

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadora
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Prime Video aposta em vídeos curtos e amplia funções do streaming Do clique ao dano: quem responde nas novas relações de consumo? Menos estímulos, mais experiência? Quando o tempo perdido vira indenização