As mesmices que podemos esperar ver em 2024
- Por Jacques Meir
- 6 min leitura
Ilustração: Oleksandr Khoma/Shutterstock
A história é velha como a humanidade: um ciclo se encerra e aí vemos surgir previsões de toda sorte (e é de sorte que se trata; análises são apenas um verniz) para adiantar ou repercutir o que irá acontecer no novo ano. O exercício de futurologia é uma característica muito humana, e representa uma necessidade imensa de criar narrativas que se ajustem a crenças e expectativas. O que nos aguarda no próximo ano é sempre uma história que contamos para se ajustar ao que acreditamos. E essa história vai se ajustando com o passar do tempo, para que os fatos ocorridos façam sentido com o que acreditamos ter previsto.
Sim, previsões são parte dos mecanismos de autojustificação que desenvolvemos e dos quais dependemos para entender a realidade. Logo, a cada fim de ano, temos a série de retrospectivas – listas dos melhores e dos mais curiosos fatos, times, filmes, programas, atletas e o que for possível imaginar – e a série de previsões e tendências – o que pode acontecer no ano seguinte à luz da experiência do ano presente.
O que causa inquietação, dúvida ou questionamento é o fato de estarmos sempre buscando um futuro que confirme nossas crenças e expectativas e deixarmos de olhar para o grande conjunto de mesmices e redundâncias refletidas em ideias e comportamentos, atitudes e hábitos replicados automaticamente.
Fazemos planos de ano novo: emagrecer, “se cuidar”, ter uma alimentação saudável, mudar de emprego, ganhar mais, reduzir dívidas. Fazemos essas previsões a esmo, sem muita reflexão, sem muita autocobrança. Os meses seguem e, quando vemos, lá está mais um fim de ano. Esse é um exemplo de mesmice, como o peru de Natal (uma tradição – para quem?), pessoas se embebedando, vendo o sol raiar, e depois vivendo a rotina, com o dilema frequente entre “vida pessoal e profissional”.
A grande variável dessa inequação entre “objetivos e previsões de ano novo” e a rotina implacável é a nossa falta de consciência sobre por que fizemos essas promessas. O que incomoda tanto em nossa rotina, nosso corpo, nosso trabalho, nosso jeito de ser que demanda uma virada de chave a cada ano? E por que, deliberadamente, assumimos para nós mesmos um vetor de frustração que cresce mês após mês, ao vermos que não conseguimos colocar em prática o que prometemos?
O chato é que veremos artistas famosos falecendo, nosso time ganhando e perdendo, pegaremos trânsito em algum momento, chuva em vários momentos, reclamaremos do governo e dos impostos, iremos resmungar contra greves no transporte público, vamos ficar algum tempo sem internet e veremos escândalos políticos, além de empresas famosas indo à lona. Aos trezentos e tantos dias depois, resta a sensação de que o tempo passou e deixou uma lacuna na alma, na mente, no espírito (escolha a ideia etérea que mais lhe convier).
As previsões e promessas de ano novo constituem um elemento reconfortante para nós. Sempre iremos repeti-las, velhas conhecidas que são e nos eximimos da responsabilidade real de mudar. Olhamos no entorno, tecnologias mudam, discussões acaloradas tomam redes sociais, formatos de trabalho se alteram, eventos imprevistos acontecem e, exatamente por essa dinâmica, precisamos do conforto da promessa que não se efetiva, da intenção de mudança que nada altera, da expectativa e da previsão que não nos preocupamos em checar. Por que assumir mais uma responsabilidade derivada de incerteza (conferir previsões, promover mudanças, cumprir promessas) se a realidade é muito incerta, volátil e complexa?
Sim, há uma indústria da previsão, que envolve uma gama de profissionais do embuste, da ilusão e do pensamento mágico: astrólogos, cartomantes, gurus de autoajuda, pseudoinfluenciadores e por aí vai.
O terreno é fértil para receber informações que se ajustem às narrativas que dão (algum) sentido à vida, mas pouco, muito pouco, trazem de efeito prático. Reproduzimos mesmices, nos deixando levar por vigarices.
E assim seguimos, pouco exigentes com nossas decisões, esperando resultados diferentes, fazendo sempre as mesmas coisas, a começar pelos rituais bobocas de passagem de ano (o festival de oferendas para Iemanjá, roupas brancas, roupas amarelas, champanhe com cerejas, saltos sobre ondas, comer romã, lentilha… a lista é imensa), na esperança de que os astros se combinem e os desejos se realizem. Já começo a ver o quanto irão recorrer ao ChatGPT para simular previsões ou consultar por que uma profecia aleatória não se realizou.
É válido comentar que o calendário é uma forma de organizar a passagem do tempo em ciclos ordenados que nos permitam ver o passado em retrospectiva e projetar alguns objetivos (reais, lógicos, palpáveis). Mas nada além disso. Seria bom se perguntar para que temos a necessidade de previsões e de promessas que estão além do nosso controle e da realidade. Seria bom reconhecer os comportamentos que repetimos quase automaticamente e que impedem nosso aprimoramento pessoal. Seria bom entender se realmente precisamos nos aprimorar ou se estamos em um momento particularmente estável e produtivo, emocionalmente, fisicamente, mentalmente.
A mudança real que queremos, se a queremos, em nossa vida, passa antes pela compreensão dos espaços, tempos e ritmos que utilizamos e ocupamos. Exige um olhar atento para quem somos, se gostamos de quem somos e, mais ainda, se queremos ser quem somos.
Vida que segue, cabe a nós escolher seguir a vida adiante ou se deixar levar pela vida que passou. Feliz 2024. De preferência, longe da mesmice.
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