CX com cabelo e maquiagem

CX com cabelo e maquiagem

Quando um cliente, sem querer, prega uma peça na sua empresa, o que você faz?

A pessoa marca hora no salão de beleza. Grande amiga, divertida, sempre com um sorriso marcante no rosto. No dia e hora marcados, lá vai ela, vestido e sapato em punho, rumo ao salão para se aprontar para o casamento. Ocasião especial, e todos sabemos como é importante estarmos lindos e maravilhosos para um acontecimento social, casamento, noivado, festa de debutante, não importa. Quando um evento social chama, o salão de beleza é parada obrigatória para que as mulheres, principalmente, mas não apenas elas, logicamente, estejam radiantes para compor o cenário de sonhos imaginado pelos que as convidam.

O salão se esmerou. Cabelo incrível, maquiagem luminosa, manicure e pedicure na medida. A amiga e seu marido curtem a festa que transcorreu maravilhosamente. Madrugada vem, o sono aconchega o casal realizado e minha amiga está feliz pelo fato de tudo ter sido tão perfeito.

No dia seguinte pela manhã, ela recebe uma ligação. O salão entra em contato para saber por que ela não compareceu no horário marcado. “Como assim? Eu estive aí ontem, com o vestido e os sapatos, e vocês fizeram um trabalho sensacional!” “Que estranho! Você agendou conosco, mas não veio.” Dos dois lados da ligação, caras de perplexidade. E, então, a revelação: minha amiga, neurodivergente, viu seu TDAH manifesto e pregador de peças fazer as suas. Ela havia comparecido a um salão muito próximo daquele agendado, mas não o correto.

No salão visitado, o pessoal, muito solícito, mesmo não encontrando o agendamento feito (porque, claro, foi marcado para aquele horário em outro salão!), fez de tudo para atender às expectativas da cliente, sempre com um sorriso no rosto. Sim, o TDAH simplesmente não a fez perceber que estava no salão errado, nem mesmo quando as pessoas ali se entreolharam sem saber o que aquela pessoa, com vestido de festa e sapatos na mão, fazia ali, naquele momento. Mas o melhor do espírito brasileiro de servir, se dedicar e se adaptar tirou de letra a situação. O salão errado vestiu o figurino e entregou uma experiência impecável. E por um preço até menor que o salão certo praticaria.

Claro, o salão errado não sabia que minha amiga tem TDAH. E as histórias desses neurodivergentes são tão saborosas que parecem lendárias. No trabalho, em viagens, em restaurantes, na cozinha, na escola, nas festas, os esquecimentos, os celulares sempre sem bateria (alguém viu meu carregador?), a procura pelos óculos por todos os lugares, enquanto repousam tranquilamente no nariz, tornam esses personagens, bem, personagens adoráveis.

Mas o fato é que pouquíssimas empresas estão talhadas, prontas e têm habilidades para lidar com perfis atencionais atípicos. Eles podem esquecer o cartão na máquina, o carregador na tomada do bar, o casaco no banco do Uber. Podem entrar em uma loja e não lembrar o que vão comprar ali. Podem entrar em hiperfoco e trabalhar 11 horas direto ouvindo a mesma música em looping, enquanto deixaram o macarrão no fogo. Podem reagir negativamente ao excesso de cores e estímulos, tanto como podem se irritar com o som ambiente, e ficar 4 horas procrastinando o envio de um e-mail. Guarda-chuvas são artigos descartáveis porque serão sempre perdidos (já são para os neurotípicos, imagine para os neurodivergentes), e o sono será um companheiro constante. Isso porque esgotam a dopamina com hiperatividade e a resposta aos estímulos.

A história do salão é um causo divertido e que felizmente teve um final feliz. Ele traz muitos ensinamentos sobre a capacidade de adaptação, criatividade e empatia com o cliente, por intuição, perspicácia e sabedoria.

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Fora das (muitas) caixas

Estamos em plena época de transição para um mundo muito tecnológico, no qual impera uma ideia tolinha de que a Inteligência Artificial será capaz de realizar tudo, fazer tudo e resolver tudo. Mas é aquilo: Como você parametriza uma IA para detectar e se adequar a uma cliente neurodivergente que irrompe no local falando que tem hora marcada sem ter? E como você explicaria para essas empresas, repletas de camadas de burocracia e atendimento cheio de sofisticadas árvores de decisão e fluxos nos agentes virtuais, que a cliente cometeu um erro involuntário por conta do TDAH? E como saber que a história do TDAH não seria simplesmente um “golpe” para contratar um serviço passando por cima do agendamento-padrão?

São essas situações, ainda imponderáveis e adoravelmente humanas, que mostram o imenso caminho que será percorrido pela adoção mais intensa das chamadas IAs Emocionais.

É certo que vivemos um momento de revisão das nossas conexões afetivas. Ted Gioia, um dos maiores pensadores de cultura do nosso tempo, define a perda de habilidade relacional como um reflexo de “identidade despersonalizada”, como se a maioria das pessoas vivesse em um constante e quase permanente estado neutro, incapaz de demonstrar emoção, impassível e insensível. É um contraste significativo com a expansividade de neurodivergentes como as pessoas com TDAH.

São essas situações, ainda imponderáveis e adoravelmente humanas, que mostram o imenso caminho que será percorrido pela adoção mais intensa das chamadas IAs Emocionais

“Nesse tempo empreendendo, já descobri onde não mora o sucesso, mas ainda estou descobrindo onde ele mora. Até agora, suspeito que está em poder contribuir com o mundo do seu jeito realmente autêntico, com aquilo que só você pode fazer, de uma forma que resulte em uma junção de abundância, curiosidade contínua e prazer no caminho”, destaca.

E, ora vejam, a naturalidade e a vivacidade dessas pessoas são vistas com reservas pelas empresas, porque o comportamento contido, domesticado, anestesiado e, convenhamos, chato ganhou evidência e um status de “adequado” para um determinado tipo de etiqueta corporativa.

Há uma certa tendência, ou desejo de buscar uma “homogeneização” de comportamento, em que o excesso, o chilique, a tristeza, o sorriso farto ou a expansividade sejam colocados sob controle. O que atormenta as empresas é essa manifestação de espontaneidade dos consumidores, sempre dispostos a mostrar, com todas as letras, por meio de memes e vozes, seu contentamento ou irritação com marcas, produtos e serviços. E quando surge um cliente neurodivergente, mais imprevisível ainda em seu comportamento, a necessidade de compreendê-lo por uma lente predeterminada e inseri-lo em uma caixinha estabelecida ou, então, criar uma nova que acomode essa característica se impõe.

Mas no que exatamente essa caracterização ajuda uma empresa a realmente oferecer valor para os milhões de neurodivergentes? Ainda que não haja dados específicos, é crível imaginar que o País tenha cerca de 25 a 30 milhões de pessoas com neurodivergência, de TDAH a TEA (Transtorno do Espectro Autista). Esse dado por si só indica que há desafios adicionais a ser enfrentados por qualquer estratégia de experiência do cliente, a começar pela própria deficiência de atenção (provavelmente indiferentes ou, pior, completamente alheios à publicidade), e depois, no outro extremo, a necessidade de consumir dopamina em doses fartas.

SUMÁRIO – Edição 297

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | Runway


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