Entre razões e emoções, a sociedade está vivendo um dilema em tempo de excesso de informação, incertezas sobre o futuro e o avanço da Inteligência Artificial. Cedo ou tarde, todos vamos passar por essas vias. Mas, como equilibrar razão e emoção na hora de decidir? Esse foi o ponto central do painel O papel da inteligência emocional na tomada de decisão, no CONAREC 2025, que reuniu nomes como Jacques Meir, diretor-executivo de Conhecimento do Grupo Padrão, Erh Ray, CEO e COO da BETC Havas, Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury, Fabiano Oliveira Ferreira, CEO da Vero Internet, e Rodrigo Vicentini, general manager da Deezer na América Latina.
Na Deezer, empresa que vive da paixão universal pela música, o emocional sempre está em primeiro plano. Para Rodrigo Vicentini, dados são essenciais para dar direção, mas não suficientes para tomar uma decisão. “Tem vezes que o dado está muito claro, mas existe algo de errado que ele não mostra. É nessa hora que a intuição e a sensibilidade entram na gestão”, afirmou.
No Grupo Fleury, onde tecnologia e saúde andam juntas, o dilema é ainda mais intenso. A IA já contribui para diagnósticos mais rápidos e precisos, mas, como lembra Jeane Tsutsui, o paciente chega fragilizado e precisa de cuidado humano.
“Cuidar das pessoas é algo profundamente ligado à empatia e ao acolhimento. Montar times colaborativos e com inteligência emocional é fundamental para decisões melhores e mais humanas”, destacou.
Para ela, o equilíbrio nas tomadas de decisões começa no autoconhecimento, com sono de qualidade, exercícios físicos e relacionamentos saudáveis são pilares que fortalecem líderes diante da pressão.
Crescer sem perder o humano
À frente da Vero Internet, Fabiano Oliveira conta que gerir diferentes culturas exige sensibilidade. A liderança enfrenta o desafio de unificar a cultura de uma empresa formada pela soma de 19 aquisições ao longo dos anos, abrangendo diferentes estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia e Goiás, com distintas personalidades e realidades.
Oliveira dedica um quarto de seu tempo a essa integração cultural e à escuta ativa dos clientes, tanto residenciais quanto empresariais. Isso para entender suas necessidades de forma próxima.
“Não adianta pregar uma cultura centrada no cliente se a liderança não pratica isso. Escutar ativamente é essencial, ainda mais num País que consome internet, em média, 9h30 por dia”, disse.
Ele destacou ainda que cuidar de pessoas precisa ser uma missão compartilhada dentro das organizações.
Corações inteligentes
Já para Erh Ray, da BETC Havas, a publicidade é o campo natural das emoções. Mas, não pode ignorar a razão.
“Vivemos uma era de dados, mas a propaganda mexe com sentimentos. Não adianta formar lideranças brilhantes se não houver corações inteligentes. É na convivência humana que ganhamos repertório”, afirma.
Ele também chama a atenção para a saúde mental dos executivos. “A cadeira de CEO é solitária. Por isso, estar bem cercado e ter apoio é fundamental”, se referindo às tomadas de decisão.
Para Fabiano, da Vero, a maior equação é o equilíbrio. “Como ser humano temos dois lados, o racional e a emoção. Muitas vezes há um desequilíbrio. Eu tenho uma tendência a ser racional e, ao longo da minha carreira, eu tenho sido mais emocional, e buscar esse equilíbrio é muito importante. Todos os líderes da organização devem buscar o equilíbrio, mas não é fácil”, afirma.
Já no Grupo Fleury, que está prestes a completar 100 anos, tradição e reflexão estão enraizadas na cultura da empresa. Ao mesmo tempo, é preciso evoluir essa cultura com tecnologia. “O Fleury tem uma cultura muito forte ao cuidar da saúde ao promover o bem-estar. Isso é conexão emocional. Claro, o business precisa continuar crescendo. Mas, esse balanço em uma organização faz com que essa jornada seja rica. E, de uma certa forma, faz com que as pessoas se conectem”, destaca Jeane.
IA no dia a dia
Com a IA, no dia a dia, o consumidor precisa ser informado sobre o que está ouvindo. Na música, a discussão ganha atenção, uma vez que músicas usam da IA para criação de músicas e composições. “A Deezer acredita muito em respeitar o ecossistema. Por mais que a IA possa criar mais rápido, como por exemplo na criação de um repertorio da música, é importante respeitar o ecossistema. Mas, na Deezer, o usuário sempre vai poder tomar a melhor decisão.”
A publicidade precisa equilibrar os dados com a emoção, pois a criatividade depende de repertório e experiências humanas que a IA não possui, sendo a convivência e a experiência essenciais para o aprendizado.
O desafio do equilíbrio
Como lembrou Jacques Meir, cada pessoa toma cerca de 35 mil decisões por dia. Algumas rápidas, outras que exigem uma pausa para a reflexão. E, é justamente nesse espaço entre razão e emoção que se molda a liderança do futuro e forma indivíduos únicos.
“Em tempos em que tanto se fala de agentes de IA, é importante lembrar que falamos, antes de tudo, de gente. E de gente vem uma partícula essencial: o gen. É esse gen que nos torna singulares, que preserva nossas emoções e dá sentido às nossas escolhas. É ele que nos permite acumular repertório, criar conexões verdadeiras e manter a disposição para aprender e reaprender. No fim, é esse gen humano que continua a desempenhar um papel fundamental em nossas vidas”, conclui Jacques Meir.
No fim, a conclusão dos líderes foi unânime:
- A Inteligência Artificial é um realidade, mas não substitui o olhar humano.
- Decidir é, cada vez mais, um exercício de equilíbrio entre dados, intuição e empatia.





