No Brasil, a psicologia é uma profissão regulamentada e tem, portanto, uma tabela de honorários. Um instrumento fundamental que estabelece valores mínimos a serem cobrados pelos serviços profissionais, garantindo uma remuneração justa e evitando a concorrência desleal. As normas da profissão são regidas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). Elas visam proteger tanto os profissionais quanto os clientes, assegurando a qualidade e a ética dos serviços prestados.
Nesse aspecto, a Federação Nacional dos Psicólogos (FENAPSI) apresenta, anualmente, a Tabela de Referência Nacional de Honorários. A tabela é feita em conjunto com o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e com a colaboração do DIEESE. Desde 1º de julho, os valores de uma consulta psicológica variam de R$ 225,58, podendo alcançar até R$ 386,72. Veja abaixo:

Esses preços, em um País classificado como de renda média pelo Banco Mundial desde 2006, representam um desafio. E isso para muitos cidadãos, especialmente considerando que a saúde mental é uma necessidade cada vez mais reconhecida.
IA na Psicologia
Paralelamente a essa discussão, observa-se um crescimento no uso de ferramentas de Inteligência Artificial (IA). As pessoas estão vendo a IA como suporte emocional, e um número crescente de pessoas vem buscando tecnologias para se consultar. Por consequência, essas, em muitos casos, acabam substituindo o contato direto com psicólogos.
Adam Raine, um adolescente americano de 16 anos, cometeu suicídio em abril após trocar milhares de mensagens com o ChatGPT, popular ferramenta de IA. Depois do trágico episódio, os pais do menino decidiram processar a OpenAI.
A empresa de Sam Altman está sendo processada por “morte por negligência”. Os pais do menino tomaram essa decisão após analisar os longos diálogos produzidos pela empresa. De acordo com eles, a IA influenciou Adam em nível de pensamento e emoções.
Sigmund Freud
Sigmund Freud (1856-1939) foi crucial para a psicanálise, especialmente na compreensão do conceito de “transferência”. Em síntese, esse fenômeno ocorre quando um paciente projeta no analista sentimentos e padrões de relacionamentos que experienciou em outras relações, influenciando a dinâmica da terapia e a interpretação dos conflitos internos do paciente.
Em suma, essa projeção pode manifestar-se através de sentimentos positivos ou negativos, resultando em reações que podem variar de afeto e gratidão a animosidade e rejeição. A transferência é uma ferramenta poderosa dentro da psicanálise, pois a sua análise permite que o terapeuta compreenda melhor os problemas subjacentes do paciente, além de oferecer pistas sobre suas experiências passadas e suas relações interpessoais.
Durante as sessões terapêuticas, o psicólogo deve estar atento a esses sentimentos transferenciais, pois eles podem revelar padrões que o paciente reproduz fora do ambiente terapêutico. Essa dinâmica não apenas facilita o processo de introspecção, mas também pode criar um campo fértil para o desenvolvimento de insights e mudanças significativas. O reconhecimento da transferência, portanto, é essencial não apenas para a eficácia da terapia, mas também para o fortalecimento do vínculo entre terapeuta e paciente.
IA pode fazer terapia?

Neste sentido, o psicólogo Filipe Colombini esclarece que não há evidências científicas de que a IA seja capaz de realizar psicoterapia. E alerta: “a preocupação reside no fato de que usuários possam confundir respostas automáticas com atendimento clínico. Essa confusão pode resultar em diagnósticos equivocados ou na procrastinação na busca por um psicólogo qualificado”.
Em outras palavras, Colombini diz que, embora a “conversa” possa proporcionar um alívio momentâneo, ela não substitui a escuta qualificada de um profissional. Respostas simplistas ou incorretas podem, na verdade, agravar quadros já existentes. Colombini enfatiza que a IA não deve ser considerada um tratamento, mas sim uma ferramenta que pode complementar o trabalho do terapeuta. Ele explica que a psicoterapia envolve um plano de ação estruturado, com acompanhamento regular, revisita a temas sensíveis e a construção de um vínculo humano, aspectos que uma máquina não consegue replicar.
Apesar disso, o psicólogo vê a tecnologia como uma aliada, não como uma concorrente. Ele compara a revolução trazida pelo Google no acesso à informação com o potencial da IA na organização de dados e apoio aos terapeutas. A chave, segundo ele, é entender a tecnologia antes de julgá-la. Outra preocupação levantada por Filipe Colombini refere-se à privacidade dos pacientes. “Isso porque informações pessoais podem ser expostas ou acessadas por terceiros em caso de falhas de segurança nas plataformas. Embora as empresas garantam que os diálogos são anônimos ou eliminados, existe o risco de armazenamento temporário para aprimoramento do sistema, o que pode gerar vulnerabilidades.”
O que diz o CFP sobre a IA na Psicologia?
O CFP também se manifestou oficialmente sobre o uso da IA na prática psicológica. A autarquia não se opõe ao avanço tecnológico, mas defende que sua aplicação deve respeitar os princípios que regem a profissão, sempre com ética, responsabilidade e supervisão crítica de profissionais capacitados. O Conselho ressalta que diagnósticos e intervenções mais complexas devem ser realizados apenas com a participação ativa de psicólogos, enfatizando que a escuta humana, a singularidade do sujeito e o sigilo profissional não podem ser substituídos por algoritmos.
Para Filipe Colombini, coordenador acadêmico em cursos relacionados à psicologia, o grande desafio reside nos limites do uso da IA. Ele afirma que a tecnologia deve ter um caráter informativo e complementar à relação terapêutica, e que ainda é necessário reunir evidências científicas sólidas que comprovem sua eficácia em saúde mental. Enquanto isso, a interação humana, a sensibilidade e a conexão entre terapeuta e paciente permanecem essenciais no processo psicoterapêutico.





