Porque eu estou aqui na Inglaterra e porque por aqui foi um fim de semana especial para os britânicos, eu queria falar sobre a festa dos 90 anos da Rainha Elizabeth, que dominou as televisões ontem e hoje, além das páginas locais. Mas não dá para não falar de outro assunto que dominou manchetes do mundo inteiro hoje, o massacre de Orlando.
Não quero ficar falando do tanto que isso é horrível, absurdo, inexplicável. Não precisa, acho que quem não entende a brutalidade de 50 pessoas mortas no que ficou conhecido como masscre de Orlando pode parar de ler por aqui e procurar um tratamento. A palavra que quero trazer aqui, neste texto, é tolerância.
Eu saí de um país que está em pé de guerra. A polarização que vivemos está gritante. O nível de violência que vivemos está gritante. Um dia essa panela de pressão não aguenta…
Eu vim para um lugar que, embora muita gente conheça como turista ou até mesmo como morador, é desconhecido para mim. Por isso, não dá para negar que eu vim com algum medo (simplesmente porque a fama dos países europeus em relação aos imigrantes não é das melhores). De fato, ser gringa em terras europeias não é sempre fácil.
Nossa missão maior está em encontrar uma casa. Temos andado um pouco pela cidade por esse motivo. E o que eu posso dizer de Birmingham? É uma cidade muito misturada. Observamos, sim, alguns bairros com bandeiras demais da Inglaterra (mas era próximo ao início da Uefa, talvez fosse pelos jogos, sei lá). Observamos, sim, algumas propagandas de “Vote Leave, let’s be free”, como se fazer parte da UE fosse algum tipo de prisão. Mas, de modo geral, posso dizer que senti muito mais tolerância do que eu esperava. Dos taxistas estrangeiros que mal falam inglês aos caixas de supermercados, garçons dos lugares onde estivemos, corretores de imóveis (também de diferentes nacionalidades) fomos muito bem tratados.
Na busca pela nossa casa para vivermos aqui, procuramos bairros misturados. Um deles, se essa casa der certo, teremos muitos vizinhos muçulmanos, negros, asiáticos e até vi um judeu andando em suas vestes típicas, tranquilo pela rua. A predominância por aqui é de muçulmanos, muitos de origem indiana. Quase posso dizer que vimos mais muçulmanos do que ingleses típicos – aqueles bem estereotipados. Birmingham é a segunda maior cidade da Inglaterra e pelas suas ruas vi uma mistura louca. Me fez sentir um pouco mais familiarizada, já que São Paulo também é assim.
Ontem, de carona com um corretor (com feições de indiano, mas já nascido em Birmingham, filho de imigrantes), eu vi um cassino e não pude deixar de ficar curiosa. Perguntei para o nosso novo colega se era mesmo liberado o jogo aqui – a resposta dele foi: no país, sim. Para mim, não, porque minha religião não permite. Mas se você gostar, ouvi dizer que o casino X pode ser melhor do que esse. Tolerância. Se a religião dele não permite, ele sabe que é um “problema” dele. E que, desde que eu não insista em levá-lo a um cassino, ou obriga-lo a fazer qualquer outra coisa que ele não queira ou que sua religião não permita, dá para sermos amigos e passarmos juntos outras situações.
A tendência quando acontecem fatos assim, como o massacre de Orlando, é culparem alguma coisa. A religião, o país de origem, a cor, o partido. Quando, na verdade, a causa é uma só: o ódio pelo diferente. A intolerância. Aparentemente, não existe um mais intolerante do que o outro. Existem, sim, pessoas que se aproveitam da ignorância ou da fé alheia para tornar outras pessoas mais ignorantes. Esses, verdadeiros perigos para a sociedade, existem em todas as religiões, todas as cores, todas as classes sociais.
Hoje, a sensação que eu tenho é de vergonha do mundo. Que os movimentos e bandeiras levantados por aqueles que pregam igualdade e tolerância sejam mais fortes do que esse radicalismo desnecessário. Meu coração está com a família dos que morreram em Orlando.





