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Por que as mulheres são mais sustentáveis do que os homens?

Por que as mulheres são mais sustentáveis do que os homens?

O desafio de trazer uma maior participação dos homens na pauta sustentável também passa pelo papel das marcas
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A pegada ecológica das empresas ficou cada vez mais presente durante a pandemia. É questão de sobrevivência, de acordo com a maior parte dos especialistas. Quem não investe em uma produção mais sustentável acaba ficando para trás, porque hoje a ecologia já é uma exigência do consumidor — em especial das mulheres.

Afinal, são elas os consumidores mais sustentáveis e preocupados com as questões ambientais. É o que diz a pesquisa da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. O estudo mostra que as mulheres são mais ecológicas e engajadas com a pauta do meio ambiente: produzem menos lixo, comem menos carne, reciclam mais, deixam uma pegada de carbono menor e são mais suscetíveis à compra de carros elétricos.

Para Andreia Quercia, co-fundadora da marca Bars Over Bottles – B.O.B — que produz produtos para o cabelo de forma 100% ecológica e sustentável —, o principal motivo para esse movimento das mulheres é, no Brasil, uma questão cultural. “Vivemos em uma sociedade em que o homem ainda tem aquele papel específico de ser provedor. Já a mulher é criada desde nova para proteger, cuidar, ser mais altruísta, ter mais empatia. Ela acaba ficando um pouco mais atenta ao seu redor e também é a figura da mãe, então automaticamente acaba se preocupando mais com as próximas gerações”, destaca.

Um papel “das mulheres”?

Entre os motivos listados pelo estudo de Yale, está também a administração dos recursos dentro de casa. A maior parte das mulheres é gestora dos produtos dentro do lar, portanto acaba tendo maior consciência do lixo que produz. Além disso, a maior parte dos produtos sustentáveis também são direcionados ao público feminino, como é o próprio exemplo das roupas, artigos de moda e autocuidado.

Para os homens, a questão cultural e a concepção da masculinidade ainda atrapalham um movimento mais ecológico. Um artigo da Universidade de Oxford também mostrou que eles encaram essas práticas como funções femininas, como se realizá-las fosse, de alguma forma, fazê-los “menos homens”.

“Vemos estudos que mostram que os homens, no final do dia, ainda atrelam muito essa questão de ser sustentável, de tomar conta do meio ambiente e andar por aí com uma ecobag, eles enxergam isso como algo que os ‘desmasculiniza’, que enfraquece a masculinidade. Isso é uma grande besteira. A pauta da ecologia é mundial e não específica para um único gênero”, completa Andreia.

Tendo em vista que essa visão acaba saindo sobre as mulheres, as marcas acabam inserindo essa pauta sustentável para elas. Mas, para que isso atinja um âmbito mais universal, é necessário que haja mais engajamento com eles também. “A mídia tem que trazer mais figuras masculinas, ter homens que são universalmente reconhecidos como figuras poderosas, másculas, patriarcas e que defendam essa pauta, que promovam a ação e sejam um exemplo para outros”, defende Andreia.

Para ela, é preciso entender também o que é importante para eles e incluí-los na pauta da sustentabilidade, porque apesar de não possuírem práticas ecológicas, eles também têm a demanda de que o processo seja sustentável. “O público masculino vem por outros motivos, não necessariamente pela questão ambiental. Um dos exemplos que já reparamos é que eles vêm pela praticidade, porque usar um shampoo em barra é mais prático que uma embalagem plástica, ele dura bastante, pode ser levado pra qualquer lugar porque ocupa menos espaço”, explica.

Sustentabilidade na pandemia

Embora as mulheres sejam comprovadamente mais sustentáveis, Andreia destaca que a pauta da ecologia foi mais dispersa para todos os gêneros durante a pandemia. “Um fenômeno que aconteceu nesse período foi que, quando você não sai de casa, você convive muito mais com o lixo que você produz. Quando estamos na rua, esse lixo ‘some’, você acaba não vendo essa pegada de lixo, de embalagem, porque isso se dispersa”, comenta.

De acordo com ela, a permanência no lar trouxe mais consciência para os consumidores de forma geral. “Em casa, você vê o lixo aumentando todos os dias. As pessoas começaram a ter mais consciência de tudo isso e começaram a procurar alternativas. Nesse momento, as marcas sustentáveis aparecem como uma opção diferente e o consumidor acaba pelo menos querendo testar”, completa.

Para além da percepção do lixo, a busca por produtos sustentáveis e mais naturais também cresceu para as mulheres, em específico, pela procura de itens de autocuidado. Os produtos relacionados a skin care obtiveram, de acordo com estudo da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), um crescimento expressivo. Só as máscaras faciais tiveram um aumento de 27,2% nas vendas em 2020. ” Nos momentos que temos em casa, há um espaço para ter esse tempo de auto cuidado. Há bastante procura, por parte das mulheres, por produtos naturais, que estejam em harmonia com o meio ambiente”, explica Andreia.

Gerações mais sustentáveis

Outro destaque notável por Andreia é que as gerações mais novas também estão mais preocupadas com as questões ambientais, o que cria uma demanda ainda maior por parte dos consumidores. “Hoje, temos os milleniums, a geração Z, que são consumidores que buscam por verdade, por marcas com as quais eles se identificam, marcas que têm propósito, que compartilham dos valores comuns com eles. Há essa mudança de comportamento e valores do consumidor”, destaca.

Para que as empresas se conectem com eles, é necessário, ela diz, trabalhar a interação com os usuários. “A gente enxerga que as pessoas não querem conversar com uma grande corporação, algo intangível, as pessoas querem saber de quem elas estão comprando, o que está por trás, qual é a história, elas querem interação. Acaba sendo uma relação de intimidade com o consumidor”, completa.

Outro fator importante para que as empresas criem uma conexão ainda mais forte com o consumidor é ser sustentável na prática e mostrar essas ações para os clientes. “Para você lançar uma marca e um produto, não existe só colocar uma plaquinha que afirme que você é sustentável. Você precisa realmente ser e viver isso, porque o cliente te enxerga — ainda mais em uma empresa digital”, comenta Andreia.

Ela também destaca que a preocupação com a sustentabilidade é uma questão de sobrevivência nos dias de hoje. “É inviável sobreviver a longo prazo sem estar conectado com o seu meio. A sustentabilidade não necessariamente precisa ser o core, o mais importante da marca, mas ela precisa estar em equilíbrio com o que a empresa oferece. As pessoas hoje vão atrás de informação sobre a empresa, de processo produtivo. Ser sustentável é vital para qualquer empresa”, conclui.


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