Paradoxalmente, os bancos querem fazer cada vez mais parte da vida do cliente, mas de forma quase imperceptível no seu dia a dia. Para isso, estão cada vez mais presentes em atividades que vão muito além dos serviços financeiros tradicionais. Seguros, marketplace, viagens, programas de benefícios e experiências já fazem parte da estratégia de diversas instituições para aumentar a frequência de contato com os clientes. Agora, esse movimento chega também ao lifestyle, aos acessórios e dispositivos conectados.
É nesse contexto que o Inter anuncia sua linha de wearables. Os dispositivos vestíveis foram desenvolvidos para levar funcionalidades financeiras para além da tela do celular. A novidade inclui inicialmente o Inter Ring, um anel inteligente para pagamentos por aproximação, e a Inter Wristband, pulseira conectada que também poderá ser utilizada para autenticação e acesso a experiências ligadas ao ecossistema da instituição.
O novo campo de disputa
Desenvolvidos com tecnologia NFC (Near Field Communication) passiva e integração ao Super App, os dispositivos combinam praticidade e segurança em acessórios de uso cotidiano. Nos próximos meses, o banco também pretende ampliar a linha com o lançamento do Inter Watch.
O lançamento ajuda a ilustrar os rumos que vêm sendo traçados pelo setor bancário nos últimos anos. Segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025, realizada em parceria com a Deloitte, os investimentos dos bancos brasileiros em tecnologia devem alcançar R$ 47,8 bilhões neste ano. O avanço é impulsionado principalmente por iniciativas ligadas à Inteligência Artificial, análise de dados e computação em nuvem, que vêm redefinindo a experiência dos clientes nos canais digitais.
Esse lançamento aponta para uma disputa acirrada no mercado financeiro. Isso porque bancos, fintechs e empresas de tecnologia buscam ocupar cada vez mais momentos da jornada do consumidor, reduzindo etapas e tornando as operações financeiras praticamente invisíveis.
Os dispositivos, segundo o Inter, ainda poderão funcionar como chave digital em ambientes compatíveis.
Facilidade de pagamento
Apesar da forte adesão ao pagamento por aproximação, ainda não está claro se os consumidores enxergam valor em um dispositivo dedicado para essa função. Hoje, smartphones e carteiras digitais já permitem realizar pagamentos sem contato. O que coloca para os wearables o desafio de oferecer benefícios que vão além da conveniência.
De acordo com a pesquisa recente da Abecs, associação que representa o setor de meios eletrônicos de pagamento, 72% dos brasileiros com cartão já usam aproximação em compras presenciais. E 63% deste grupo usa sempre ou quase sempre.
O cartão físico ainda lidera, com 70% de adoção nesse ecossistema, mas o celular e a carteira digital já bateram 36% de aderência.
A satisfação com a modalidade bateu 93%, um recorde histórico. O que mais chama a atenção é o salto da praticidade de não digitar senha: pulou de 38% em setembro de 2025 para 47% em março deste ano, ou seja, 9 pontos percentuais em apenas seis meses.
O banco como marca de experiência
Nesse cenário, o concorrente do anel do Inter não é outro banco. Mas, ele disputa a atenção do consumidor com empresas como Apple, Google, Mercado Livre e PicPay, que concentram pagamentos, compras, benefícios e outros serviços em seus próprios ecossistemas.
Assim, a chegada dos wearables materializa a estratégia do Inter de ampliar sua presença no lifestyle do brasileiro. Além dos pagamentos por aproximação, os dispositivos permitirão uma camada adicional de autenticação para operações financeiras e poderão ser utilizados em experiências relacionadas a viagens e eventos por meio de parcerias que estão sendo negociadas pela companhia.
“Os wearables representam uma característica que está no DNA do Inter, que é inovar para simplificar a vida das pessoas com tecnologia, conveniência e segurança”, afirma Rodrigo Gouveia, diretor-executivo de Commerce e Ecossistemas do Inter. “Com os novos dispositivos, queremos tornar cada experiência mais eficiente. Seja pela conveniência que economiza tempo ou pela segurança que traz tranquilidade. Sabemos que praticidade é um estilo de vida que faz diferença real na vida das pessoas.”
De acordo com dados da Fortune Business Insights, o mercado de tecnologia wearable, incluindo anéis, deve atingir US$ 493,26 bilhões até 2029, com um CAGR de 17,60% de 2024 a 2029. Embora ainda existam poucos dados específicos sobre o Brasil, a expectativa é que o mercado nacional acompanhe a tendência global.
A tecnologia que busca ser invisível
Embora o movimento ganhe força agora, essa não é a primeira tentativa do setor de levar os serviços financeiros para além do cartão e do celular. Em 2018, o Santander lançou pulseiras e adesivos para pagamentos por aproximação, iniciativa que posteriormente foi descontinuada. Já o Banco do Brasil mantém a Pulseira Ourocard, dispositivo que funciona como extensão do cartão de crédito para compras por NFC.
A diferença é que os wearables anunciados pelo Inter foram concebidos para desempenhar mais de uma função. Além dos pagamentos, os dispositivos atuarão como ferramenta adicional de autenticação para transações consideradas fora do padrão habitual do cliente. Em uma próxima etapa, a funcionalidade poderá ser estendida também para operações envolvendo investimentos.





