Seja por curiosidade, pressa ou para ampliar uma ideia. Pelo menos uma vez na vida, grande parte das pessoas já visitou o ChatGPT para pedir uma ajudinha. O gesto, cada vez mais comum, antecipa uma transformação maior no mercado: o futuro das empresas não está em escolher entre pessoas ou tecnologia, mas em combinar o melhor dos dois mundos.
No debate No Mundo da IA: o equilíbrio entre intuição e dados nas decisões, realizado no IACX 2026, grandes empresas revelaram bastidores do que está funcionando, o que travou e o que precisou ser reinventado para equilibrar intuição e dados na tomada de decisão. Entre todos os insights, um resume o novo momento corporativo: usar IA é expandir capacidades, e não substituir pessoas.
“Pesquisas mostram que 80% das pessoas já pediram ajuda para a IA para escrever um e-mail. O que pode revelar um déficit de capital humano na articulação. Por isso, ainda não dá para dizer que os agentes tem uma capacidade intuitiva inferior à nossa. Dizer isso é negar a importância dessa tecnologia, que já está nos transformando”, afirma Carlos Sancini, senior director of AI and Data Services da Afiniti.
Segundo ele, os desafios encontrados nas empresas continuam sendo quase sempre os mesmos: acesso a dados e qualidade dessas informações. Sem isso, não existe algoritmo milagroso, apenas expectativa. Mas, antes de implantar tecnologia, muitas organizações ainda precisam traduzir a linguagem da tecnologia para dentro da cultura do negócio. “Falar de probabilidades ainda é um tabu ainda dentro das empresas e temos que falar sobre IA de forma mais simples”, afirma.
IA para fora, IA para dentro
O executivo da Afiniti também mostra que a transformação não pode parar no cliente. Ela precisa atravessar a empresa inteira. Após a aquisição da Afiniti por um fundo de venture capital, por exemplo, a companhia passou a revisar o próprio portfólio e acelerar o uso interno de Inteligência Artificial.
“Ao mesmo tempo que a gente implanta IA nos nossos clientes, a gente tem também que revisar nosso portfólio de IA para o futuro e implantar esses agentes internamente na nossa empresa.”
A IA surge menos como substituta e mais como extensão cognitiva. Um recurso capaz de ampliar repertório, acelerar análises, organizar ideias e abrir caminhos antes invisíveis para melhorar a experiência do cliente e a forma como ele se relaciona com uma marca.

Entre a máquina e o instinto humano
O debate mostrou que, na prática, as empresas mais maduras estão escolhendo onde automatizar, em vez de automatizar tudo.
Na Ânima Educação, por exemplo, a IA foi usada na jornada com candidatos interessados em estudar, mas com o objetivo específico de levar essas pessoas ao campus presencial. “A conversão de um candidato que visita o espaço com o pai e com a mãe é muito maior depois de vivenciar essa experiência lá”, revela Bruno Machado, vice-presidente de Tecnologias Educacionais e Mindset Digital da Ânima Educação.
A IA, nesse caso, entrou como ponte para tornar o processo mais humano. Na PepsiCo Brasil, o equilíbrio entre dados e intuição passa por governança. Carolina Sevciuc, Vice-presidente de Estratégia e Transformação, comparou a estrutura de dados da empresa a um encanamento: ninguém vê, mas tudo depende dele.
“Temos uma governança de dados muito bem alinhada, como um encanamento. A gente não vê, mas é tão importante quanto a quantidade de dados que a gente tem. Fora isso armazenamos os dados de clientes sempre com um forte senso de responsabilidade”, diz.
Com mais de 20 milhões de dados de consumidores no Brasil, o desafio atual da companhia não é apenas digitalizar processos existentes, mas repensar o modelo de operação entre áreas como vendas e marketing para reorganizar relações internas. “Começamos a usar os agentes de forma separada em cada departamento. Mas, no fim, vimos que o resultado de uma área esbarrava em outras. Hoje o grande ponto para nós não é digitalizar o que já temos, mas pensar em modelos novos para companhia”, revela Sevciuc.
O risco não é usar IA
Os painelistas também compartilharam experiências sobre como a IA deve ser usada para expandir ideias, potencializar talentos e ampliar capacidades, nunca como substituta do trabalho humano.
Na Nomad, a IA já participa da rotina criativa e operacional. Segundo Tahiana D’Egmont, diretora de Growth da empresa, agentes ajudam até no filtro inicial de compliance, acelerando fluxos que antes dependeriam de validações manuais. Mas, quando o assunto é sensibilidade cultural, a presença humana se destaca. Ela cita a campanha com Will Smith falando português como exemplo de insight que nasce da leitura emocional do público brasileiro. “A IA não teria tido esse insight porque é algo cultural, de vínculo emocional do público brasileiro com um personagem”, afirma.
Para ela, o papel das lideranças agora inclui educar times para pensar melhor, perguntar melhor e usar melhor essas ferramentas. “Tem uma expectativa de achar que é apertar um botão e que a solução vai sair do outro lado. Está muito longe de ser isso.”
De acordo com a executiva da PepsiCo, o aprendizado contínuo e a disposição das pessoas em explorar novas possibilidades com as tecnologias são componentes decisivos nessa virada. “Criar repertório sobre essa ferramenta é fundamental. Encontros, trocas e eventos como esse são importantes para justamente ampliar esse conhecimento. Com essa curiosidade em mexer e dominar a IA, a gente consegue agregar sinergia, eficiência e economia para muitas áreas”, conclui Carolina Sevciuc.





