Nos últimos anos, muitas marcas resolveram apostar no rebranding e rever sua identidade visual. Seja para se renovar, seja para conquistar um novo público, o grande desafio sempre esteve na linha tênue entre legado e modernidade.
Em 2021, por exemplo, o Burger King resgatou o visual de 1969 e foi aplaudido. A Burberry fez algo parecido e trouxe de volta o símbolo do cavaleiro, que havia abandonado. E quem não se lembra da Jaguar, que trocou praticamente toda a sua herança visual por uma identidade nova e foi escrachada nas redes?
Foi nesse cenário desafiador que a McLaren apresentou recentemente sua nova identidade visual. Ao que parece, a escolha foi bem recebida pela crítica. A revista australiana B&T resumiu o episódio ao dizer que a fabricante de supercarros fez o que a Jaguar não conseguiu: não soar ridícula.
De uma oficina na Nova Zelândia para o mundo
Mas o que o caso da McLaren pode nos ensinar sobre rebranding? Antes de qualquer análise, é preciso dar um passo atrás para entender como a McLaren fez suas escolhas.
A história da companhia começa bem longe da Inglaterra, onde a empresa está sediada. O nome da marca vem de seu fundador, Bruce McLaren, piloto e engenheiro neozelandês que fundou a equipe em 1963, embrião tanto do time de corrida quanto da fabricante de carros de rua. Bruce cresceu entre ferramentas e motores. Seus pais, Les e Ruth McLaren, eram donos de um posto de serviço em Remuera, bairro de Auckland, a maior cidade da Nova Zelândia. Foi nessa oficina da família que o jovem reconstruiu o carro com o qual entrou para o mundo das corridas. É dessa oficina que vem o centro da nova identidade visual da McLaren.
No rebranding, o detalhe importa – e muito
A estratégia da McLaren não foi apenas desenterrar um logotipo antigo e reaplicá-lo como estava. Ela foi atenta ao detalhe. Foi buscar uma tipografia anterior à própria empresa, ligada ao momento em que Bruce McLaren ainda era um jovem mecânico cheio de ambições. É uma volta às origens, mas às origens humanas, não às corporativas.
O interessante também é que a nova identidade passa a ser a mesma para a McLaren Automotive e para a McLaren Racing. Uma intenção carregada de simbolismo. Décadas depois, ela estabelece o laço entre os sonhos do jovem piloto e a McLaren de hoje.

O visual
O novo logotipo (o chamado wordmark, a assinatura com o nome da marca) foi inspirado na placa que ficava sobre a fachada da oficina, construída em 1926. O letreiro já estava ali nos anos 1950, quando Bruce ainda era um jovem mecânico e a equipe McLaren nem existia. A McLaren foi buscar sua nova assinatura visual no negócio dos pais do fundador.
Muito antes do laranja e das curvas aerodinâmicas que marcaram a história da McLaren, o símbolo da marca era o kiwi, ave nacional da Nova Zelândia. O primeiro brasão da equipe foi desenhado em 1964 por Michael Turner, artista do automobilismo e amigo próximo de Bruce, e tinha como figuras centrais o kiwi, referência à origem neozelandesa do fundador, e uma bandeira quadriculada, símbolo das corridas.
Com o tempo, o pássaro ganhou novas versões. Em 1971, segundo a própria McLaren, surgiu o Speedy Kiwi, versão mais dinâmica desenhada por Doug Eyre para expressar as velocidades cada vez maiores dos carros, já pintada no laranja papaya que se tornaria marca registrada da McLaren. Bruce não viveu para ver essa fase: ele morreu em 2 de junho de 1970. O kiwi sobreviveu na identidade visual da marca até 1981. Naquele ano, a fusão com a Project Four, de Ron Dennis, levou a um novo logo, assinado pelo designer Raymond Loewy e oferecido como presente pela patrocinadora Philip Morris. O pássaro deu lugar às divisas que evocavam a bandeira quadriculada.
Na nova identidade, o Speedy Kiwi foi mantido como homenagem às raízes neozelandesas de Bruce. O papaya continua como cor definidora, agora acompanhado de uma paleta ampliada, inspirada em momentos marcantes da história da McLaren. É a trajetória da marca contada também pelas cores.






Imagens (McLaren)
É preciso correr riscos
Assim como nas pistas, o design também corre riscos e precisa ser pensado com estratégia. O lançamento da nova identidade visual da McLaren vem depois de uma série de ações da companhia ao longo de 2026 que reforçaram a história de Bruce McLaren.
Seria ingênuo ler esse movimento apenas como homenagem ao fundador. Rebranding é, antes de tudo, uma decisão de negócio. No caso da McLaren, o resgate da história do criador e de elementos da sua origem reforça o apelo comercial da marca para novos públicos, sob a ótica do sonho, da ambição e do desafio.
Esse é o ponto. Hoje, as grandes marcas competem por públicos muito parecidos. A própria McLaren deixa isso claro ao dizer que a nova identidade reflete o universo que a marca constrói para clientes, colaboradores, fãs e sua comunidade global. E, mais do que isso, ela precisa ir além do carro e dos resultados nas competições e brigar por experiências e senso de comunidade.
É o mesmo tipo de objetivo que levou outras marcas a mexer no que parecia intocável para atrair gente nova e se adaptar. O problema aparece quando o objetivo esquece a memória. Não é a ousadia nem a estética que criam atrito, mas a sensação, por parte do cliente fiel, de que algo que também era dele foi apagado sem aviso. Difícil? Evidente que sim. Mas é preciso todo cuidado quando a intenção do rebranding é renovar, e não abandonar. O que a McLaren fez parece ser a leitura correta. Não foi sobre esquecimento. Foi justamente o contrário. Foi sobre memória.
Aceite comparações
Mas vale não romantizar. Voltar às origens é quase um consenso hoje entre marcas de legado, e há riscos numa releitura. Nada pode ser forçado. A nostalgia funciona quando carrega verdade. E, nesse ponto, um rebranding desatento pode gerar comparações.
O próprio desenho da McLaren abre espaço para isso. Quem está acostumado ao universo do tênis, por exemplo, sentiu um leve déjà-vu: o novo logotipo da McLaren lembra o da HEAD. E há quem enxergue nele um parentesco com a Mastercard, patrocinadora oficial da equipe McLaren de Fórmula 1. Uma ironia e tanto para uma identidade que nasceu justamente para homenagear o fundador, e não um patrocinador.



Pode ser só implicância de quem passa tempo demais olhando para a experiência do cliente com as marcas, mas é justamente esse o risco de toda criação “limpa” demais. Ao deixar de lado as excentricidades, comuns em marcas icônicas e de luxo, o rebranding se aproxima de tudo o que já existe no mercado.
A McLaren preferiu mostrar de onde veio para dizer para onde vai. Esse é o maior teste de todo rebranding: continuidade, e não apenas inovação. Bruce McLaren escreveu certa vez que a vida se mede em realizações, não apenas em anos. A marca que leva o nome dele parece ter entendido que o mesmo vale para uma identidade visual. Não importa há quanto tempo ela existe, e sim o quanto ainda consegue criar conexão com o público.
Assista o vídeo oficial:





